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BIOGRAFIA ERSAMO DE ROTTERDAM
BIOGRAFIA ERSAMO DE ROTTERDAM

    Erasmo, precursor e pacificador Biografia de Erasmo de                                             Rotterdam.

 

Entre a heterogênea multidão de personagens destacados do século XVI –entre os quais destacam, sem dúvida, os reformistas e contrarreformistas–, Erasmo de Rotterdam ocupa, para nós, de uma perspectiva exclusivamente religiosa, um lugar muito secundário. No entanto, em seu século não foi assim. Ao contrário, de todos os homens que influenciaram na gênese da Reforma Protestante, Erasmo ocupa um lugar principal. Embora sempre se mantivesse por detrás dos bastidores, como um intelectual encerrado entre quatro paredes, as suas cartas com as principais figuras políticas e culturais da época, e os seus livros, ajudaram a criar as condições para que a revolução religiosa que teria de vir fosse possível.

 Erasmo de Rotterdam nasceu em Gonda, perto de Rotterdam, em 1466. Foi filho ilegítimo de um seminarista próximo a ordenar-se e de sua governanta. Os seus pais faleceram quando Erasmo tinha 14 anos aproximadamente (em 1483) em uma grave epidemia de peste.

 Sua educação precoce recebeu entre os «irmãos da vida comum», com quem aprendeu o Devotio Moderno, que se enfocava nos aspectos práticos da espiritualidade cristã, como a oração, o estudo da Escritura, o exemplo de Cristo e a meditação. Desta maneira, esteve vinculado desde o começo, com uma larga tradição de crentes e devotos medievais, que procuraram aproximar-se diretamente de Deus, sem mediadores e intermediários, de uma maneira simples e singela.

 Os irmãos da vida comum estavam, além disso, estreitamente aparentados com os «Unitas Fratum» da Boêmia. De fato, Erasmo estudou em uma das escolas que estes últimos fundaram em Deventer. Assim, a sua carreira se entronca com uma larga corrente de irmãos que mantiveram levantada a tocha da fé nos dias de maior escuridão e perseguição, para os quais os evangelhos eram mais preponderante que as epístolas e a prática cristã mais que a teologia; ênfase que teria que moldar-se até certo ponto ao movimento anabatista e, depois deles, nos moravios.

 Mais tarde, Erasmo ingressou sem vocação no convento dos agustinos de Steyn, sendo ordenado sacerdote no mesmo ano que Colombo chegava a América. No convento se encontrava a maior biblioteca clássica do país, por isso, a maior parte do tempo o jovem Erasmo se dedicava à leitura e à pintura.

 Erasmo nunca encontrou prazer no ofício sacerdotal; de fato, jamais o exerceu. Com grande habilidade, resolveu não usar o traje sacerdotal, e evitar os rígidos exercícios piedosos e a disciplina dos conventos. Mais tarde obteve uma dispensa papal para viver e vestir-se como um erudito laico.

 Formação do humanista

 Aos 26 anos de idade escapuliu do claustro, mas não renunciou aos hábitos, mas obtendo um posto como secretário do bispo de Cambraia, que viajava para a Itália. Assim teve oportunidade de conhecer personalidades da cultura e da igreja, e, sobretudo, pôde dedicar-se com paixão aos seus estudos clássicos. Algum tempo depois, obteve bolsa de estudo e pensão para viajar a Paris e continuar os seus estudos de teologia.

 Em uma viagem para a Inglaterra no final de 1499 conhece a John Colet, que na ocasião dava uma conferência sobre os escritos de Paulo. Isto despertou em Erasmo o desejo de conhecer mais profundamente as Escrituras.

 Em 1500, Erasmo publicou os seus «Adágios», que consistem em mais de 800 frases, máximas ou provérbios derivados da tradição greco-latina, junto com notas a respeito de sua origem e do seu significado. A hábil seleção de Erasmo economizava aos senhorios da sociedade o trabalho de ler os clássicos. A maioria desses provérbios ainda são utilizados no dia de hoje. Erasmo trabalhou nos «Adágios» durante o resto de sua vida, a tal ponto que a coleção cresceu em 1521 até conter 3.400 deles, sendo 4.500 no momento de sua morte. O livro alcançou mais de 60 edições, uma cifra sem precedentes para o ano de 1500.

 Foi na Inglaterra que Erasmo descobriu o seu paraíso e a sua verdadeira vocação. Ali era admirado sem censura nem desprezos de classes. Era reconhecido como intelectual, por seu elegante latim, por sua arte de conversador. Fez-se amigo das mais conotadas figuras da intelectualidade: Tomam Moro, John Fisher, John Colet; tanto que os arcebispos Warham e Cranmer foram os seus protetores. Na Inglaterra adquire o trato social e o sentido de universalidade que o mundo admiraria mais tarde.

 No entanto, Erasmo não se tornou inglês. Ofereceram-lhe um posto vitalício no Colégio da Rainha da Universidade de Cambridge e, se o desejasse, poderia ficar o resto da sua vida ensinando Ciências Sagradas aos melhores da realeza e da nobreza inglesa. No entanto, a sua natureza inquieta e migrante e sua aversão à rotina, fizeram-no recusar esse cargo e todos os que lhe ofereceriam no futuro. Era um cosmopolita, e como tal, os seus afetos estavam em todas as partes e com todas as pessoas que amavam o saber.

 Em 1503 Erasmo publica o primeiro dos seus livros mais proeminentes: o «Manual do Soldado Cristão». Neste pequeno volume Erasmo delineia os principais aspectos da vida cristã. A chave de tudo, diz no livro, é a sinceridade. O Mal se oculta dentro do formalismo, do respeito pela tradição, e do consumo, mas nunca no ensino de Cristo.

 Durante toda a sua vida, Erasmo foi um inimigo de toda institucionalidade, especialmente religiosa. Identificava o cerimonial da Igreja com o âmbito da aparência e a irrealidade. Em suas investigações, suas fontes não foram as que usualmente eram aceitas, o que firmou as bases para um pensamento livre e sem as ataduras acadêmicas em voga. Aborrecia os métodos disciplinadores severos nas escolas, porque eram aplicados por pessoas –monges em sua maioria– que viviam em um evidente «relaxamento moral».

 Entre 1506 e 1509 Erasmo viveu na Itália. Enquanto obtinha o seu doutorado na Universidade de Turim, comprovou que o espírito medieval dominava as estruturas de pensamento e a prática do mundo acadêmico. O pensamento, segundo a visão de Erasmo, tinha retrocedido aos primeiros séculos. Desde então se tornou um incansável lutador contra o entorpecimento ideológico que imperava em todas as instituições intelectuais, políticas e sociais de sua época. Com as idéias dos agustinos e alguns conceitos de John Colet começou a analisar o núcleo essencial dos textos clássicos, modernizando os seus conteúdos para que qualquer um pudesse penetrar o seu significado.

 Entre 1506 e 1509 Erasmo viveu na Itália, a maior parte do tempo trabalhando no editorial do Aldus Manutius em Veneza. Novamente lhe ofereceram cargos sérios e vantajosos, especialmente como educador, ao qual ele respondia que preferia não aceitá-los, porque o que ganhava na casa editora, embora não era muito, era-lhe suficiente.

 A partir destas conexões com universidades e literatos, Erasmo começou a rodear-se de quem pensava igual a ele quanto a rejeição pelos procedimentos e sistemas estabelecidos (em especial a própria Igreja). No entanto, nem todos simpatizavam com ele: haviam aqueles que eram hostis aos princípios de crescimento literário, espiritual e religioso que postulava. Estes opositores começaram a criticá-lo tanto em público como de forma privada, e pode ser esta a causa pela qual Erasmo deixou a Itália e se refugiou na Basiléia, Suíça.

 

Sua obra mestra

 Quando saia em viagem da Itália escreveu a sua obra mais conhecida: «Elogio da loucura», em 1509. Nela Erasmo usou um artifício para poder criticar as instituições, do papado para baixo, sem pagar o preço por isso. Em seu livro, Erasmo não fala por si mesmo, mas sim, em lugar dele, faz que a Stultitiae, a Loucura, falasse. Disso se origina uma divertida situação, pois não se sabe nunca quem é, na realidade, aquele que tem a palavra. Erasmo é que fala seriamente, ou é a pessoa da Loucura que fala, e a quem terá que perdoar até o mais descarado – porque no fim das contas, quem pode dar crédito a um louco?

 No tempo em que imperava a intolerância –não esqueçamos a todo-poderosa Inquisição– essa era a única forma de dizer o que todo mundo via mas que ninguém se atrevia a denunciar. A Loucura pronunciava o que eles secretamente queimavam centenas de milhares de homens. O livro encantou a todos – inclusive os que acusaram o golpe. «Como quem não quer nada», as suas precisas caricaturas faziam alusão a toda classe de pessoas, sem distinção.

 Para Erasmo, todos os homens e as instituições religiosas estavam sob o governo da Loucura, porque tinham se afastado do verdadeiro cristianismo. Por isso, deveriam fugir das aparências, desse teatro da inautenticidade, e recuperar a espiritualidade primitiva através de uma sincera vivência individual.

 A Loucura dizia em uma parte do seu discurso: «Se os sumos sacerdotes, os papas, os representantes de Cristo, se esforçassem por serem semelhantes a ele em sua vida, se sofressem a pobreza, suportassem os seus sofrimentos, participassem da sua doutrina, tomassem consigo a sua cruz e o seu desprezo do mundo, quem sobre a terra seria mais digno de lástima que eles? Quantos tesouros não ganhariam os santos padres se a sabedoria, se um só grão do sal de que fala Cristo, apoderasse uma só vez do seu espírito! Em lugar daquelas imensas riquezas, aquelas divinas honras, a distribuição de tantos empenhos e dignidades, de tão numerosas dispensas, de tão diversos impostos e de gozos e prazeres tão diversos, se apresentasse em noites sem sono, dias de jejum, orações e lágrimas, exercícios de devoção e mil outros desconfortos».

 Às vezes o tom passa de leve a grave, e desferia um golpe mais profundo: «Como toda a doutrina de Cristo prega a doçura, a paciência e o desprezo de tudo o que é terreno, aparece claramente diante dos olhos o que isto significa. Cristo desarma de tal modo os seus embaixadores, que recomenda que se despojem não só do seu calçado e da sua blusa, mas também da sua túnica, a fim de que entrem nus e livres de todos os bens na carreira evangélica. Não os deixa levar senão a sua espada, mas esta espada não é aquela cheia de mal de que se armam os bandidos e os parricidas, mas a espada do espírito, que penetra até o mais profundo do íntimo da alma e que de um só golpe corta nela todas as paixões, para que adiante só a piedade floresça no coração».

 Este livro, na aparência uma farsa, é –como escreve um comentarista– um dos livros mais perigosos do seu tempo, e foi na realidade a explosão que deixou livre o caminho para a Reforma.

 Mas o espírito refinado de Erasmo não advogava por uma reforma aberta e violenta. Ele defendia um renascimento da piedade e da pureza no seio da Igreja Organizada, longe das exterioridades e frivolidades. Vale dizer, uma «reforma no interior». Erasmo nunca renunciou à Igreja de Roma, e sempre manteve um declarado respeito para com os prelados.

Erasmo não combatia os detalhes de doutrina, mas enfatizava o grosso e medular. Limitava-se a acentuar que a observância das formas externas, em si mesmos, não é a verdadeira essência da piedade cristã, que unicamente no interior se decide a verdadeira medida da fé do ser humano. Mais decisivo que a excessiva observância de todos os ritos e preces, que todos os jejuns e que ouvir todas as missas, é a direção pessoal da vida no espírito de Cristo.

 

Um retorno às fontes

 Como homem culto e profundamente cristão, Erasmo procurou conciliar as bonae litterae com as sacrae litterae. E para poder fazê-lo, se propôs explorar as fontes originais do cristianismo, porque ali fluía limpo e puro o evangelho sem a mescla de nenhum dogma nem tradição. Erasmo mostrou quanto se desvalorizou o sentido original das Escrituras e de que modo as autoridades exegéticas se valeram do seu poder e autoridade para fazê-lo.

 Em 1504, treze anos antes de Lutero, Erasmo escreveu: «Não sou capaz de expressar como me dirijo quando dou asas aos livros sagrados, e como me repugna tudo o que me separa deles, ou pelo menos, estorva-me». Erasmo pensava que a vida de Cristo, tal como é referida nos Evangelhos, não devia seguir sendo por mais tempo privilégio dos religiosos e de pessoas que sabia latim. Todo o povo podia e devia participar dela, «o aldeão deve lê-la detrás do seu arado, o tecelão em seu tear»; a mulher em seu ensino aos filhos.

 Para poder levar a cabo esta magna obra de tradução da Bíblia às línguas nacionais, Erasmo percebe que também a Vulgata, a única versão latina da Bíblia existente, consentida e aprovada pela Igreja, tinha experiente desfigurações e continha muitas inexatidões. A versão que ele visualizava não deveria ter nenhuma mancha terrena, nada particularmente torcido. Assim, atualiza cuidadosamente uma versão grega do Novo Testamento, e o traduz para o latim, acompanhando as suas inovações com um minucioso comentário crítico.

 Esta nova tradução da Bíblia que apareceu simultaneamente em grego e em latim, em 1516, na Basiléia, é um novo passo para a revolução que já se incubava. Em um gesto de profunda ironia, e de sutil diplomacia, Erasmo dedicou a sua versão da Bíblia ao papa Leão X, quem representava tudo o que o escritor rejeitava na Igreja. O Papa a aceita, lisonjeado, e responde afetuosamente com um: «Causou-nos alegria». Inclusive chega a elogiar o zelo com que Erasmo se dedicava às Sagradas Escrituras.

 Nesta nova tradução se apoiou depois Martin Lutero para levar finalizar o seu estudo da Bíblia, no qual fundamentaria toda a sua teologia posterior. É por isso que o trabalho de Erasmo teve ressonâncias históricas que persistem até o dia de hoje e o encontra na mesma gênese do protestantismo. O texto grego publicado por Erasmo –conhecido como «textus receptus»– é a base de todas as traduções protestantes posteriores até princípios do século XX.

 É também a base da versão inglesa da Bíblia conhecida como «Bíblia King James», e de outras muitas versões, como a Reina-Valera, em espanhol. Tem a particularidade de representar a primeira aproximação de um sacerdote e acadêmico livre, para compreender e traduzir com certeza o que os escritores bíblicos tinham tentado expressar. Esta tarefa não se empreendeu nunca no passado.

 Logo que publicou o texto, Erasmo empreendeu imediatamente a redação de sua «Paráfrase do Novo Testamento», a qual, em vários tomos e em uma linguagem popular, punha ao alcance de qualquer um os conteúdos completos dos Evangelhos, aprofundando com precisão inclusive em seus aspectos mais complexos. Como toda a obra de Erasmo, o original estava escrito em latim, mas o seu impacto na sociedade renascentista foi tão grande que imediatamente traduziu-o para todas as línguas comuns dos países europeus. Erasmo aprovou e agradeceu estas traduções, porque compreendia que poriam a sua obra ao alcance de muitíssimas pessoas, algo que nunca poderia obter o original na língua culta.

 Trabalhador incansável

Erasmo era um amante dos livros. Os amigos que ele visitava tinham sempre nutridas bibliotecas, e para ele esse era sempre o lugar da casa mais atrativo. Estava acostumado a dizer: «Quando tenho um pouco de dinheiro, compro-me livros. Se sobrar algo, compro-me roupa e comida». Os livros eram os seus amigos silenciosos e não violentos, e o seu trato com isto foi mais que freqüente.

 Erasmo desenvolveu uma estranha habilidade para escrever, e para falar sobre temas controversiais com gentileza e elegância. Um biógrafo explica: «Pela décima parte das audácias que Erasmo expôs em sua época, outros foram levados à fogueira; pois as expunham torpemente e sem apontamentos, mas os livros de Erasmo eram acolhidos com grandes honras pelos papas e príncipes da igreja, por reis e por duques, graças a sua arte literária e humanística de envolver as coisas, Erasmo deslizou de contrabando nos conventos e nas cortes dos príncipes toda a matéria explosiva da Reforma».

 De saúde e gostos delicados, era não obstante, um trabalhador incansável. Simultaneamente escrevia vários livros, e os publicava com igual profusão. Dormia pouco e trabalhava muito. «Escrevia em suas viagens, nos solavancos da carruagem; em toda pousada a mesa se convertia imediatamente em escrivaninha de trabalho». Estava a par de tudo o que ocorria no mundo cultural e político do seu tempo. A sua palavra, embora aguda, era sempre mesurada e sábia; a sua opinião era valorada por todos os homens cultos de sua época, não importa de que partido ou grupo fossem. Seu claro entendimento sempre produzia luz sobre as coisas, ordenando-as e simplificando-as.

 Mas Erasmo foi homem de reflexão e estudo, não um homem de ação. Ele iluminou o caminho para muitos, mas nem sempre ele próprio o percorreu.

 O mundo se rende aos seus pés

No período compreendido entre os seus quarenta e cinqüenta anos de idade, Erasmo alcança o apogeu de sua glória.

 Todo mundo o louvava e se rendia aos seus pés. Se no passado ele procurava o favor dos grandes, agora são os grandes que procuram o seu favor. Imperadores e reis, príncipes e duques, ministros e homens de letras, papas e prelados, competem por alcançar o favor de Erasmo. Carlos V lhe oferece um assento em seu conselho; Henrique VIII quer ganhá-lo para a Inglaterra; Fernando da Áustria para Viena; Francisco I para Paris; da Holanda, Brabante, Hungria, Polônia e Portugal vêm as propostas mais sedutoras; cinco universidades disputam a honra de lhe oferecer uma cadeira; três papas lhe escrevem epístolas respeitosas. Jamais um homem em particular possuiu na Europa um poder universal tão grande, somente em virtude dos seus valores intelectuais e morais. Em seu quarto se amontoavam ricos presentes. Erasmo, de forma prudente e cética, aceita cortesmente estas honras, mas não se vende. Mantém-se independente e livre. Não quer ser amo nem servo de ninguém.

 É difícil de explicar um fenômeno como este em nosso século. Erasmo era mais que um fenômeno literário; chegou a ser a expressão simbólica dos mais secretos desejos espirituais coletivos. Era a figura do humanista cristão, universal, não subordinado a partido algum, piedoso, sábio, ponderado, e as vezes audaz, capaz de dizer o que ninguém se atreve a dizer, e dizê-lo com fineza, elegância – esse fino estilo clássico tão admirado em seu tempo.

 

Este firme desejo de ser livre, de não querer prender-se a ninguém, fez de Erasmo um nômade durante toda a sua vida. Infatigavelmente, viajou por toda a Europa. Nunca foi rico, mas nunca pobre, nunca esteve preso a esposa nem a filhos. Não ansiava ser soberano de ninguém, nem tampouco súdito de ninguém.

Erasmo, precursor e pacificador

Biografia de Erasmo de Rotterdam (2ª Parte)

  Erasmo de Rotterdam nasceu em 1466, filho ilegítimo de um seminarista e sua governanta. A sua primeira educação recebeu dos "irmãos da vida comum", com uma ênfase na vida interior. Sacerdote sem vocação, aos 26 anos começa a se relacionar com as altas personalidades da Igreja e a cultura, dedicando-se com paixão aos estudos clássicos. Bem cedo se torna famoso graças a sua obra "Adágios", e se faz célebre com a publicação de "Elogio da Loucura", aos 43 anos de idade. Nesta obra, Erasmo consegue realizar picantes críticas à Igreja estabelecida, mediante um artifício literário, que lhe exime de receber condenação por elas. No entanto, o que mais influenciou para o surgimento da Reforma foi a publicação, em 1516, do seu Novo Testamento em grego e latim, conhecido como "Textus Receptus", o qual é a base de todas as traduções do mesmo para as línguas modernas. Graças aos seus altos dotes intelectuais, o seu refinamento e diplomacia, Erasmo ganhou o favor de intelectuais, reis e prelados. Faz-se amigo de todos, mas não se comprometeu com ninguém.

 Erasmo e Lutero

 Como se tem dito, a publicação bilíngüe do Novo Testamento em grego e latim serviu a Lutero e aos reformistas para um estudo mais objetivo das Escrituras. Lutero admirava a Erasmo, e quando Lutero publicou as suas 95 teses, Erasmo pôde perceber claramente a valentia e temeridade do jovem agostiniano. "Todos os bons amam a sinceridade de Lutero", disse. "Lutero censurou muitas coisas de modo excelente, mas é uma lástima que não o tenha feito com maior medida. Parece-me que alcançaria mais com a modéstia do que com a violência. Assim se submeteu Cristo ao mundo".

 O que preocupava a Erasmo não eram as teses de Lutero, mas o tom da eloqüência, o sotaque empolado e exagerado que aparece em tudo o que Lutero escrevia e fazia. Dado o seu caráter pacífico e prudente, Erasmo tivera preferido uma discussão acadêmica, circunscrita ao círculo das pessoas instruídas. Lutero ao contrário, que era puro coração e veemência, fazia as coisas de maneira muito diferente. Erasmo pensava que o homem espiritual só devia formular claramente as verdades, para que estas sejam as que façam o trabalho, e não ter que tirar a espada para defendê-las.

 Desde o começo, Lutero se esforçou por ganhar o apoio de Erasmo. Por sugestão de Melanchthon, escreveu-lhe em 28 de março de 1519, uma carta muito elogiosa; mas a resposta de Erasmo não foi a que ele esperava. Em sua parte final, Erasmo respondeu: "Quanto ao que me cabe, mantenho-me neutro para melhor poder fomentar as ciências que de novo começam a florescer, e creio que se alcançará mais com uma reserva hábil do que com uma intervenção violenta". E logo depois aconselha a Lutero que guarde moderação.

 Lutero transformou as colocações de Erasmo em um ataque contra o papado. Como dizem os teólogos católicos: "Erasmo pôs os ovos que chocou Lutero". (O que Erasmo haveria de responder com a não menos conhecida ironia: "Sim, mas eu esperava um frango de outro tipo"). Onde um abriu prudentemente a porta, o outro se precipitou com toda impetuosidade; e o mesmo Erasmo teve que confessar, dirigindo-se a Zuínglio: "Tudo o que Lutero exige, eu também tinha ensinado, só que não com tanta violência, nem com aquela linguagem que está sempre procurando os extremos".

 O que os separava, na opinião de Erasmo, era o método. Ambos formularam o mesmo diagnóstico: que a Igreja se encontrava em perigo de morte, que perecia internamente a causa das suas corrupções. Mas enquanto Erasmo prescreve um lento e progressivo tratamento, Lutero se lança a realizar um corte sangrento. Erasmo afirmava: "A minha firme decisão é que é melhor deixar que me despedacem membro a membro que favorecer a discórdia, especialmente em assuntos da fé".

 Existia, contudo, uma diferença mais profunda. O grande abismo que os separou definitivamente foi a sua visão do que realmente precisava ser reformado: Para Erasmo eram a moral e a conduta depravada e escandalosa do clero; para Lutero, era a própria teologia, que fazia a salvação depender dos méritos humanos e não "somente" da graça.

 Aparentemente, neste ponto, a razão estava do lado de Lutero. A Cristandade não só tinha transtornado a moral do cristianismo, mas também a sua própria essência. É obvio, o monergismo(1) extremo de Lutero neste aspecto, como se explica mais adiante, terminou por afastar o 'humanista' Erasmo das suas colocações, quem, como todo bom renascentista, não podia tolerar uma visão tão negativa da condição humana.

 

Erasmo, o pacifista

 Erasmo prevê que a briga que Lutero estava realizando poderia trazer conseqüências religiosas e sociais imprevisíveis, e trata inutilmente de evitá-la.

 

Em meio a todo um ambiente entusiasmado, Erasmo representa a razão e a prudência. Armado somente de sua caneta, defende a unidade da Europa e a unidade da Igreja contra o que ele considera ser a ruína e o aniquilamento.

 Erasmo inicia, então, a sua missão de mediador com o intento de apaziguar Lutero. "Nem sempre deve ser dita toda a verdade. Depende muito do modo como se é dito". Tenta fazer-lhe ver que ele está ensinando o evangelho de maneira pouco evangélica. "Desejaria que Lutero, durante algum tempo, se abstivesse de toda discussão, e se dedicasse às questões evangélicas de um modo puro e sem mistura de alguma outra coisa. Teria um maior êxito". Erasmo temia que as questões teológicas, discutidas aos berros diante das multidões inquietas e acostumadas às pendências, poderia produzir uma rebelião social sangrenta.

 Da mesma maneira como Erasmo aconselha Lutero a prudência e a moderação, também escreve ao papa e aos bispos para aconselhá-los. Diz-lhes que talvez tenham procedido com excessiva dureza ao enviar a Lutero a carta de excomunhão; que Lutero teria que ser sempre reconhecido como um homem totalmente honrado, cuja conduta em geral é louvável. "Nem todo engano é em si uma heresia. E sim, tem escrito muitas coisas precipitadamente do que com má intenção".

 Erasmo era um convencido pacifista. Compôs contra a guerra não menos de cinco escritos em um tempo de contínuas lutas. Um dos seus adágios diz: "Só é doce a guerra para quem não a experimenta". As suas denúncias eram categóricas: "chegou-se a tal ponto, que passa por bestial, néscio e anticristão o que se fala contra a guerra". Erasmo reprova fortemente à Igreja por ter renunciado à paz: "Não se envergonham os teólogos e mestres da vida cristã de serem os principais incitadores, promotores e fomentadores daquilo que o nosso Senhor Jesus Cristo odiou tanto e de modo tão grande?" - exclama com ira. "Como podem reunir o bastão episcopal e a espada, a mitra e o capacete, o evangelho e o escudo? Como é possível pregar a Cristo e a guerra, com a mesma trombeta proclamar a Deus e ao demônio?". Para Erasmo, o 'eclesiástico belicoso' não é outra coisa que uma contradição à Palavra de Deus.

 Mas nem Lutero nem Roma escutam a voz do pacificador. Os ânimos estavam acesos, e nada os poderia apagar. Muito sangue iria ser derramado, se bem que cada um dos grupos tinha esquecido completamente os mais profundos ensinos do evangelho. Quando os argumentos não bastaram, a espada começou a falar.

 Erasmo vive dias difíceis. Não pode defender com sincero coração à igreja do papa, já que ele, nesta luta, foi o primeiro a censurar os seus abusos e exigiu a sua renovação; mas também não pode alinhar-se com os protestantes, porque não levam ao mundo a idéia do seu Cristo de paz, mas se converteram em rudes fanáticos. "Eles se levantam como os únicos interpretes da verdade. Noutro tempo, o evangelho se tornava doce aos bárbaros, benfeitores aos bandidos, pacíficos aos briguentos, abençoador aos maldizentes. Mas estes agora, exaltados e sem controle, cometem todo tipo de atropelos e falam mal das autoridades. Vejo novos hipócritas, novos tiranos, mas nenhuma faísca de espírito evangélico".

 Todos pretendem ganhar a Erasmo para a sua causa, mas ele não se junta a ninguém. Tampouco os despreza; na realidade, escreve cartas pacifistas a um e ao outro lado. Justifica assim a sua postura: "Não posso fazer outra coisa a não ser odiar a discórdia e amar a paz e a compreensão entre as pessoas, pois reconheci quão obscuro são os assuntos humanos. Sei quanto é mais fácil provocar a desordem do que apaziguá-la. E como não confio, para todas as coisas, em minha própria razão, prefiro me abster de ajuizar, com plena convicção, o modo de ser espiritual de outra pessoa. O meu desejo seria que todos reunidos combatessem pela vitória da causa cristã e do evangelho da paz, sem violências, e só no sentido da verdade e da razão, de forma que nos puséssemos de acordo... Mas se alguém deseja me enredar na confusão, não me terá consigo como guia nem como companheiro".

 Em uma carta dirigida a um amigo fanático, que é rejeitada por ambos os lados, e que busca o seu apoio, lhe diz: "Em muitos livros, em muitas cartas e em muitas discussões tenho declarado inflexivelmente que não quero verme misturado em nenhum assunto partidarista... amo a liberdade; não quero nem posso servir jamais a um partido".

 Mas, o não tomar partido foi uma jogada perigosa, porque é conhecido que os indecisos são atacados igualmente por qualquer dos grupos em conflito, ou por ambos de uma vez.

 

Uma discussão teológica

 As pressões eram tão grandes sobre Erasmo, que em 1524 decide escrever uma obra que trata um tema meramente acadêmico, mas que mostra a sua controvérsia com o luteranismo: Do libero arbítrio (Sobre o livre-arbítrio). Lutero era um recalcitrante agostiniano referente à predestinação. Para Lutero, a vontade do homem permanece sempre presa a vontade de Deus. Não lhe atribui nenhum grama de liberdade, pois tudo o que realiza foi previsto por Deus; por meio de nenhuma obra, de nenhum arrependimento, pode o homem elevar a sua vontade e libertar-se dessa união: unicamente a graça de Deus é capaz de dirigir o homem ao bom caminho.

 Erasmo não pensava exatamente assim. Em um dos seus livros publicado em 1524, ele declara não ter "prazer algum por estabelecer afirmações incomovíveis", que sempre se inclina pessoalmente para a dúvida, embora com prazer, aceite submeter-se às Sagradas Escrituras e à Igreja. Por outro lado -continua- nas Sagradas Escrituras estes conceitos estão expressos de um modo misterioso e que não pode ser aprofundado por completo; por isso, acha também perigoso negar, tão absolutamente como o faz Lutero, a liberdade da vontade humana.

 Isto não significa, segundo Erasmo, que a afirmação de Lutero seja totalmente falsa, mas tem reparos para a afirmação de que todas as boas obras que faça o homem não produzam fruto algum diante de Deus e sejam supérfluas. Se, como quer Lutero, tudo se submete unicamente à misericórdia de Deus, que sentido teria ainda para os homens realizar o bem? Pelo menos deveria deixar ao homem a ilusão da sua livre vontade, a fim de que não se desespere e que Deus não apareça como cruel e injusto. E acrescenta: "Me uno à opinião daqueles que entregam alguma coisa à vontade livre, mas a maior parte para a divina misericórdia, pois não devemos tratar de nos desviar da Escila do orgulho para sermos jogados contra o Caribdis do fatalismo". Erasmo pensava que a responsabilidade pessoal é necessária para que o homem não se converta em um ser negligente e ímpio.

 A verdade é que Lutero chegou a uma postura quase antinomianista(2) com a sua afirmação, "simultaneamente justo e pecador" ao explicar a doutrina da justificação. A colocação de Lutero, sem estar errado, era incompleta, e derivou facilmente em uma espécie de nominalismo exterior e sem realidade entre alguns dos seus seguidores. A solução que Erasmo propôs era uma espécie de compromisso intermediário entre o catolicismo e o protestantismo dos seus dias. A vontade está corrompida, mas não completamente, de maneira que ainda ficam rastros de livre arbítrio no homem. A graça de Deus liberta o livre arbítrio, para que este coopere com ela. Dizia Erasmo aos luteranos: "Concordamos em que somos justificados pela fé, isto é, que os corações dos fiéis são justificados pela fé, contanto que reconheçamos que as obras de caridade são essenciais para a salvação".

 Neste caso, deve-se reconhecer que Lutero tinha captado algo da essência do evangelho que talvez Erasmo nunca chegasse a captar. O seu brado "só a fé, só a graça e só a Escritura", não era um simples desacordo sobre 'pormenores', mas um assunto que tocava a própria medula da fé. Talvez possamos não simpatizar com a veemência extrema com que Lutero defendeu os seus pontos de vista, mas com o seu ardor por defender a essência do evangelho, que para ele tinha sido a própria luz da revelação divina depois da escuridão.

 Mas, Lutero não haveria de perdoar tal desacordo de Erasmo, e daí em diante lança fortes críticas contra ele. Qualifica-o de "homem ardiloso e pérfido que tem zombado junto de Deus e da religião", e que "dia e noite está inventando palavras ambíguas, e quando se pensa que tem dito muito, não tem dito nada". Com fúria, diz aos seus amigos à mesa: "Deixo consignado em meu testamento, e tomo a todos como testemunhas, que tenho a Erasmo como o maior inimigo de Cristo, tal como em mil anos jamais houve algum outro".

 

Fugindo do furor das paixões

 Erasmo, enquanto isso, busca a tranqüilidade para dedicar-se aos seus trabalhos acadêmicos. No entanto, até a Basiléia é alcançada pela furiosa onda. A multidão assalta as capelas e arranca as imagens. Erasmo se vê obrigado a emigrar outra vez.

 O seu próximo destino será Friburgo, na Áustria. "Por isso vejo que o meu destino é ser lapidado pelas duas partes em disputa, enquanto eu ponho todo o meu empenho em aconselhar a ambas as partes", dizia. Em Friburgo, os amigos o receberam com um palácio preparado, mas escolheu viver em uma casinha pequena junto a um convento de frades, para trabalhar ali em silêncio e morrer em paz.

 A história não podia criar um símbolo mais grandioso para este homem de consensos, que em nenhuma parte é aceito porque não aceita inscrever-se em nenhum grupo: de Lovaina teve que fugir porque a cidade era muito católica; da Basiléia, porque se tornou muito protestante.

 Da sua casa em Friburgo, Erasmo contempla à distância como a violência aumenta a cada dia. Entre Roma, Zurich e Wittenberg se guerreia barbaramente; entre a Alemanha, França e Itália e Espanha acontecem infatigavelmente as campanhas militares, como errantes tempestades; o nome de Cristo se tornou um brado de guerra e pendão para ações militares.

 Já não tinha sentido seguir sendo um mediador e reconciliador em uma época assim. A humanidade culta, irmanada pela fé e a cultura, é um sonho que se acaba definitivamente para Erasmo. Ninguém aspira compreender o outro, as doutrinas são lançadas na face do inimigo como se fossem estiletes.

 A sua própria figura tem caído no descrédito. Em Paris queimam o seu amigo e tradutor; na Inglaterra os seus amigos Tomás Moro e John Fisher caem pela guilhotina. Quando Erasmo recebe a notícia, balbucia fragilmente: "É como se eu tivesse morrido com eles". Zuínglio, com quem trocou cartas e palavras amáveis, tinha sido morto espancado em Kappel; Tomas Münzer foi martirizado horrivelmente. Aos anabatistas é arrancada a língua, os pregadores eram despedaçados com tenazes em brasa, e os queimavam amarrados ao poste dos hereges; queimavam os livros, queimavam as cidades.

 Decepcionado e triste, Erasmo estava cansado da vida. "Os meus inimigos aumentam, os meus amigos desaparecem". Então surge dos seus lábios a súplica "que Deus por fim me chame e me retire para fora deste mundo cheio de furor".

Não obstante, Erasmo continuou em Friburgo com a sua incansável atividade literária, chegando a concluir a sua obra mais importante deste período: o "Eclesiastes" (ou 'Qohelet', chamado 'O Pregador'), paráfrase do livro bíblico do mesmo nome, na qual o autor afirma que o trabalho de pregar é o único ofício verdadeiramente importante da fé católica. Este conceito, curiosamente, é tipicamente protestante.

 Por motivos que os historiadores não conseguiram desvendar, Erasmo se deslocou pouco depois da publicação deste livro para a cidade da Basiléia uma vez mais. Fazia seis anos que tinha partido, e imediatamente se juntou perfeitamente com um grupo de teólogos (anteriormente católicos) que agora analisavam pormenorizadamente a doutrina luterana.

 Isto causou ainda mais distancia com o catolicismo, que Erasmo manteria até a sua morte. De fato, todas as obras de Erasmo foram censuradas e incluídas no "Índice de Obras Proibidas" pelo Concílio de Trento.

 Erasmo morreu na Basiléia em 1536. Ao morrer, o humanista que toda a vida falou e escreveu em latim, esquece subitamente esta língua habitual, e balbucia em sua língua materna: 'Lieve God', aprendido de menino em sua pátria. A primeira e a última palavra de sua vida têm idêntico sotaque holandês.

 O seu legado

 A venerável figura de Erasmo como cristão e como intelectual, que deveria ter tido uma ampla aceitação e reconhecimento de todos, foi desprezada pelos principais atores do seu tempo, por causa da turbulência das paixões desencadeadas naqueles dias. Recebeu um pagamento injusto por parte daqueles a quem tentou ajudar. No entanto, nós, localizados a muitos séculos depois, podemos ver em Erasmo o que eles não viram. Ver nele como um precursor, não só da Reforma, mas também da unidade da Igreja. Um homem que teve uma atitude de integração, mais do que de divisão; de comunhão mais do que de separação; de enfatizar o essencial acima do secundário; de valorizar o outro ao invés de julgá-lo.

 Por isso, quase involuntariamente, se tornou um papel muito importante na Reforma Protestante e mais ainda, na chamada Reforma Radical dos Anabatistas, que recolheu alguns dos seus principais ensinos. Baltasar Hubmaier, um dos seus líderes, rejeitou a perseguição dos 'hereges' e as guerras religiosas, como também a doutrina da justificação quase nominalista de Lutero, pois para ele, como para todos os anabatistas, a verdadeira justificação conduz a uma vida visivelmente transformada.

 Esta visão, que mantém as idéias de Erasmo com respeito ao livre-arbítrio, mas rejeita os ranços do catolicismo e suas obras meritórias, iria influenciar profundamente no desenvolvimento posterior, especialmente das chamadas igrejas não conformistas, o pietismo, e os metodistas wesleyanos, antecipando quase em cem anos o pensamento de Tiago Armínio. Aqui termina em parte a importância de Erasmo no caminho da restauração da igreja, pois ajudou a equilibrar a visão extrema do protestantismo, para o qual Agustín de Hipona era a síntese do pensamento cristão.

 Evidentemente, os atores dos atos que preencheram o século XVI e seguintes, naquelas terríveis guerras religiosas, não interpretaram o espírito do Evangelho. A história ofereceu o púlpito a uns e outros para envergonhar-se e pedir perdão pelos excessos cometidos. Ao olhar para trás sem paixões, Erasmo nos aparece como um homem que interpretou melhor que ninguém o espírito pacifista do verdadeiro evangelho. FIM.

 1 Doutrina que ensina a operação exclusiva da vontade divina na salvação, sem participação da vontade humana, vale dizer, de modo irresistível; em oposição ao sinergismo, em que a vontade humana já coopera, assente ou se submete a vontade divina (sempre socorrida, ajudada, ou capacitada pela graça), ou resiste.

2 Termo criado pelo próprio Lutero para definir as colocações de João Agrícola, que ensinava que a graça libertava os crentes tanto da obrigação, como da responsabilidade de guardar a lei moral de Deus. Certamente estas idéias existiam desde antes de Lutero e seu tempo.

FONTE revista aguas vivas 

fonte www.avivamentonosul.blogspot.com.br