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teologia liberal não é cristianismo
teologia liberal não é cristianismo

 

 

                             O QUE TEOLOGIA LIBERAL?

                  TEOLOGIA LIBERAL NÃO É CRISTIANISMO!

 

 

A apresentação da leitura de Cristianismo e liberalismo tem por objetivo apontar o modo como John Gresham Machen identifica o liberalismo moderno como uma outra religião diferente da cristã. Aponta à religião cristã, os dogmas, doutrinas e a história neotestamentária como elementos fundamentais e inseparáveis caracterizadores desta Religião. Portanto, negá-los é negar todo o fundamento cristão.

 

Por que ler Machen hoje? Quando igrejas e seminários teológicos sucumbem desacreditados dos dogmas e da veracidade dos relatos bíblicos, sem saberem a que se agarrar, o teólogo desafia a modernidade apresentando a histórica fé cristã como sempre atual.

 

Com Machen, a “fé conservadora” ergue a sua cabeça, não apenas para apontar os erros hermenêuticos e exegéticos (eixegéticos) modernos, mas também firmar a veracidade das Escrituras. E J. G. Machen não faz isto para se justificar das acusações recebidas da teologia liberal ou neo-ortodoxa nos séculos XIX e XX. pelo contrário, Machen procura colocar a fé conservadora sobre uma base de tal autoridade capaz de ser objetivamente plausível e analisável, em nada perdendo para o liberalismo e a neo-ortodoxia.

 

Acredita que esta fé poderá sobressair às duas correntes teológicas posteriores a ela. Pelo menos, assim julga ao expor que o seu “objetivo não é o de decidir a questão teológica dos dias atuais, mas, tão somente, apresentar a questão da maneira mais vívida e clara possível, para que o leitor possa ser auxiliado a decidir por si mesmo”.1 Deste modo, para ele, a opção pela Teologia Conservadora procede de bases justificáveis.

 

Curiosamente, Machen não aponta as influências do Iluminismo sobre a teologia intra ou extra-eclesiástica; afirma apenas que o surgimento do liberalismo teológico deveu-se às mudanças sociais e intelectuais surgidas no século XIX.  Conjuntamente às grandes invenções e ao industrialismo, as ciências surgidas com o especificismo2 do conhecimento humano em diferentes esferas, grassaram à fé e o orgulho de fazer parte deste momento histórico promoveu erosões profundas à fé cristã.

 

Tantas convicções tiveram de ser abandonadas que as pessoas acreditam que todas elas devem ser deixadas de lado. [...] o Cristianismo, durante muitos séculos, tem apelado para a veracidade de suas afirmações, não meramente nem mesmo primariamente segundo experiências atuais, mas de acordo com certos escritos antigos, dos quais o mais recente data de aproximadamente vinte séculos atrás.3

 

O fato de a religião cristã ter como base as Escrituras, frente à ciência contemporânea, ela não se retira e assiste alienada, de longe, o progresso desta como um inimigo capaz de lhe calar a voz. Àqueles que consideram a fé cristã (ortodoxa) como opositora à ciência e exige que ela siga por campo isolado do saber científico devem ser censurados, pois, “a religião se tem baseado em diversas convicções, especialmente na área histórica, que podem ser assuntos de investigação científica”.4 Não é acerca de tal investigação que os teólogos liberais foram levados a buscar a “essência do cristianismo”? Encontrar o “Jesus Histórico” dentre as flores do mito apostólico? Todavia, seria eficaz provar que o fundamento do cristianismo pode ser verificado pelas ciências humanas?

 

Segundo Machen, a questão não é tão somente impor o cristianismo como um fenômeno antropológico ou objeto de análise psicológica. Não se trata de fundamentar a fé cristã como objeto da filosofia da religião. Os campos científicos não se contentam em apenas estudar a superfície da fé cristã. É sabido que o materialismo moderno, logo que possível, se oporá tanto ao idealismo filosófico do pregador liberal quanto à fé nas doutrinas bíblicas.

 

Logo, o liberalismo teológico se apresentará como uma tentativa frustrada de manter o cristianismo confiável à geração vigente. Esta tentativa servirá, apenas para nos dar a certeza de que o liberalismo teológico, mesmo com  todo o seu esforço intelectual para apresentar a “religião cristã’ como racional, não é nem cristão, nem científico”.5

 

O argumento é lógico, uma vez que ao tentar a conciliação entre cristianismo e ciência moderna, o teólogo liberal abandona o que é característico à fé cristã: a crença no Salvador pessoal, bem como a historicidade factual da fé cristã; isto é, a ressurreição não só é dogma, mas também parte essencial da história6. O cristianismo não dicotomiza da história aquilo que é factual do que é evento. Cruz e ressurreição são elementos plenamente cabíveis numa mesma história.7

 

É deste modo que a própria necessidade dos milagres é exigida. Dizer que milagres não são possíveis, pois a História não lhe dá espaço numa existência onde o próprio Criador se condiciona a necessidade ‘situacional’, é ter como a única opção o misticismo ou imanentismo ou, até mesmo, o ateísmo.8 Seria negar o conteúdo bíblico, bem como, definir o Deus bíblico como simplesmente humano. Esta divindade é imanente, mas não transcendente. Não é sem razão que o melhor consolo à razão humana seria aceitar o Cristianismo como um estilo de vida, mas não como uma doutrina.9

 

Assim, resulta claro o caminho o qual Machen trilhará: nem cristão, nem científico; o liberalismo teológico é uma outra religião cujos fundamentos não procedem de uma fé propriamente histórica. Alimenta-se da estrutura de outra religião cuja vida engendra-se na história dos homens exigindo-lhes fé, mas suas raízes são outras. “O liberalismo moderno não somente é uma religião diferente do cristianismo, mas pertence a uma classe totalmente diferente de religiões.”10  Falta-lhe a fé cristã e a agradável utilização da razão. Mas, é fato que seu fundamento histórico se deve à religião cristã, sem a qual ele não conseguiria sobreviver. Caso fosse o contrário; caso fosse o cristianismo que dependesse do liberalismo moderno, teria este o poder para sustentar a ‘nova religião’?11

 

Se pudéssemos imaginar uma situação na qual toda pregação fosse controlada pelo liberalismo, o que já é preponderante em muitos lugares, cremos que o cristianismo já teria desaparecido da face da terra, e o Evangelho já não seria mais proclamado.12

 

Portanto, o liberalismo moderno, antagonicamente ao pretendido, ocupa um lugar inferior à própria fé cristã primitiva, cujo fundamento é as Sagradas Escrituras. A procura de elevar a fé cristã a uma certa posição de intelectualidade e razão histórica (perdida no kerygma do cristianismo primitivo), per si mesmo, o liberalismo moderno tornou-se num misticismo moderno13, cujas bases dependem d’outra religião14 à qual julga infantil.15

 

A base argumentativa na qual Machen sustenta a proposição de que o Liberalismo moderno não é Cristianismo está no Dogma e na História bíblica, presentes desde o princípio na Igreja Primitiva. Segue numa exposição intrinsecamente bíblica,16 expondo a proposição em seis pontos. Destes pontos, funda-se a proposição sobre as perspectivas dogmáticas e históricas dos evangelhos como factuais à situação17 humana. Uma mente arguidora perceberá facilmente que cada capítulo de Cristianismo e liberalismo reforçam a ideia de que o Liberalismo moderno é inconsistente para consigo mesmo, uma vez que exclui os dogmas centrais da fé cristã. Não é sem mais que Gresham retoma sempre, em cada capítulo, às “pressuposições da mensagem da fé cristã.” É ratificada a ideia da impossibilidade de um Jesus Histórico fora da realidade encarnacional na história.18

 

O Jesus histórico que os teólogos liberais diziam encontrar é estranhamente ausente nas mensagens da Igreja Neotestamentária. Segundo Gresham, se negada a divindade de Jesus Cristo e, sustentada apenas a ideia kerigmática dos apóstolos, até mesmo as mais restritas narrativas com informações das ações e relações eclesiásticas (desprovidas do aspecto do Cristo divino), entre a incipiente Igreja e os discípulos, também deveriam ser desconsideradas.19 Pois, é possível, ainda que com lentes puramente históricas, observar que havia um relacionamento de comum acordo entre os apóstolos quanto a Jesus ser mais do que um exemplo ético de filiação divina.20

 

Ora, os teólogos liberais e conservadores concordam, ao menos, que a questão crítica às epístolas paulinas confere com os dados históricos. Paulo teve contato com aqueles homens que, de alguma forma, seguiram a Jesus de Nazaré. Então, pelos escritos paulinos, obtemos uma amostra do tipo de fé que os crentes nutriam e relacionavam entre si. As epístolas paulinas servem-nos de fonte de

[...] abundante informação sobre a relação de Paulo com Jerusalém. Paulo era profundamente interessado pela igreja de Jerusalém; ao se opor aos seus adversários judaizantes, que de certa forma havia apelado, contra ele, aos apóstolos originais, Paulo enfatizou a sua concordância com Pedro e os outros. Mesmo os judaizantes não tinham objeção ao modo como Paulo considerava Jesus o objeto de sua fé; nas epístolas, não há o mínimo indício de que tenha ocorrido algum debate sobre esse assunto. [...] os apóstolos originais, evidentemente, não deram o menor indício de se contraporem aos ensinos de Paulo. [...] Toda a história do Cristianismo primitivo seria um labirinto sem saída se a igreja de Jerusalém e Paulo não tivessem feito de Jesus o objeto da fé. O Cristianismo primitivo, com certeza, não consistia em mera imitação de Jesus. [...] Jesus não manteve a sua pessoa fora de seu Evangelho, pelo contrário, apresentou-se como o salvador da humanidade.21

Procuraremos seguir lógica bíblica de J. G. Machen sobre três passos em seu livro, Cristianismo e liberalismo, a fim de entendermos o porquê de o liberalismo moderno (teológico) ser diferente do cristianismo. Antes, seguirá uma disposição geral do argumento descaracterizante entre as “duas religiões” e, depois, seguir-se-á a uma análise dos capítulos:

 

1. O liberalismo teológico não é cristianismo porque é inconsistente per si e/ou ilógico

J. G. Machen procura associar a busca do conhecimento com a religião. Se a ressurreição de Cristo tem alguma possibilidade de ser um fato (histórico), então, a razão que lida com ele, e dele depende, não pode ser desprezada pela fé. Esta ideia denuncia o erro do liberalismo moderno, uma vez que, manifesta a impossibilidade de a razão provar a fé. Não é plausível afirmar que a razão seja capaz de inferir a essência da religião. Assim, acreditar que se deve buscar pela essência religiosa no homem mediante manifestações empíricas paralelas à Bíblia, significa que o liberalismo está “somente rejeitando um sistema teológico e o trocando por outro”.22

 

A questão é lógica, pois, se ela versa sobre o fundamento da religião, todas as crenças são igualmente verdadeiras. Porém, “se todas as crenças são igualmente verdadeiras, e algumas delas contradizem as outras, então todas são igualmente falsas, ou pelo menos incertas”.23 

 

Tome-se, por exemplo, o Jesus Histórico. Este não pode ser sobrenatural, caso contrário, não seria histórico. Seria necessário que o Novo Testamento apresentasse o evento histórico separado das narrativas dos milagres. Mas, honestamente, o leitor sabe que tal separação (daquele evento histórico dos milagres a ele associados) desfaz o entendimento da própria narrativa em si mesma. O “cerne da trama” se desmancha e o próprio Jesus histórico torna-se alienado numa narrativa onde a referência a si mesmo não é distinguível. 24

 

 

2. O liberalismo moderno não é cristianismo porque possui características imanentistas que excluem a crença no Deus transcendente e pessoal:

A religião cristã lida com o paradoxo do Deus transcendental e imanente que coexiste perfeitamente com suas criaturas. Trata-se de uma questão ontológica, quando o Criador deve ser pessoal e, portanto, real (enquanto a criatura apenas existe).

 

A identificação de Deus para com o mundo se dá num livre ato de vontade e não de necessidade. Mas, ao criar, Ele necessariamente deve ser imanente aos seres criador, pois estes não tem razão de ser em si mesmos caso esse se retire. As Escrituras asseguram que no ato de criar, Deus mantém suas “propriedades” eternas como sempre foram, embora mantenha relações para com as coisas criadas, fora de si mesmo. Sem esta relação, os ‘entes’ não teriam permanência. Trata-se de uma relação de dependência do criado e não do Criador.

 

É por isto que a noção de paternidade universal é para os teólogos liberais uma das melhores maneiras de garantir a ligação entre Criador e criatura. Nela, ambos comungam duma mesma natureza, fazendo com que a religião assuma um papel, sobretudo, empírico ou “sentimental”. Todavia, “deve-se observar que, se a religião consistisse somente de sentimentos da presença de Deus, ela seria destituída de qualquer qualidade moral. O puro sentimento, se é que existe tal coisa, é não moral”.25 Não pode ser concebida na Religião a ideia do Transcendente e do Imanente sem que se formule um conceito ou um dogma sobre Deus.

[...] Faz toda a diferença o que pensamos sobre Deus; o conhecimento de Deus é a base da religião. [...] No liberalismo moderno, por outro lado, essa distinção tão aguda entre Deus e o mundo é totalmente destruída, e o nome “Deus” é aplicado no próprio processo natural. Encontramo-nos em meio a um grande processo que se manifesta naquilo que é extremamente pequeno e naquilo que é extraordinariamente grande [...]. A esse processo natural do qual nós fazemos parte, aplicamos o temível nome ‘Deus’. Dessa forma, portanto, Deus não é uma pessoa distinta de nós; pelo contrário, nossa vida é uma parte da vida dele. [...] O liberalismo moderno possui características panteísta, mesmo não sendo consistentemente panteísta. Sua tendência é se desfazer, em todos os lugares, da separação existente entre Deus e o mundo, e da precisa distinção entre Deus e o homem.26

3. O liberalismo teológico não é cristianismo porque nega o aspecto principal do cristianismo – o dogma como elemento factual da história

 O cristianismo é, inerentemente, a religião do dogma e da história. Isto é percebido na ideia de Machen sistematizada nos sete capítulos do livro. Logo na introdução se tem a tese de que o liberalismo teológico não pode ser cristianismo; o capítulo um dará lugar às doutrinas na religião cristã.

 

É significativo observar que o lugar das doutrinas se estenderá pelos demais capítulos subsequentes, o que fortalece a noção de que o cristianismo, além de fé e racionalidade, ocupa um lugar epistemológico como nenhuma outra religião o pode ocupar. Dos capítulos três ao sete, Machen argumenta em favor dos dogmas e confissões de fé sobre Deus e o homem, a Bíblia, Cristo, salvação e a Igreja.

 

3.1. A doutrina

Conforme observado acima, o cristianismo não pode ser crido independente da doutrina. A rejeição dos liberais à Teologia Conservadora não se deve às frases e palavras tradicionais, mas à semântica destas. Tornar a semântica das palavras e frases do credo cristão em ideias próximas às da nova religião é, pois, uma maneira de fortalecê-la sem que precise se expor e perder o espaço na igreja.

 

Poucos anseios têm sido mais exagerados, por parte dos professores de teologia, do que o de evitar ofender algo ou alguém. Muitas vezes, isso tem se aproximado perigosamente da desonestidade. O professor de teologia, no mais profundo do seu coração, está consciente do radicalismo do seu ponto de vista, mas permanece firme na decisão de não perder o seu lugar na atmosfera santa da igreja ao expor o que pensa.27

 

É perigoso acreditar que é racionalmente possível permanecer num campo neutro quando a questão é religião. Se hoje é incongruente aceitar a ideia de um sujeito neutro na abordagem científica, muito mais o será no âmbito da fé.28 O que se descobre no criticismo moderno é, antes de tudo, que a rejeição aos dogmas doutrinários da igreja se dá por certo grau de conveniência. Pois,

É desta forma que, comumente, se expressa a moderna hostilidade à doutrina. Mas será que é realmente a doutrina como tal que é rejeitada, ou será ou será que se rejeita uma doutrina específica, para o benefício de outra? [...] Existem doutrinas do liberalismo moderno que são defendidas com tanto vigor e intolerância quanto qualquer outra doutrina encontrada nos credos históricos. [...] são doutrinas como todas as outras, e assim exigem defesa intelectual. Ao demonstrar uma aparente rejeição de toda a teologia, o pregador liberal, muitas vezes, está rejeitando somente um sistema teológico e o trocando por outro. Assim, a tão desejada imunidade de controvérsias teológicas não é alcançada.29

Ora, negar a substituição dogmática entre as duas religiões é beirá-las ao ceticismo. Podemos até considerar as controvérsias doutrinárias como quirelas frente à necessidade de comunhão fraternal, ou seja, a experiência da fé na paternidade universal, e ainda assim o cristianismo excluirá qualquer ideia teológica que não compactue com o seu dogma. Mais uma vez, afirmamos que a rejeição aos dogmas cristãos é rejeição a todo o sistema cristão. O cristianismo exige que o seu sistema de fé caminhe com a história. Pois, dizer que o cristianismo é um estilo de vida é já, por si mesmo, submetê-lo à investigação histórica. Se o cristianismo é, então, um fenômeno histórico, deve ser investigado com bases históricas, não?

 

O conceito de Machen sobre doutrina pode fortalecer o comprometimento desta com a história. Segundo ele,

A doutrina cristã está nas próprias raízes da fé. Deve-se admitir, então, que se vamos ter uma religião não doutrinária, ou uma religião doutrinária fundamentada meramente em verdades gerais, isso significa que não somente temos  que nos livrar de Paulo, da igreja primitiva de Jerusalém, mas também de Jesus. Porém, o que significa doutrina? Aqui, ela tem sido interpretada como qualquer apresentação de fatos, com seus verdadeiros significados, que estejam na base da religião cristã. Contudo, essa é a única definição da palavra? Será que ela não pode ser tomada em um sentido mais específico? Não pode significar uma sistemática, minuciosa e unilateral apresentação científica de fatos? Se a palavra for tomada nesse sentido mais específico, será que a objeção moderna à doutrina não envolve meramente uma objeção à sutileza excessiva da controvérsia teológica, e de forma alguma uma objeção às brilhantes palavras do Novo Testamento?30

Resta-nos perguntar: como pensar no cristianismo sem história e na Bíblia sem o dogma? Ao que parece, o dogma é sempre um ponto de partida para qualquer forma de conhecimento e, mormente, os fatos históricos. É assim que, ao abrir mão dos fundamentos dogmáticos do cristianismo o pregador liberal abre mão desta religião. Abrir mão dos fundamentos dogmáticos cristãos, procurando fazer a distinção entre aquilo que é fato histórico do seu evento, é se tornar mais imperativo ou dogmático do que o próprio cristianismo em si. Pois, o cristianismo exige a fé em seus dogmas históricos, ao passo que o pregador liberal pressupõe uma fé que, para existir, deve expurgar a própria dúvida que dá razão a sua existência. Noutras palavras: o liberalismo moderno sem os dogmas cristãos se reinventa. A fé liberal existe em detrimento de uma história que surge como resquício da “verdade” que supera o mito.31 Logo, a fundamentação histórica do dogma cristão deve ser objetiva e, não subjetiva. A diferença entre o cristianismo e o liberalismo moderno consiste em a impossibilidade de indiferença quanto a tomada de posição à origem dos dogmas.

 

Fundamentemos, então, a necessidade de se ter os dogmas ligados à realidade histórica:

 

(A) “O cristianismo constitui um fenômeno histórico muito bem definido”

A religião cristã tem em sua origem a proclamação de uma mensagem tida por verdadeiro relato de fatos. Lembremo-nos que o apóstolo Paulo não teve com a Igreja da Galácia a mesma tolerância que houve para com os romanos. Paulo entendeu que a mensagem dos falsos mestres na Galácia atacaram os fundamentos da fé, ao passo que, em Roma, a mensagem, ainda que pregada pelos rivais, manteve suas bases. “Nunca passou pela mente de Paulo que um evangelho pode ser verdadeiro para uma pessoa e não para outra. [...] Ele estava convencido da verdade objetiva da mensagem do evangelho”.32

 

(B) O cristianismo é, em si mesmo, incongruente se doutrina e história dos relatos da igreja forem elementos distintos em sua aplicação à fé.33

A própria terminologia da palavra “evangelho” designa o pertencimento entre doutrina e história.  Evangelho é “boas novas” e, estas consiste em algo ocorrido.

E desde o início, o significado do que aconteceu foi estabelecido, e quando o significado foi estabelecido, surgiu a doutrina cristã. “Cristo morreu” – isso é uma referência histórica; “Cristo morreu pelos meus pecados” – isso é doutrina. Sem esses dois elementos, unidos de uma maneira indissolúvel, não existe Cristianismo.34

Ora, ao pensar nas “boas novas” qual mente não se volta ao seu oposto, isto é, ao estado anterior que lhe serviu de motivo porque ela veio a ser proclamada? Foi a mensagem da ressurreição como história fatual que deu origem à doutrina. “O mundo seria redimido pela proclamação de um evento; e com o evento, segui o seu significado; e o estabelecimento do evento, como seu significado, era uma doutrina. Esses dois elementos estão sempre juntos na mensagem cristã”.35

 

(C) O ensino de Jesus estava ligado ao ensino de uma doutrina

 Não precisamos falar da aplicação que Jesus fazia do Antigo Testamento aos seus contemporâneos. Todavia, é significativo dizer que ele aplicava as Escrituras como cumprimento à sua pessoa. Ele próprio não se mantinha fora do seu evangelho. A aplicação da lei à sua pessoa incluía-lhe como alguém autoconsciente de sua messianidade. Ele não só se incluía na história, como dizia ser parte inerente dela. Seja como for que os pregadores liberais descrevam a escatologia, as palavras de Jesus contidas nela apontarão para um evento no qual ele mesmo diz ser o agente. “A consciência de Jesus está em todo o lugar.”36

 

3.2. Deus e o homem

As duas pressuposições principais que diferem o cristianismo do liberalismo moderno são, certamente, o seu conceito sobre Deus e o homem. Já vimos, anteriormente, que a questão da imanência e transcendência divina são características fundantes para a economia soteriológica. Ainda que de difícil entendimento, no Novo Testamento são as duas quem possibilitam a própria ideia da redenção humana na pessoa de Jesus Cristo. Porém, o liberalismo teológico procura outro caminho para a salvação dos homens.

 

(A) Deus

Enquanto o cristianismo entende o conhecimento de Deus pelo viés da revelação, o liberalismo moderno ensina o sentimentalismo. Ainda assim, segundo Machen, o liberalismo é inconsistente, pois mesma a afeição humana é dependente de dogmas. As afeições não são oriundas de várias observações armazenadas na mente? É assim que a divindade de Jesus faz sentido. O conceito “Deus” não pode nos remeter primariamente a Jesus; antes, “a não ser que haja alguma ideia de Deus independente de Jesus, a confirmação de sua divindade não faz o menor sentido. Simplesmente dizer que ‘Jesus é Deus’ não tem sentido, a não ser que a palavra ‘Deus’ tenha um significado antecedente atrelado a ela”.37 Não teve que ser assim para que os próprios discípulos entendessem o conceito de “Deus” dito pelo Mestre?

 

Jesus apresenta aos discípulos um Deus pessoal e, ainda assim, supremo. A sua religião era baseada na crença da existência real de um Deus pessoal. A começar pelo próprio termo “pai”, embora aplicado em diversas religiões, nos lábios de Jesus o termo implica num relacionamento familiar cujo significado só tem valor em sua Pessoa.38 Portanto, o próprio conceito que o liberalismo moderno traz de paternidade universal implica numa perda do senso de transcendência divina.

 

(B) O homem

Uma vez perdida a noção da transcendência divina, o lugar do homem é suposto facilmente. Aplicar ao homem os conceitos tradicionais como, pecado original ou consciência de pecado, implica em compartilhar com deus de sua natureza mesma.

 

Assim, a revelação cede o seu lugar para a excessiva confiança na bondade humana. Isto priva, não somente a atribuição do mal à imanência divina, como também, elimina qualquer necessidade de intervenção externa à razão humana. O fundamento do cristianismo não é tão otimista quanto à bondade humana. “O humanismo cristão é tão mais elevado – um humanismo fundamentado não no orgulho humano, mas na graça divina”.39  O cristianismo tem, portanto, outro conceito sobre a natureza humana. Por isto, ao abandonar o conceito do Deus Vivo e a realidade do pecado, o liberalismo moderno coloca-se numa posição contrária ao cristianismo.

 

 

3.3. A Bíblia

A Bíblia é o elemento chave na fundamentação da fé cristã. Ela “contém o relato da revelação de Deus ao homem, que não pode ser encontrado em nenhum outro lugar”.40 As Escrituras põem o cristianismo como a religião do evento e não de ideias. Pois,

Todas as ideias do cristianismo poderiam ser encontradas em alguma religião diferente, e ainda assim não haveria o Cristianismo nessa outra religião, pois o Cristianismo não depende de um compêndio de ideias, e sim da narração de um evento. Sem esse evento, de acordo com o Cristianismo, o mundo é totalmente escuro, e a humanidade está perdida debaixo da culpa do pecado.41

Apelar apenas para o aspecto da experiência cristã como satisfatório para ser cristão não vale. A experiência cristã só é de fato válida se confirmada pela crença nos eventos escriturísticos como realmente fatuais. É por isto que J. Gresham Machen afirma que “a experiência cristã é corretamente usada quando afirma a evidência documentária. Mas ela jamais funcionará como substituto para evidência”.42 Fica claro, pois, que se a Bíblia não for aceita como um relato de fatos verdadeiros da revelação de Deus, cuja plena inspiração e inerrância é essencial para a fundamentação da Fé genuína, a religião será outra, mas não a religião cristã.43

 

A base para asseverar a diferença entre as duas religiões pode ser encontrada na própria consideração que Cristo faz às Escrituras. Se o liberalismo moderno rejeita o Velho Testamento, os argumentos e o “misticismo paulino”, e se atém somente ao que Jesus ensinava, pode-se perguntar: a qual regra autoritativa o pregador liberal se baseia, capaz o suficiente, para distinguir o que pode ou não ser aceito como oriundos dos lábios de Jesus? Qualquer leitor honesto sabe que as asseverações de Jesus Cristo sobre si mesmo, sobre Deus e o seu reino têm aplicações diretas sobre os seus ouvintes. O objetivo de suas palavras só será alcançado se amarrado ao todo contextual.44

 

Portanto, é evidente que essas palavras de Jesus, que devem ser consideradas autorizadas pelo liberalismo moderno, em primeiro lugar, devem ser selecionadas da grande massa de palavras preservadas, por meio de um processo crítico. O processo crítico, certamente, é muito difícil, e, muitas vezes, surge a suspeita de que o crítico somente retém como palavras genuínas do Jesus histórico aquelas que estão em conformidade com suas próprias ideias preconcebidas. Mesmo depois que o processo de refinamento foi concluído, ainda assim o estudioso liberal não consegue aceitar todas as palavras de Jesus como autênticas; por fim, ele deve admitir que mesmo o Jesus “histórico”, como o reconstruído pelos historiadores modernos, disse inverdades.45

 

Mais uma vez, a diferença entre a religião cristã e o liberalismo moderno reside no seu fundamento; isto é, o cristão aceita a Bíblia como verdade objetiva aplicável em todo o seu conteúdo; crê que ela é magistralmente apropriada para contemplar todos os eventos históricos da humanidade sem a necessidade de adequações de conteúdo às novas verdades emergidas da ciência. Pois, “quando a verdade é considerada somente como aquilo que funciona em um momento específico, então ela deixa de ser verdade. O resultado é um profundo ceticismo”.45 

 

 

3.4. Cristo

Se a mensagem das duas religiões (cristianismo e liberalismo) é diferente, obviamente, a origem desta diferença se deve a interpretação acerca da pessoa a qual se fundamentam.

 

Já foi observado, aqui, a maneira como a igreja primitiva e os apóstolos viam a pessoa de Jesus de Nazaré. Estes depositaram em Jesus toda a sua fé, como se crê no próprio Deus. Jesus era tal ponto considerado o objeto de sua fé que os apóstolos confiaram-lhe o destino de suas almas. Não se observa nenhuma reprovação por parte dos apóstolos originais à identificação de Jesus como objeto da fé Cristã, nos ensinos de Paulo. Os evangelhos revelam que Jesus evocava a fé em si mesmo como Deus. Observemos o argumento:

 

(A) Jesus não manteve a sua pessoa fora de seu evangelho

O Jesus histórico, resultado da redução e demintologiação, acaba por confirmar a expectativas e percepção que o mestre tinha sobre si mesmo. Suas mensagens informavam aos ouvintes que a única segurança eterna que poderiam ter, por parte de Deus, era tendo-O como objeto da fé. Suas pregações, antes de consolo, era a da ira de Deus que pairava sobre os homens pecadores. Conclusivamente, somente no Filho os homens seriam salvos.

 

Cristo Jesus é muito mais do que um exemplo de fé; é o objeto desta fé. Ele nunca convidou ninguém a ter como modelo a fé que ele tinha em Deus Pai. Antes, convidou os homens para crerem nele como o Filho de Deus.

 

(B) Jesus não era um cristão

Nietzsche afirmou, em uma de suas obras, que “no fundo, existiu apenas um único cristão, esse morreu na cruz. O que desde esse instante se chamou “evangelho” era já o outro contrário do que Cristo vivera: uma “má nova”.47 Esta crítica de Nietzsche de alguma maneira influenciou a muitos liberais ao ponto de inverterem a ordem histórica dos fatos. O fato de Jesus ser o fundador do Cristianismo não faz dele um cristão. O Cristianismo não poderia ser a sua religião, até mesmo por questões lógicas. Vejamos:

 

(i) A consciência messiânica de Jesus: As experiências de nosso Senhor não podem ser seguidas pelos crentes em todos os seus aspectos. Ele se intitulava o “Filho celestial de Deus, que deveria ser o juiz de toda a terra”.48 A menos que Cristo tenha abandonado o seu caráter santo e humilde, o seu exemplo poderia ser seguido nisto; ou não. Ele não seria um exemplo digno a ser seguido. Se Jesus tivesse assumido a sua consciência messiânica tardiamente, como alguns teólogos liberais afirmavam, este fato o tornaria menos digno ainda de confiança; o problema residiria, então, no âmbito moral.

 

(ii) A relação de Jesus para com o pecado: “Se Jesus está separado de nós pela sua consciência messiânica, ele está ainda mais fundamentalmente separado pela ausência do pecado em si”.49 Ele nunca demonstrou consciência alguma de pecado e, nem mesmo, qualquer um de seus perseguidores apontou-lhe um se quer.50

Esta era a mensagem pregada pelo cristianismo primitivo: a fé cristã é um meio para se livrar do pecado. E por si só, fica claro que Jesus não pode ser um cristão, uma vez que, a própria comunidade cristã primitiva o eximia de pecado. É forçoso mudar a concepção de salvação do Novo Testamento, quando o que se tem em vista é o que o Cristianismo significa. Segundo as narrativas neotestamentárias, Jesus representa bem mais do que uma figura de caráter exemplar; significa o perdão dos pecados. E, se Jesus era o objeto da fé, por meio de quem Deus perdoava pecados, ele mesmo não pode ser um cristão, “assim como Deus não pode ser religioso”.51

 

(iii) As reivindicações de Jesus: Jesus exigiu que aqueles que o seguissem estivessem dispostos a quebrar até mesmo os vínculos mais sagrados. O cristão não entende o chamado de Jesus como o de um mestre a ser seguido, mas como o chamado de um salvador a ser obedecido; não um exemplo de fé, mas o objeto da fé.

 

(iv) O cristianismo considera Jesus uma pessoa sobrenatural: Machen entende que “um evento sobrenatural é aquele que acontece pela ação imediata de Deus, no sentido de não acontecer por um intermediário”.52 Esta definição de milagre apresenta a necessidade de um Deus Pessoal, ao mesmo tempo em que exclui a necessidade de causas secundárias. A Bíblia apresenta o milagre como esta ação direta de Deus na natureza, admitindo, pois, que esta interferência em nada é arbitrária à ciência. Mas, se tratando de uma ação teísta primária na natureza, as duas naturezas de Cristo são claramente possíveis de existência no Jesus dos Evangelhos. É igualmente por isso que negar os milagres de Cristo é negar toda a sua Pessoa, bem como o próprio teísmo.53

 

Machen afirma que, por toda Escritura a mensagem central, isto é, a revelação de Deus na história mediante seu Filho Eterno, não pode ser considerada verdade se isolada a sua manifestação sobrenatural. A natureza divina per si a exige assim. Sem os milagres, pode ser que seja mais fácil crer no Novo Testamento. Porém, aquilo no qual se creria seria inteiramente diferente daquilo que se apresenta a nós agora. Sem os milagres, teríamos um mestre; com os milagres, temos um salvador.54

 

3.5- Salvação

Haja vista as proposições anteriores, é lógico que a noção de salvação apresentada pela teologia moderna (liberal) desenvolverá o sistema soteriológico sobre bases antropológicas. Nisto se distinguem radicalmente essas duas religiões, pois a salvação para o cristianismo é ato divino.

 

A concepção de pecado universal assume lugar importante, pois, impõe ao homem a condição de desespero e dependência absoluta em Deus. Esta diferença requer de Jesus uma manifestação salvadora e não, somente, ética. A ética é, para o Cristianismo, um motivo desesperador, uma vez que, em pecado, o homem não consegue por si mesmo se salvar. Machen aponta esta verdade quando critica a hermenêutica liberal acerca do Sermão do Monte; a moral torna-se relevante e possível somente se vivida em Cristo.55

 

Parece que, “não é a doutrina bíblica que é difícil de entender- realmente incompreensíveis são os elaborados esforços modernos para excluir a doutrina bíblica por causa dos interesses do orgulho humano”.56 Por que os liberais atacam a doutrina de expiação?  Machen encontra três motivos:

 

(1) A sua dependência histórica

Segundo Gresham, acatar a cruz de Jesus Cristo é contrassenso aos liberais. Estes procuram aplicar a fé nos efeitos obtidos pela cruz, mas não na causa em si. Isto dá maior poder às experiências e os fins práticos, devendo ser estes os desejados, e não o fator histórico e dogmático da morte do salvador.

 

Mas, Machen afirma que as experiências destituídas da história é um mero misticismo, mas nunca será o Cristianismo. Se o Cristianismo for aceito apenas como uma experiência religiosa, se tornará incongruente para com a sua própria mensagem. Enfim, não existe Evangelho sem que o tenha como fato histórico.

 

(2) A exclusividade da salvação ‘somente’ em Jesus

A ofensa aos liberais consiste em admitir a salvação ‘somente’ em Jesus. E aqueles que, mesmo bons homens, morrem sem Jesus? Machen alude que o problema não reside na exclusividade da pessoa de Jesus, mas na maneira como a igreja o tem levado. Segundo ele, “o nome de Jesus é estranhamente adaptável a pessoas em todo o tipo de contexto”.57 A responsabilidade para com o Evangelho é de confiança filial.

 

O liberalismo moderno pode objetar ainda que, Cristo morrer por todos os homens é um não-senso de justiça, pois em nada diminui a culpa do pecador; todos os homens devem ser individualmente responsáveis por seus pecados.

 

A resposta é simples: a visão acerca da majestade de Jesus foi perdida. A pessoa de Jesus não pode ser igualada aos demais homens. Perdida a pessoa divina de Cristo, a expiação centra-se no homem e, consequentemente, perde todo o sentido. E, mas uma vez, centralizar apenas um aspecto de Jesus nas Escrituras, ou apenas em alguns milagres faz com que todo o cerne da religião cristã perca o sentido e careça de linguagem acessível à razão humana.

 

(3) A doutrina cristã da cruz não condiz com o caráter de Deus

Os pressupostos cristãos acerca da ira e inimizade de Deus contra o homem pecador são criticados pelos liberais como inconsistente à natureza divina. Todavia, a visão liberal de pecado está aquém daquilo que o Novo Testamento anuncia. Perdoar a todos os homens sem a cruz não apaga a sua culpa. A cruz aponta para a necessidade de o homem não só desejar esquecer o pecado, mas o apagar para sempre.

 

Portanto, o conceito dos liberais acerca da moral está, até mesmo, muito aquém da moral apresentada nos evangelhos. Não é forçoso, então, considerar que a própria cruz é tanto a manifestação da ira de Deus sobre os homens quanto a prova de seu amor. “Se alguém, alguma vez, já esteve debaixo da verdadeira convicção do pecado, essa pessoa terá pouca dificuldade com a doutrina da cruz”.58

 

3.6. A igreja

Machen, quando ainda discute a ideia dos liberais sobre a salvação, afirma que o conceito de fé da igreja liberal é, essencialmente, fazer de Cristo o mestre da vida. Mas, para ele, isto anula não só o conceito neotestamentário de graça, mas o da própria justificação. Logo, se distancia da leitura que os reformadores protestantes deram da epístola aos Gálatas. Consequentemente, a esperança escatológica da parousia é outro elemento que, sem os conceitos abordados, é inexistente.59

 

A igreja do liberalismo moderno acredita que o que há de útil no cristianismo é a aplicação de “verdades morais”. Os cristãos, entretanto, crê que a aplicação do cristianismo é ocorrência de um ato primário de Deus, isto é, regeneração. Deste modo, o conceito que o cristianismo tem acerca da fraternidade é distinto ao do liberalismo moderno, não podendo ambos conviverem como uma religião e, óbvio, mesma instituição.

 

(A) O cristianismo não crê na fraternidade/paternidade universal

Salvaguarda a analogia de irmandade entre os homens como criados por Deus, o cristão considera como relacionamento fraternal somente aqueles que são redimidos por Cristo. É necessária a fé em tudo aquilo que os teólogos liberais negam.

 

(B) O cristianismo entende a transformação da sociedade possível somente pela Igreja Invisível de Cristo:60 “A igreja é a resposta cristã mais elevada para as necessidades sociais do ser humano”. E é sob esta perspectiva que a igreja não apenas se mantém, mas também, age na sociedade, quer com ações sociais, quer através de missões.

 

Todavia, se a igreja invisível tem em seu corpo dois posicionamentos opostos acerca da pessoa de seu Fundador e Senhor, a razão de ser deixa de existir. É certo que a igreja tem como característica uma mensagem baseada nos dogmas do Senhor ressurreto, divino. Negada tal verdade, o Cristianismo assumirá outra mensagem; isto é, uma transformação nem sempre possível, pois é baseada somente neste mundo.

 

Além do mais, cristianismo e liberalismo seriam igualmente desonestos. Simplesmente, os pressupostos assumidos por ambas as religiões não podem ser considerados com frivolidade. O cristianismo assume dogmas que não suportam meias verdades ou que não exija a exclusividade da fé.61

Quer goste ou não, essas igrejas estão fundamentadas em credos; elas são organizadas para a propagação de uma mensagem. Se alguém quiser combater essa mensagem em vez de propagá-la, não tem direito, não importa quão falsa seja essa mensagem, de ganhar uma posição vantajosa para combatê-la, ao fazer uma declaração de fé que não é- que se diga com todas as palavras- honesta. [...] ao perceber que as igrejas “evangélicas” existentes estão amarradas a um credo com o qual discorda, a pessoa deve se unir a alguma outra instituição ou fundar uma na qual ela se encaixe bem.62

O que Machen diz é que, as igrejas cristãs se unem em torno de uma mensagem baseada na Bíblia. É ao redor da fé no credo das Escrituras como inspiradas por Deus que as pessoas se reúnem. As diferenças levantadas entre elas não falha pela falta de definição.63 Isto, todavia, não é possível de se ver quando os liberais se reúnem com os cristãos. Eles rejeitam as convicções defendidas pelos crentes sem que antes busque entendê-las. Não é a fé conservadora que tem a “mente estreita”, mas os liberais.64 Não se trata de heresia, mas de um fundamento outro, que não o da fé evangélica. Não é próprio da fé cristã, desde o seu início, considerar os desvios doutrinários assunto primordial a ser debatido?

 

Portanto, parece ilógico querer que o liberalismo moderno continue entre os cristãos considerando-se uma parte dele. “Ele difere do cristianismo em seu conceito sobre Deus, o homem, a autoridade e sobre o caminho da salvação. E, não somente difere do cristianismo em teologia, mas também na totalidade da vida.”65

 

 

Embora, a crítica de Machen se refira ao Liberalismo moderno do início do século XX, o que torna seus escritos contemporaneamente válidos é o fato de tê-los feito sobre as bases da fé genuinamente cristã. Aquele que julga que esta fé não tem voz no presente século deve ler os argumentos macheanos a fim de descobrir quão sólida é a verdade que se vale das Escrituras. Pois, Machen é uma prova de que é possível, mesmo no século presente, o teólogo, estudante e pastor serem: eruditos, racionais, piedosos e relevantes; não sem, mas, mormente, se forem absolutamente fieis à Fé Cristã.

 

FONTE TEOLOGIABRASILEIRA.COM

 

 

TEOLOGIA LIBERAL E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A FÉ

 

 BÍBLICA.

 

 

Do jeito que as coisas andam em nossos dias, precisamos urgentemente nos libertar da teologia liberal. É espantoso o crescente número de livros (inclusive publicados por editoras evangélicas) que esboçam os ensinamentos deste tipo de teologia ou tecem comentários favoráveis. Embora esta teologia tenha nascido com os protestantes, hoje, porém, seus maiores expoentes são os católicos romanos. Em qualquer livraria católica encontramos grande quantidade de obras defendendo e/ou propagando a teologia liberal. E não é só isso. A forma com que alguns seminários e igrejas vêm se comprometendo com os ensinos desta teologia também é de impressionar.

 

A libertação da teologia liberal não só é necessária como também é vital para a Igreja brasileira, ameaçada pelo secularismo e pelo liberalismo teológico corrosivo.

 

Apesar das motivações iniciais dos modernistas, suas idéias, no entanto, representaram grave ameaça à ortodoxia, fato já comprovado pela história. O movimento gerou ensinamentos que dividiram quase todas as denominações históricas na primeira metade deste século. Ao menosprezar a importância da doutrina, o modernismo abriu a porta para o liberalismo teológico, o relativismo moral e a incredulidade descarada. Atualmente, a maioria dos evangélicos tende a compreender a palavra “modernismo” como uma negação completa da fé. Por isso, com facilidade esquecemos que o objetivo dos primeiros modernistas era apenas tornar a igreja mais “moderna”, mais unificada, mais relevante e mais aceitável em uma era caracterizada pela modernidade.

 

Mas o que caracterizaria um teólogo liberal? O verbete sobre o “protestantismo liberal” do Novo Dicionário de Teologia, editado por Alan Richardson e John Bowden, nos traz uma boa noção do termo. Vejamos três destaques de elementos do liberalismo teológico:

 

1 – É receptivo à ciência, às artes e estudos humanos contemporâneos. Procura a verdade onde quer que se encontre. Para o liberalismo não existe a descontinuidade entre a verdade humana e a verdade do cristianismo, a disjunção entre a razão e a revelação. A verdade deve ser encontrada na experiência guiada mais pela razão do que pela tradição e autoridade e mostra mais abertura ao ecumenismo;

 

2 – Tem-se mostrado simpatia para com o uso dos cânones da historiografia para interpretar os textos sagrados. A Bíblia é considerada documento humano, cuja validade principal está em registrar a experiência de pessoas abertas para a presença de Deus. Sua tarefa contínua é interpretar a Bíblia, à luz de uma cosmovisão contemporânea e da melhor pesquisa histórica, e, ao mesmo tempo, interpretar a sociedade, à luz da narrativa evangélica;

 

3 – Os liberais ressaltam as implicações éticas do cristianismo. O cristianismo não é um dogma a ser crido, mas um modo de viver e conviver, um caminho de vida. Mostraram-se inclinados a ter uma visão otimista da mudança e acreditar que o mal é mais uma ignorância. Por ter vários atributos até divergentes, o liberal causa alergia para uns e para outros é motivo de certa satisfação, por ser considerado portador de uma mente aberta para o diálogo com posições contrárias.

 

As grandes batalhas causadas pelo liberalismo foram travadas dentro das grandes denominações históricas. Muitos pastores que haviam saído dos EUA no intuito de se pós-graduarem nas grandes universidades teológicas da Europa, especificamente na Alemanha, em que a teologia liberal abraçava as teorias destrutivas da Alta Crítica produzida pelo racionalismo humanista, acabaram retornando para os EUA completamente descrentes nos fundamentos do cristianismo histórico. Os liberais, devido à tolerância inicial dos fiéis para com a sã doutrina, tiveram tempo de fermentar as grandes denominações e conseguiram tomar para si os grandes seminários, rádios e igrejas, de modo que não sobrou outra alternativa para grande parte dos fundamentalistas senão sair dessas denominações e se organizar em novas denominações. Daí surgiram os Batistas Regulares (que formaram a Associação Geral das Igrejas Batistas Regulares, em 1932), os Batistas Independentes, as Igrejas Bíblicas, as Igrejas Cristãs Evangélicas, a Igreja Presbiteriana

dos Estados Unidos (em 1936, que mudou seu nome para Igreja Presbiteriana Ortodoxa), a Igreja Presbiteriana Bíblica (em 1938), a Associação Batista Conservadora dos Estados Unidos (em 1947), as Igrejas Fundamentalistas Independentes dos Estados Unidos (em 1930) e muitas outras denominações que existem ainda hoje.

 

Podemos dizer que algumas das características do cristianismo ortodoxo se baseiam nos seguintes pontos:

 

• Manter fidelidade incondicional à Bíblia, que é inerrante, infalível e verbalmente inspirada;

• Acreditar que o que a Bíblia diz é verdade (verdade absoluta, ou seja, verdade sempre, em todo lugar e momento);

• Julgar todas as coisas pela Bíblia e ser julgado unicamente por ela;

• Afirmar as verdades fundamentais da fé cristã histórica: a doutrina da Trindade, a encarnação, o nascimento virginal, o sacrifício expiatório, a ressurreição física, a ascensão ao céu, a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo, o novo nascimento mediante a regeneração do Espírito Santo, a ressurreição dos santos para a vida eterna, a ressurreição dos ímpios para o juízo final e a morte eterna e a comunhão dos santos, que são o Corpo de Cristo.

• Ser fiel à fé e procurar anunciá-la a toda criatura;

• Denunciar e se separar de toda negativa eclesiástica dessa fé, de todo compromisso com o erro e de todo tipo de apostasia;

• Batalhar firmemente pela fé que foi concedida aos santos.

 

Contudo, o liberalismo, em sua apostasia, nega a validade de quase todos os fundamentos da fé, como, por exemplo, a inerrância das Escrituras, a divindade de Cristo, a necessidade da morte expiatória de Cristo, seu nascimento virginal e sua ressurreição. Chegam até mesmo a negar que existiu realmente o Jesus narrado nas Escrituras. A doutrina escatológica liberal se baseia no universalismo (todas as pessoas serão salvas um dia e Deus vai dar um jeito até na situação do diabo) e, conseqüentemente, para eles, não existe inferno e muito menos o conceito de pecado. O liberalismo é um sistema racionalista que só aceita o que pode ser “provado” cientificamente pelos próprios conhecimentos falíveis, fragmentados e limitados do homem.

 

Os primeiros estudiosos que aplicaram o método histórico-crítico sem critérios ao estudo das Escrituras negavam que a Bíblia fosse, de fato, a Palavra de Deus inspirada. Segundo eles, a Bíblia continha apenas a Palavra de Deus.

 

O liberalismo teológico tem procurado embutir no cristianismo uma roupagem moderna: pegam as últimas idéias seculares e, sorrateiramente, espalham no mundo cristão. J.G. Machem, em seu livro Cristianismo e liberalismo, trata deste assunto com maestria. Na contracapa, podemos ver uma pequena comparação entre o cristianismo e o liberalismo: “O liberalismo representa a fé na humanidade, ao passo que o cristianismo representa a fé em Deus. O primeiro não é sobrenatural, o último é absolutamente sobrenatural. Um é a religião da moralidade pessoal e social, o outro, contudo, é a religião do socorro divino. Enquanto um tropeça sobre a ‘rocha de escândalo’, o outro defende a singularidade de Jesus Cristo. Um é inimigo da doutrina, ao passo que o outro se gloria nas verdades imutáveis que repousam no próprio caráter e autoridade de Deus”.

 

Muitos, por buscarem aceitação teológica acadêmica, têm-se comprometido fatalmente, pois, na prática, os liberais tentam remover do cristianismo todas as coisas que não podem ser autenticadas pela ciência. Sempre que a ciência contradiz a Bíblia, a ciência é preferida e a Bíblia, desacreditada.

 

Hoje, a animosidade que demonstram para com a Bíblia tem caracterizado aqueles que crêem que ela é literalmente a Palavra de Deus e inerrante (sem erros em seus originais) como “fundamentalistas”.1 Ora, podemos por acaso negociar o inegociável?

 

Os liberais acusam os evangélicos de transformar a Bíblia em um “papa de papel”, ou seja, em um ídolo. Com isso, culpam os evangélicos de bibliolatria.2 Estamos cientes de que tem havido alguns exageros por parte de alguns fundamentalistas evangélicos, mas a verdade é que os “eruditos” liberais têm-se mostrado tão exagerados quanto muitos do que eles denominam de fundamentalistas. Teoricamente falando, a maioria dos liberais acredita em Deus, supondo que Ele pode intervir na história da humanidade, porém, na prática, e com freqüência, mostram-se muito mais deístas.3 Normalmente, os liberais também favorecem o “relativismo”, ou seja, difundem que no campo da verdade não há absolutos. Segundo este raciocínio, se não há verdades absolutas, então, as verdades da Bíblia (que são absolutas) são relativas, logo, não podem ser a Palavra de Deus. Tendo rejeitado a Bíblia como a infalível Palavra de Deus e aceitado a idéia de que tudo está fluindo, o teólogo liberal afirma que não é segura qualquer idéia permanente a respeito de Deus e da verdade teológica.

 

Levando o pensamento existencialista às últimas conseqüências, conclui-se que: se quisermos que a Bíblia tenha algum valor para a modernidade e fale ao homem moderno, temos de criar uma teologia para cada cultura, para cada contexto, onde nenhum ensino é absoluto, mas relativo, variando conforme o contexto sociocultural. Obviamente, tal pensamento possui fundamento em alguns pontos, mas daí ao radicalismo de pregar que nada é absoluto, isso já extrapola e fere diversos princípios bíblicos.

 

 

Raízes

 

 

O liberalismo teológico começou a florescer de forma sistematizada devido à influência do racionalismo de Descartes e Spinoza, nos séculos 17 e 18, que redundou no iluminismo.4 O liberalismo opunha-se ao racionalismo extremado do iluminismo.

 

Na verdade, quando a igreja começa a flertar com o liberalismo e se render aos seus interesses, ela perde sua autoridade e deixa de ser embaixadora de Deus. A história tem provado que onde o liberalismo teológico chega a Igreja morre. Este é um aviso solene que deve estar sempre trombeteando em nossos ouvidos.

 

 

A baixa crítica

 

 

Conforme Gleason L. Archer Jr, “a ‘baixa crítica’ ou crítica textual se preocupa com a tarefa de restaurar o texto original na base das cópias imperfeitas que chegaram até nós. Procura selecionar as evidências oferecidas pelas variações, ou leituras diferentes, quando há falta de acordo entre os manuscritos sobreviventes, e pela aplicação de um método científico chegar àquilo que era mais provavelmente a expressão exata empregada pelo autor original”.5

 

 

A alta crítica

 

 

J. G. Eichhorn, um racionalista germânico dos fins do século 18, foi o primeiro a aplicar o termo “alta crítica” ao estudo da Bíblia. E, por esse motivo, ele tem sido chamado de “o pai da crítica do Antigo Testamento”. Segundo R. N. Champlin, “a ‘alta crítica’ aponta para o exame crítico da Bíblia, envolvendo qualquer coisa que vá além do próprio texto bíblico, isto é, questões que digam respeito à autoria, à data, à forma de composição, à integridade, à proveniência, às idéias envolvidas, às doutrinas ensinadas, etc. A alta crítica pode ser positiva ou negativa em sua abordagem, ou pode misturar ambos os pontos de vista”.6 Mas o que temos visto na prática é que esta forma de crítica tem negado as doutrinas centrais da fé cristã, em nome da ciência, da modernidade e da razão. O que fica evidente é que alguns críticos partem com o intuito de desacreditar a Bíblia, devido a alguns pressupostos naturalistas, chegando ao cúmulo de dizer que a Igreja inventou Jesus.

 

Conforme Norman Geisler “a alta crítica pode ser dividida em negativa (destrutiva) e positiva (construtiva). A crítica negativa, como o próprio nome sugere, nega a autenticidade de grande parte dos registros bíblicos. Essa abordagem, em geral, emprega uma pressuposição anti-sobrenatural”.7

 

Métodos aplicados a qualquer tipo de literatura passaram a ser aplicados também à Bíblia, com grandes doses de ceticismo (no que diz respeito à validade histórica e à integridade de seus livros), com invenções de entusiastas que tinham pouca base nos fatos históricos. Assim, onde vemos nas narrativas da Bíblia fatos sobrenaturais esta teologia lhes confere interpretações naturais, retirando da Palavra de Deus todas as intervenções miraculosas. Claramente é impróprio, ou mesmo blasfematório, nos colocarmos como juízes sobre a Bíblia.

 

Penosamente, a “alta crítica” tem empregado uma metodologia faltosa, caindo em alguns pressupostos questionáveis. E, devido aos seus resultados, ultimamente vem sendo descrita como “alta crítica destrutiva”. (para melhor compreensão, veja o quadro comparativo acima)8

 

C. S. Lewis, sem dúvida o apologista cristão mais influente do século 20, em seu artigo “A teologia moderna e a crítica da Bíblia”, tece os seguintes comentários:

 

“Em primeiro lugar, o que quer que esses homens possam ser como críticos da Bíblia, desconfio deles como críticos9 [...] Se tal homem chega e diz que alguma coisa, em um dos evangelhos, é lendária ou romântica, então quero saber quantas lendas e romances ele já leu, o quanto está desenvolvido o seu gosto literário para poder detectar lendas e romances, e não quantos anos ele já passou estudando aquele evangelho10 [...] os críticos falam apenas como homens; homens obviamente influenciados pelo espírito da época em que cresceram, espírito esse talvez insuficientemente crítico quanto às suas próprias conclusões11 [...] Os firmes resultados da erudição moderna, na sua tentativa de descobrir por quais motivos algum livro antigo foi escrito, segundo podemos facilmente concluir, só são ‘firmes’ porque as pessoas que sabiam dos fatos já faleceram, e não podem desdizer o que os críticos asseguram com tanta autoconfiança”.12

 

 

Prove e veja

 

 

Na Universidade de Chicago, Divinity School, em cada ano eles têm o que chamam de “Dia Batista”, quando cada aluno deve trazer um prato de comida e ocorre um piquenique no gramado. Nesse dia, a escola sempre convida uma das grandes mentes da literatura no meio educacional teológico para palestrar sobre algum assunto relacionado ao ambiente acadêmico.

 

Certo ano, o convidado foi Paul Tillich,13 que discursou, durante duas horas e meia, no intuito de provar que a ressurreição de Jesus era falsa. Questionou estudiosos e livros e concluiu que, a partir do momento que não existiam provas históricas da ressurreição, a tradição religiosa da igreja caía por terra, porque estava baseada num relacionamento com um Jesus que, de fato, segundo ele, nunca havia ressurgido literalmente dos mortos.

 

Ao concluir sua teoria, Tillich perguntou à platéia se havia alguma pergunta, algum questionamento. Depois de uns trinta segundos, um senhor negro, de cabelos brancos, se levantou no fundo do auditório: “Dr Tillich, eu tenho uma pergunta, ele disse, enquanto todos os olhos se voltavam para ele. Colocou a mão na sua sacola, pegou uma maçã e começou a comer... Dr Tillich... crunch, munch... minha pergunta é muito simples... crunch, munch... Eu nunca li tantos livros como o senhor leu... crunch, munch... e também não posso recitar as Escrituras no original grego... crunch, munch... Não sei nada sobre Niebuhr e Heidegger... crunch, munch... [e ele acabou de comer a maçã] Mas tudo o que eu gostaria de saber é: Essa maçã que eu acabei de comer... estava doce ou azeda?

 

“Tillich parou por um momento e respondeu com todo o estilo de um estudioso: ‘Eu não tenho possibilidades de responder essa questão, pois não provei a sua maçã’.

 

“O senhor de cabelos brancos jogou o que restou da maçã dentro do saco de papel, olhou para o Dr. Tillich e disse calmamente: ‘O senhor também nunca provou do meu Jesus, e como ousa afirmar o que está dizendo?”. Nesse momento, mais de mil estudantes que estavam participando do evento não puderam se conter. O auditório se ergueu em aplausos. Dr. Tillich agradeceu a platéia e, rapidamente, deixou o palco”

.

 

É essa a diferença!

 

 

É fundamental considerar que tudo o que engloba a fé genuinamente cristã está amparado em um relacionamento experimental (prático) com Deus. Sem esse pré-requisito, ninguém pode seriamente afirmar ser um cristão. Seria muito bom se os críticos se atrevessem a experimentar este relacionamento antes de tecerem suas conjeturas. Se assim fosse, certamente se lhes abriria um novo horizonte para suas proposições e, quem sabe, entenderiam que o sobrenatural não é uma brecha da lei natural, mas, sim, uma revelação da lei espiritual.

 

Notas:

 

1 O fundamentalismo foi um movimento surgido nos Estados Unidos durante e imediatamente após a 1ª Guerra Mundial, a fim de reafirmar o cristianismo protestante ortodoxo e defendê-lo contra os desafios da teologia liberal, da alta crítica alemã, do darwinismo e de outros pensamentos considerados danosos para o cristianismo.

2 Adoração à Bíblia.

3 Segundo a comparação clássica entre Deus e o fabricante de um relógio, Deus, no princípio, deu corda ao relógio do mundo de uma vez para sempre, de modo que ele agora continua com a história mundial sem a necessidade de envolvimento da parte de Deus.

4 O Iluminismo enfatizava a razão e a independência e promovia uma desconfiança acentuada da autoridade. A verdade deveria ser obtida por meio da razão, observação e experiência. O movimento foi dominado pelo anti-sobrenaturalismo e pelo pluralismo religioso.

5 ARCHER, Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? Edições Vida Nova, p.54.

6 CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol 1. Candeia, p. 122.

7 GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. Editora Vida, p.113.

8 Ibid. p. 116.

9 MCDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Vol 2. Editora Candeia, p.522.

10 Ibid., p.526.

11 Ibid., p.526.

12 Ibid., p.528.

 

13 Paul Tillich nasceu em 20 de agosto de 1886, em Starzeddel, na Prússia Oriental, perto de Guben. Foi um teólogo-filósofo e representante do exist

 

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                      O que é ser teólogo moderno/liberal?

 

 

 

O que é ser teólogo moderno/liberal? O que é o tal modernismo/liberalismo teológico? Como podemos identificá-lo? Que conseqüência tem para a teologia? Quais suas conseqüências para uma vida pietista e com a espiritualidade da igreja? Confesso que quando ouvia falar sobre teologia moderna/liberal, taís perguntas invadiam minha mente, e deixava-me estarrecido por não ter respostas para as mesmas.

Só posso dizer nessa introdução que essa teologia é um perigo para a vida de um cristão, como para igrejas e seminários. Podemos confirma isso através do século passado. Ela não é totalmente destrutiva, porém, seus 90% de ensinamentos acabam com a veracidade da fé cristã. Usando uma palavra mais forte, diria que o modernismo/liberalismo teológico “estripa” a genuína fé das pessoas.

Só para facilitar a leitura, estarei usando a forma que é mais conhecida essa teologia, ou seja, teologia liberal. Todavia, para entendermos essa teologia precisamos ver o pano de fundo de sua nascente, que foi o iluminismo.

 

 

 

ILUMINISMO

 

 

O Iluminismo foi o legado do modernismo que originou um movimento intelectual feito por pensadores filosóficos que ocorreu no final do século XVII e no século XVIII, que destacava a soberania da razão humana. Foi um tempo em que tiraram Deus do centro para colocar o homem com sua razão. Nessa época eles só procuravam entender o quê era possível para a razão humana, e tudo que não fosse racional era colocado de lado. Portanto, todas as suposições metafísicas religiosas eram abomináveis para eles, pois era tudo irracional.

Esse período da história moderna tinha seus maiores pensadores na Alemanha e Holanda. Especialmente era fundamentado no racionalismo e no anti-sobrenaturalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz, e, também, no empirismo de Locke, Berkeley e Hume. Não posso esquecer-me de Lessing, que dizia que é impossível a aceitação das verdades históricas do cristianismo; é bom guardamos esse conceito dele, pois veremos que os teólogos usaram essa teoria mais tarde. Quando Kant (maior pensador deste período) escreveu sobre a crítica da razão pura, fez com que o racionalismo ganhasse mais espaço, e que o sobrenaturalismo decaísse. Nessa obra fala que o saber do cientificismo genuíno é possível, porém, é um saber da realidade do “fenômeno”. Ou seja, a realidade é como se apresenta a nós e não a realidade em si. O que o homem pode conhecer sempre será manifestado pelo espaço e pelo tempo da mente humana e das categorias providos pelo mesmo entendimento, como a causalidade e substância. A única fé que pode ter é a fé moral e racional. Vamos vê uma declaração de Kant sobre “A religião nos limites da simples razão (1.783)”:

“A elevação do homem de um estado auto-infligido de inferioridade. Um inferior é alguém incapaz de usar seu conhecimento sem a ajuda de outro [...] Ter a coragem de usar seu conhecimento é então o homem do Iluminismo (Douglas, p. 345 v. Racionalismo).” 1

Como eu já escrevi o Iluminismo sempre enfatizou a razão e independência de suposições metafísicas religiosas. Só podemos chegar à verdade quando obtivê-la pelo racional e pela observação empírica. Esse movimento foi dominado pelo o anti-sobrenaturalismo. E como resultado teve o pluralismo religioso que é a existência de várias opções religiosas e verdades sobre religião, evitando julgar a religião mais verdadeira, ou superior (relativismo religioso). Através dessa época surgiu o deísmo, o

qual pressupõe que Deus criou o mundo, porém, não se interage e nem sustenta ele. Com isso, também, nasceu à crítica bíblica e a rejeição da revelação divina, pois o deísmo falava sobre uma religião natural, como pressuposto o racional. E através disso veio a nascer o Agnosticismo, Ateísmo e Ceticismo. Vamos vê rapidamente o significado de cada um:

Ø Agnosticismo: Essa corrente não crê em Deus (Ateísmo), todavia, não O nega (Teísmo). Eles declaram que é impossível resolver a questão da existência de Deus, e com isso evitam o juízo de valores.

Ø Ateísmo: Ao contrário do Agnosticismo, esse afirma 100% à inexistência de Deus.

Ø Ceticismo: Ele nega o saber humano completo e genuíno. Falam que não tem possibilidade de conhecimento do mundo exterior. São totalmente críticos a qualquer suposição metafísica.

Com essa enfatização da razão e da religião natural, dizendo que não há conhecimento completo de um transcendente, a teologia cristã foi influenciada e conseqüentemente alcançada por essas idealizações filosóficas iluminista. Fazendo assim que nascesse a teologia moderna, mais conhecida como teologia liberal. E essa é nossa preocupação nesse presente estudo, que estaremos a salientar no próximo tópico.

Só para deixar de passagem, o iluminismo foi mais do quê estou escrevendo, como as reações contra as autoridades políticas e o avanço dos conhecimentos científicos. Em países como a França o iluminismo foi anticlerical e de orientação política; e o Iluminismo Britânico desenvolveu um país onde já havia estabelecido uma monarquia liberal. Contudo, devemos ter idéia de que o iluminismo que aqui estamos vendo é o que ocorreu na Alemanha e Holanda, esses países que se preocupavam com o debate intelectual sobre a metafísica e a religião, que atingiu a teologia cristã.

 

 

 

 

A ORIGEM DA TEOLOGIA MODERNA/LIBERAL.

 

 

 

Ao acontecer o evento iluminista, fez com que seus pressupostos alcançassem a teologia cristã, dando origem à teologia moderna/liberal no final do século XVIII e no século XIX. Fazendo que seus legados continuem até nos dias de hoje. Essa teologia nascera no protestantismo, todavia, hoje ela é mais influente no meio católico apostólico romano.

Sempre a alguém que origina uma corrente teológica, e essa foi criada pelo alemão Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834). Esse homem negava a autoridade e os milagres de Jesus, o Cristo que estavam escrito na bíblia. Ele acreditava que a religião era auto-suficiente quando o sentimento humano mostrava, por exemplo, a comunhão com Deus era feito quando o individuo sente que está se relacionando com o Divino, e assim se torna salvo, mesmo que não creia no evangelho de Cristo. Para ele a bíblia não poderia ser tratada como uma narrativa de interveções divinas, ou como uma coletânea de pronuciamentos divinos. Ela era uma obra de experiência religiosa. Logo, não era preciso levar a escritura a sério em seus detalhes mais pequenos. Assim ele acreditava que as experiências religiosas era o centro da essência da religião. E a essência da religião encontra-se “no nosso senso da dependência absoluta”. Ou seja, na nossa comunhão com Deus, é que encontramos a religião pura, e não na confiabilidade da escritura. Vamos vê algumas palavras dele:

“O elemento comum nas expressões da piedade, por mais diversas que sejam… é este: a consciência de ser totalmente dependente ou de estar em relacionamento com Deus, o que é a mesma coisa”. 2

Com este pensamento ela elaborava novamente todas as doutrinas cristãs. E ele reinterpretou o pecado, dizendo que não é uma trangressão com a moral que deve ter, como a bíblia ensina, mas, sim, é a falta de busca da dependência com o Sagrado e o almejo pela liberdade. A redenção só ocorrerá se esse senso de dependência for restaurado. Agora chegamos no tocante da questão, a sua elaboração sobre quem era Cristo. Ele negava o Cristo ensinado pela teologia histórica com seus concilios cirstológicos, em outras palavras, ele negava a deidade de Cristo. Ensinava que Cristo era um homem que buscou o senso da dependência absoluta com o Divino, ou seja, buscou a comunhão com Deus, e essa comunhão foi tão intensa que poderia dizer que Deus habitava nele. Vamos ver o que ele escveve:

“O redentor, portanto, é como todos os homens em virtude da identidade da natureza humana, mas distinto de todos eles pela potencialidade constante da

sua consciência de Deus, que era uma verdadeira existência de Deus dentro dele” 3

Tendo essa idéia de Cristo ele diz que a obra redentora de Cristo, é a inspiração que ele dá através de sua vida, dos homens se relacionarem e procurarem a comunhão com Deus. Já que ele não acredita em Cristo como Deus, logo, não aceita a trindade como verdade. Ele declara que essa doutrina é a amarração da doutrina cristã. Portanto, ele dispensa essa doutrina e adota consigo o utilitarismo. Como ele definiria então as três pessoas da trindade que ele não acredita? Deus para ele é existente pois o homem busca o senso de dependência absoluta com Ele. Jesus é um homem histórico que nos deu o exemplo de relacionarmos com Deus. E o Espírito Santo é simplesmente como descrevemos a experiência religiosa, ou seja, a experiência com o Deus da igreja. Vemos a mesma idéia de Deus, nos escritos de Paul Tillich, mas, esse muda a nomenclatura para “o Fundamento do ser” e, também, nos escritos de Robinson que chama de “preocupação última”.

Devemos que criar a consciência de que, Friedrich Schleiermacher distanciou da teologia bíblica e da teologia natural, e analisou a experiência religiosa como senso da dependência abosoluta com o Sagrado. Para quem gostaria de aprender mais, é só ler o livro dele: “The Cristian Faith”.

Com a abordagem de Friedrich Schleiermacher vários pensadores foram influenciados. Muitas coletâneas começaram a ser procuzidas falando sobre a “vida de Jesus”. Jesus começou a ser reinterpretado com interpretações racionalistas e fictícias, partindo do pressuposto de que os milagres e o sobrenaturalismo na bíblia não devem ter créditos. Mais para frente não só Jesus, mas toda a bíblia começou a ser reinterpretada sem os milagres e o sobrenatural, criando assim o conceito de quê há mitos na bíblia. Esse presente estudo não estará mostrando todos os pensadores dessa teologia, mas, citarei alguns nomes: Strauss, Renan, Seeley, Drews, Harnack e Ritschl. Esse último partia da premissa de Kant, falando que a bíblia é um livro de moral, e o cristianismo é uma religão de moralidade e não de sobrenaturalismo. A maioria desses autores falava que Jesus era um pregador de amor e moral. Todos buscam o Jesus Histórico, com isso tentavam levantar uma nova historicidade de Jesus, além daquela que está na Bíblia. Alguém que devemos dar uma atenção especial nesse espaço, é Albert Schweitzer. Esse montou sua tese de doutorado chamado, “A busca pelo Jesus Histórico”, que se tornou uma obra admirada para essa teologia. Aqui podemos ver a teoria de Lessing, que citei acima. A história Cristã não é de se confiar e é precisso que seja revista, e foi isso que Schweitzer fez. E sem dúvida foi quem mais influênciou o meio liberal depois de Schleiermacher.

Schweitzer como os outros fala que o centro da pregação de Jesus era a moralidade. Ele falava sobre a escatologia e idéia do Reino da seguinte forma: Jesus acreditava que o Reino iria vim naquela era, e daí ele se tornaria o Messias, mas, Sua dedução falhou. Com isso ele ficou esperando esse acontecimento que resultou Sua morte. Enquanto isso ele ficava apregoando a ética interina. Jesus para ele era um político religioso e fanático, que andava pela vida sem destino. Seus ensinos tinham Jesus, no entanto, o quê ele mais destacava era o “respeito pela vida”. Acredito que esse ensino último, deu a base para a fonte da teologia existencialista.

Devemos lembrar que não só a historicidade de Cristo estava sendo questionada, mas, também, a crítica bíblica. Vários pensadores levantaram suspeitas sobre a bíblia, como: Baur, Lachmann, Weisse, Wilke, Holtzmann e Streeter. Só para termos uma idéia, foi através desse tempo, dessa época e com esses pensadores que começou uma ótica minuciosa dos evangelhos, onde surgiu a idéia do documento Q (que é uma suposta coletânea de ditos de Jesus, usados por Mateus e Lucas, mas, por Marcos não). Mais para frente na Europa continental, a crítica bíblica crescera, especialmente no novo testamento, criando assim a crítica da forma, tendo como maior pensador o famoso Rudolf Bultmann, um exegeta existencialista do novo testamento, que tinha perspectivas liberais. Esse foi influenciado pela filosofia existencialista de Martin Heidegger, e começou a reconstruir o Jesus histórico e Suas pregações. Ele falava que o novo testamento deve ser interpretado para a essência da existência. Para um conhecimento melhor da existência e de como você pode se desenvolver como ser enquanto tal. E os milagres e sobrenaturalismo que é mostrado na bíblia, ele acompanhava as idéias do demais liberais.

As idéias filosóficas influenciaram os estudos bíblicos, e criou um ceticismo acerca dos evangelhos. Não somente o evangelho, mas, mais para frente à bíblia inteira. Junto com o ceticismo moderno, começaram a questionar a veracidade do Cristianismo e da Bíblia. Diziam e dizem que a bíblia só tem confiabilidade em regra de fé, prática, ética e moral. Entretanto, o quê é histórico, cosmológico e sobrenatural, ela é falível. Vamos vê alguns conceitos do liberalismo no próximo tópico.

 

 

 

 

 

AS TENDÊNCIAS DA TEOLOGIA MODERNA/LIBERAL

 

 PARA A FÉ BÍBLICA

 

 

Essa teologia trouxe grande divisão à ortodoxia. Seus ensinamentos gravaram rompimento em quase todas as denominações históricas. Pelo crescimento dessa teologia em seminários e igrejas, houve uma reação conhecida como Fundamentalismo. Eu não vou me aprofundar neles aqui, mas, quero deixar algumas coisas relatadas sobre eles. Os fundamentalistas dessa época, não podem ser confundidos com os mesmos fundamentalistas de hoje. Hoje o movimento que se identifica com o velho fundamentalismo chama-se de evangelicalismo.

O liberalismo começou ter grande crescimento no século XX, especialmente nos EUA. Muitos saiam dos EUA, para obterem pós – graduações na Europa, especialmente na Alemanha, onde conheceram os grandes ensinamentos liberais, e começaram trazer esses para os EUA. Com isso começou haver grandes batalhas entre os liberais e fundamentalistas. Os liberais conseguiram criar uma grande força nessa época, que ganhou um extremo espaço nos seminários e igrejas. Os fundamentalistas não viram outra decisão, a não ser de saírem dessas denominações e montarem novas denominações que foram: Batistas Regulares (que formam a Associação Geral das Igrejas Batistas Regulares, em 1932), os Batistas Independentes, as Igrejas Bíblicas, as Igrejas Cristãs Evangélicas, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (em 1936, que mudou seu nome para Igreja Presbiteriana Ortodoxa), a Igreja Presbiteriana Bíblica (em 1938), a Associação Batista Conservadora dos Estados Unidos (em 1947), as Igrejas Fundamentalistas Independentes dos Estados Unidos (em 1930) e muitas outras denominações que existem ainda hoje. 4

Voltando com a ótica só no liberalismo, podemos falar que eles, negam as verdades de quase todos os fundamentos da fé cristã. Eles criam sua ideologia, de que há “mitos” na bíblia. Pois, os antigos não conseguiam compreender o que acontecia, portanto, os exegetas críticos falavam que os autores bíblicos usaram fontes que são revestidas de “mitos”, e lendas criadas por Israel e pela Igreja Primitiva. Assim nasce um método novo de exegese, conhecido como exegese histórico-critico/gramatical. Eles dizem que é preciso tirar os dogmas e a teologia sistemática, e tentar reconstruir a história e os fatos daquela época, para poder chegar às verdades que estavam por trás dos surgimentos da religião de Israel e do cristianismo. Para que isso possa ocorrer, a principal ferramenta a ser usada é a razão, com outras ferramentas como a crítica bíblica, crítica da forma e a crítica literária. Quero mostrar a definição dessa exegese que Uwe Wegner fez:

“Método histórico-crítico/gramatical, analisa os textos considerando sua gênese e evolução históricas. O método é crítico, pois as evidências apresentadas pelos textos permitem juízos alternativos e, por vezes, até antagônicos, sendo necessário avaliar criteriosamente as várias possibilidades de interpretação”. 5

Vamos desfragmentar para que possamos compreender seu significado melhor. Ele é histórico, porque ele trabalha com fontes históricas, e analisa dentro de uma evolução histórica, tentando mostrar os seus progressos de formação e crescimento, até mostrar sua forma atual. E, também, porque se interessa pelas histórias que geraram essas fontes, nos seus estágios evolutivos. Ele é crítico, pois precisa ter uma série de juízos sobre as fontes de estudo. Porém, o que quero destacar nesse método é duas analises que são conhecidas como Alta-Crítica e Baixa-Crítica:

Ø A baixa-Crítica: Essa é mesma coisa que a Crítica Textual. Sua analise é em restaurar o texto original, tendo como base os manuscritos que foram escritos, que são em volta de 5.000 (só em grego). Com isso usa ferramentas como a Kurt – Aland e a Nestlé – Aland, para o novo testamento. Para o velho testamento usa-se a Sturt Gartensia. Olhando para seus aparatos críticos, e vendo as evidências oferecidas pelas variações. Mostrando as diferenças nos textos que tem essas evidências nos manuscritos. E isso se vê através de símbolos e sinais.

Ø A Alta-Crítica: Essa analise mostra uma avaliação crítica da Bíblia. Não se permanece somente na bíblia, mas vai além, investigando sua autoria, historicidade, datação, integridade, sua forma de composição e estrutura, doutrinas ensinadas, procedências e as idéias envolvidas, dentre outras coisas. Geralmente essa crítica tem entrado em conflito com as doutrinas centrais da fé Cristã, para dar mais base ao cientificismo, modernismo e o racionalismo. Para termos idéia como eles vão além, eles chegam ao ponto de dizerem que Jesus não existiu, e foi inventado pela igreja primitiva. O maior apologista de nossos tempos conhecido como Norman Geisler declara que:

“A alta-crítica pode ser dividida em negativa (destrutiva) e positiva (construtiva). A crítica negativa, como o próprio nome sugere, nega a autencidade de grande parte dos registros bíblicos. Essa abordagem, em geral, emprega uma pressuposição anti-sobrenatural”. 6

Gostaria de salientar, que esse método exegético não é totalmente ruim. Eu faço uso das palavras de Norman Geisler, e digo que o método exegético histórico-crítico/gramatical, pode ser destrutivo quando é usado por um liberal convicto. Todavia, ele pode ser construtivo quando for usado por um evangelicalista convicto.

Nessa parte onde estamos, vou citar alguns pontos do liberalismo teológico, dentre outros que eu já escrevera nesse estudo:

Ø Eles falam que Deus é puro Amor, e não tem padrões morais. Pelo seu amor e paternidade, todos têm filiação divina e nenhum homem tem a separação por causa do pecado. Logo, eles adotam a idéia do universalismo unitário, que é o conceito que todas as pessoas serão salvas, e Deus dará um “jeitinho” até na situação do Diabo. Logo, não existe o inferno, e o pecado é a falta de relacionamento com o Sagrado, e, também, uma questão cultural. É a cultura em que você vive que define o que é pecado e o que não é.

Ø Existe uma centelha divina em cada pessoa. 7 Sendo assim, o homem é bom, ele só precisa de um incentivo para fazer o que é correto.

Ø Jesus não é o Cordeiro Salvador. Quando a bíblia diz que ele é Salvador, está querendo afirma de seu exemplo de vida, de sua proximidade com Deus. Ele não teve concepção e nascimento virginal, não realizou curas e milagres, não teve a morte expiatória e nem ressuscitou dos mortos. Como já falado, eles chegam até negar a existência do Jesus narrado, buscando assim a busca do Jesus Histórico. E conseguem ir mais longe ainda, falando que Ele não passa de um personagem criado pela igreja primitiva.

Ø Todas as religiões nos levam a Deus, o cristianismo só é a forma melhor delas.

Ø A bíblia não é veraz, confiável, inspirada e infalível. Somente ela é uma literatura para os Judeus e Cristãos poderem praticar; e não uma revelação.

Ø As confissões criadas nos concílios, não são essenciais para o Cristianismo. O que faz o Cristianismo são suas experiências religiosas e a sua moralidade.

Ø Eles favorecem o relativismo, negando a verdade absoluta. Com isso a bíblia deixa de ser verdade absoluta. Falam que aqueles que a declaram de verdade absoluta são bibliolátras.

Na contra – capa do livro o Cristianismo e o liberalismo, feito por J.G. Machem, ele escreve algo interessante:

“O liberalismo representa a fé na humanidade, ao passo que o cristianismo representa a fé em Deus. O primeiro, não é sobrenatural, o último é absolutamente sobrenatural. Um é a religião da moralidade pessoal e social, o outro, contudo, é a religião, do socorro divino. Enquanto um tropeça sobre a ‘rocha do escândalo’, o outro defende a singularidade de Jesus Cristo. Um é inimigo da doutrina, ao passo que o outro se gloria nas verdades imutáveis que repousam no próprio caráter e autoridade de Deus”. 8

Só resta fala para esses que não tem como negociar o inegociável, como o próprio Danilo Raphael escreveu. Contudo, eu dou graças a Deus que Ele levantou homens para defender a veracidade da fé cristã e enfrentarem os liberais dizendo que eles estavam afligindo verdades fundamentais do cristianismo, e lançaram “Os Fundamentos”, em doze volumes que defendiam os pontos do cristianismo. E, também, criaram cinco pontos para sua bandeira, a saber:

Ø A inspiração, infalibilidade e inerrância da bíblia das Escrituras. Reagindo contra os ataques do liberalismo que considerava que a bíblia estava cheia de erros de todos os tipos.

Ø A divindade de Cristo. Também negada pelos liberais, que insistiam que Jesus era apenas um homem divinizado.

Ø O nascimento virginal de Cristo e os Milagres. Para o liberalismo, milagres, nunca existiram, eram construções mitológicas da Igreja primitiva.

Ø O sacrifício propiciatório de Cristo. Para os liberais, Cristo havia morrido somente para dar o exemplo, nunca pelos pecados de ninguém.

Ø Sua ressurreição literal e física e seu retorno. Ambas as doutrinas eram negadas pelos liberais, que as consideravam como invenção mitológica da mente criativa dos primeiros cristãos. 9

Não somente esses fundamentalistas, mas, também, houve um grande apologista, considerado o maior do século XX. Que fez uma apologia maestral contra essa teologia (especialmente contra Bultmann). Esse homem é conhecido como C.S.Lewis, e sua apologia é chamada de: “A teologia moderna e a crítica bíblica”. Encerro essa parte com algumas citações desse documento:

“A autoridade de especialistas naquela disciplina é a autoridade em deferência à qual somos solicitados a desistir de um imenso acúmulo de crenças compartilhadas em comum pela igreja primitiva, pelos pais da Igreja, pela Idade Média, pela Reforma Protestante, pelos pregadores de século 19. Quero explicar aqui o que me deixa cético quanto a essa autoridade, ignorantemente cético, conforme muitos diriam após um exame superficial da questão. Mas o ceticismo é o pai da ignorância. É difícil alguém perseverar em um estudo detalhado quando tal estudioso não pode confiar prima facie em seus mestres… Em primeiro lugar, o que quer esses homens possam ser como críticos da Bíblia, desconfio deles como críticos. A mim parece que são fracos quanto a um bom juízo literário, mostrando-se incapazes de perceber a própria qualidade dos textos que examinam… Se tal homem chega e diz que alguma coisa, em um dos evangelhos, é lendária ou romântica, então quero saber quantas lendas e romances ele já leu, o quanto está desenvolvido o seu gosto literário para poder detectar lendas e romances, e não quantos anos ele já passou estudando aquele evangelho… Esses homens pedem-me que eu acredite que eles podem ler entre as linhas dos textos antigos; mas todas as evidências levam-me a notar a óbvia incapacidade deles de lerem (em qualquer sentido digno de discussão) as próprias linhas. Eles afirmam poder ver coisinhas minúsculas, mas não podem ver um elefante a dez metros de distância, em plena luz do dia… Os críticos só falam como apenas como homens; homens obviamente influenciados pelo espírito da época em que cresceram, espírito esse talvez insuficientemente crítico quanto às suas próprias conclusões… Os firmes resultados da erudição moderna, na sua tentativa de descobrir por quais motivos algum livro antigo foi escrito, segundo podemos facilmente concluir, só são ‘firmes’ porque as pessoas que sabiam dos fatos já faleceram, e não podem desdizer o que os críticos asseguram com tanto autoconfiança”. 10

 

 

CONCLUSÃO

 

Saliento aqui as palavras do Dr. Augustu Nicodemos, ao ser entrevistado pelo ICP (Instituto Cristão de Pesquisas). O liberalismo contribuiu para a teologia de uma forma positiva. Ajudou para o nosso conhecimento acerca do antigo e novo testamento, e para nossa consciência da importância da cosmovisão oriental na formação do mundo dos autores da bíblia, mesmo que eles critiquem os mesmos. Contribuiu para um estudo das religiões do período neotestamentário, como o surgimento do Cristianismo, mesmo que suas conclusões sejam inaceitáveis para estudiosos comprometidos com a veracidade e inerrância da bíblia. Eles ajudaram a teologia indiretamente. Os seus pressupostos de estudos são interessantes, mas sua totalidade é diabólica.

Essa teologia só trouxe propostas para o mundo acadêmico, no entanto, uma verdadeira teologia vai além disso. Uma verdadeira teologia implanta novas igrejas, evangeliza e traz novas almas para Cristo, através da atuação do Espírito Santo. Porém, o liberalismo nunca fez isso, pelo ao contrário, onde ele passa é destruição. O liberalismo não funda novos campos missionários, igrejas, seminários e etc. Mas, espera o quê deles? Já que os mesmo não acreditam na Salvação do Cordeiro e nem na confiabilidade bíblica.

Devemos orar e estudar a palavra de Deus, através da iluminação do Espírito Santo, para podermos nos precaver contra essa teologia que tanto tem destruído e acabado com o povo de Deus. Mas, eu não disse que ela contribuiu? Sim, não nego! Entretanto, faço uso das palavras do Apóstolo Paulo aos Tessalonicenses em sua primeira carta, no capitulo 5 versículo 21: “Examinai tudo. Retende o bem.”. No caso do liberalismo, é o mínimo que podemos reter. O restante devemos jogar fora, para podermos cumprir o versículo 22: “Abstende-vos de toda aparência do mal.”

NOTAS

1 GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. Editora: Vida, 1999. Pg 411.

2 BROWN, Colin. Filosofia e Fé Cristã – um esboço desde a Idade Média até o presente. São Paulo: Vida Nova, 2007. Pg 98.

3 BROWN, Colin. Filosofia e Fé Cristã – um esboço desde a Idade Média até o presente. São Paulo: Vida Nova, 2007. Pg 99.

4 http://www.icp.com.br/69materia2.asp , por Danilo Raphael.

5 WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. Manual de Metodologia. São Leopoldo: Sinodal: São Paulo: Paulus, 1998; Pg 17 e 340.

6 http://www.icp.com.br/69materia2.asp , por Danilo Raphael.

7 http://www.vidanova.com.br/teologia_augu05.html , por Augustu Nicodemus.

8 http://www.icp.com.br/69materia2.asp , por Danilo Raphael.

9 http://www.vidanova.com.br/teologia_augu05.html , por Augustu Nicodemus.

10 http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/teologia_moderna_biblia_lewis.pdf

BIBLIOGRAFIA.

BOICE, James Montgomery. O Alicerce da Autoridade bíblica. Editora: Vida, 1989.

BROWN, Colin. Filosofia e Fé Cristã – um esboço desde a Idade Média até o presente. São Paulo: Vida Nova, 2007.

EVANS, Stephen C. N. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião Editora: Vida, 2002.

GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. Editora: Vida, 1999.

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. Manual de Metodologia. São Leopoldo: Sinodal: São Paulo: Paulus, 1998.

Enciclopédia de Filosofia. Sapadix Software.

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http://www.vidanova.com.br/teologia_augu05.html