Translate this Page

Rating: 3.0/5 (934 votos)



ONLINE
4




Partilhe este Site...

 

 

<

Flag Counter

mmmmmmmmmmm


// ]]>


comentario e estudo 1 TIMÓTIO ( parte n.2)
comentario e estudo 1 TIMÓTIO ( parte n.2)

 

              COMENTARIO E ESTUDO BIBLICO DE 1 TOMÓTIO

 

Testemunho Acerca do Evangelho (1.12-17)

 

Este parágrafo é, claramente, uma digressão na discussão que a carta, apresenta, de modo que é fácil lê-lo ou comentá-lo separado de seu contexto imediato. Todavia, proceder assim é perder grande parte de seu significado. O parágrafo todo flui diretamente do precedente. Antes de tudo, é uma apresentação do "evangelho" (v. 11) como expressão ousada da graça de Deus para com os pecadores. Muito embora ele assuma a forma de testemunho pessoal (observe as onze ocorrências de eu (oculto ou não), me, e mim, a ênfase do princípio ao fim recai sobre a graça de Deus manifestada em Cristo, que por sua vez inspira a doxologia no v. 17. Como tal, o parágrafo está em contraste com os vv. 8-10 onde, embora não o diga expressamente, Paulo mostra de novo a precariedade da lei, que dizia existir para os pecadores. Todavia, a lei apenas pode "mantê-los em xeque", por assim dizer; a graça de Deus traz consigo fé e amor, e oferece vida eterna.

Contudo, esta afirmação do evangelho é feita na forma de testemunho pessoal, emanando diretamente das palavras "me foi confiado". Mara­vilhado diante da graça que lhe foi prodigalizada, Paulo se coloca à frente como exemplo número um de tal graça para todos os pecadores. O testemunho serve, também, de contraste aos falsos mestres. A autoridade de Paulo finalmente reside na naturezaautêntica do seu evangelho, segundo ele o tem pregado e experimentado.

 

1:12-13 Havendo mencionado o "evangelho" que "foi confiado" a ele, Paulo faz uma coisa que lhe é natural — explode em ações de graças (cp. Romanos 6:17; 7:25; 1 Coríntios 15:57; 2 Coríntios 2:14; 8:16; 9:15). Conquanto em sua maioria essas ações de graças sejam breves, esta aqui, muito semelhante a 2 Coríntios 2:14, expande-se numa expres­são pessoal para trazer à lembrança dos seus ouvintes o relacionamento de Paulo com o evangelho (cp. 1 Coríntios 15:9-10; 2 Coríntios 2:14-7:4; Efésios 3:1-13).

Não é comum que Paulo dirija seus agradecimentos a Cristo, em vez de a Deus, mas isto foi determinado aqui pelo qualificadorque me fortaleceu (que precede Cristo Jesus no texto grego). Para Paulo, este verbo comumente se refere à obra de Cristo e não à do Pai (veja Filipenses 4.l3; Efésios 6:10; 2 Timóteo 2:1; 4:17). Em dizendo que Cristo me fortaleceu, Paulo não se refere a ter recebido força interior de algum tipo (como em Filipenses 4:13). Antes, o verbo refere-se ao "me foi confia­do" do v. 11; portanto, uma tradução melhor seria "que me capacitou, ou me dotou de poder" (cp. NEB: "colocou-me à altura da tarefa"). A gratidão de Paulo abrange também duas outras realidades: Cristo me considerou fiel e, por isso mesmo, acabou pondo-me no seu ministério. Por me considerou fiel (melhor," digno de confiança"), Paulo não quer dizer que recebeu designação porque Deus o teria tido em alta conta — tal idéia contradiria a passagem toda — mas afirma que lhe é sumamente espantoso que Deus viesse um dia a confiar-lhe o evangelho, conforme deixam claro os vv. 13 e 14. Expondo de novo este ponto: "Pensar que ele me consideraria, dentre todas as pessoas, digno desta confiança". Sua designação aqui, convém notar, não se refere ao apostolado, mas à obra de um servo, no seu ministério (diakonia,serviço, "ministério", palavra favorita de Paulo).

Como em 1 Coríntios 15:9-10 e em Gálatas 1:13-16, passagens muito semelhantes a esta, o modo de Paulo entender sua conversão e seu ministério como expressões da graça encontra seu foco na memória vivida de seu passado. A maravilha, para ele — que assim dá magnitude à graça de Deus — é Cristo tê-lo levado em consideração (v. 12), uma vez que por ocasião do seu chamado ele era ativamente blasfemo e perseguidor e injuriador. Isto, é claro, se refere à perseguição que Paulo movera contra a igreja (Atos 8:3; 9:1-2; 22:4-5; 26:9-11). Ele não somente negara a Cristo ("blasfemo"), mas, mediante perseguição e violência (cp. Gálatas 1:13," e a assolava"), tentara obrigar outros a fazer o mesmo, até que, finalmente, ele mesmo foi preso — pela graça.

Mas, continua ele, alcancei misericórdia, porque o fiz ignorante­mente, na incredulidade. À primeira vista, isto parece contraditório, como se ele houvesse recebido misericórdia porque a merecia. Mas o parágrafo inteiro indica que não é assim. Paulo está aqui refletindo sobre a distinção que o AT faz entre pecado "involuntário" e pecado "volun­tário", intencional (p.e., Números 15:22-31). Sua conduta anterior não é, por isso, menos culpável ou grotesca, mas para Paulo esta distinção explica porque ele se tornou objeto da compaixão, e não da ira de Deus.

 

1:14 Ainda envolto na maravilha a que se referira, Paulo repete o que afirmara, mas desta vez a ênfase se transfere de seu ministério (vv. 11- 12) para sua real conversão. Embora escreva com algumas variações inusitadas (p.e., nosso Senhor [Cristo Jesus] como o doador da graça), a teologia desta passagem é totalmente paulina. A graça que havia sido derramada sobre ele superabundou, graça que lhe motivava ao mesmo tempo fé e amor. Para Paulo, a ação de Deus é sempre ação motivadora. Fé é resposta à graça(Romanos 3:23-25; Efésios 2:8), e a fé age em amor (Gálatas 5:6; cp. 1:5). De mais a mais, que a fé e o amor estão em Cristo Jesusmostra claramente que não são qualidades humanas, mas indicações de que a graça operou. São "expressões visíveis de um relacionamento vivo com o Salvador" (Kelly).

Tudo isto certamente contrasta com os presbíteros heréticos, que sé desviaram da fé e do amor (1:6), que blasfemam (1:20) e estão engajados em contendas (6:4), e desse modo abandonaram o evangelho da graça exemplificado aqui.

 

1:15-16 Havendo proferido esta palavra pessoal sobre como a graça de Cristo transbordou para um ex-perseguidor, Paulo se lembra de que aquilo que lhe aconteceu está de pleno acordo com um enunciado bem conhecido, que talvez tivesse raízes no próprio Jesus (Lucas 19:10; cp. João 12:46; 18:37). Ele começa com a fórmula: Fiel é esta palavra (lit.), que se repetirá mais quatro vezes nessas cartas (3:1; 4:9; 2 Timóteo 2:11; Tito 3:8) e que foi assunto de considerável discussão. Neste caso, a fórmula precede o enunciado, e a expressão do próprio enunciado é clara. Nem sempre é esse o caso (p.e., 3:1 e 4:9). Além do mais, nada exatamente igual ocorre algures no NT. Contudo, a fórmula semelhante, "fiel é Deus", é comum em Paulo (p.e., 1 Coríntios 1:9; 10:13; 2 Coríntios 1:18), e talvez seja a fonte desta presente formulação.

A ênfase no grego, como na ECA, reside na fidelidade da palavra. Aumenta-se a ênfase ainda mais pelo acréscimo: digna de toda a aceitação. Existe alguma ambigüidade aqui quanto a saber se há um sentido intensivo (NIV, total; ECA, toda; cp. RSV, GNB), ou um sentido extensivo (" aceita por todos", Weymouth, Livro de Oração Comum no adjetivo pases. A fórmula semelhante em 6:1, em que o sentido só pode "ser intensivo ("dignos de toda a honra") empresta apoio à tradução de ECA; não obstante, pode-se argumentar, partindo do contexto, que há ênfase naquela palavra como digna de aceitação universal.

No próprio ditado, Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dois pontos são apresentados: Encarnação e Redenção, com a ênfase na Redenção. Dizer que ele veio ao mundo em si mesmo não implica necessariamente, é claro, em preexistência, mas que se enten­desse assim, quase com certeza é o que Paulo tinha em mira. Aqui se acentua o motivo da sua vinda, e o motivo para que Paulo o incluísse ― salvar os pecadores. Pecadores! Esse era um termo bastante comum no judaísmo dos fariseus (tradição do próprio Paulo). Referia-se a todo! quantos não guardassem estritamente a lei, de modo especial os gentios (até Paulo pode usá-lo assim em Gálatas 2:15). Aqui, porém, e algures em Paulo, pecadores é termo universalizante. Toda a humanidade, quer judeus quer gentios, todos se igualam neste ponto (Romanos 3:19-20, 23). Mas Cristo veio para salvar os pecadores.

Para Paulo, salvação é, antes de tudo, um termo escatológico; isto é, tem que ver com o destino humano, o que acontece às pessoas no fim (grego, eschaton). Mas essa salvação escatológica já começou na pre­sente obra de Cristo, donde “salvar pecadores" também significa salvá-los de sua presente pecaminosidade. Tanto o aspecto presente como o futuro parecem estar em mira aqui (cp. v. 16, "crer nele e receber a vida eterna").

A fim de personalizar o ditado, Paulo acrescenta dos quais eu sou o principal, não como forma de hipérbole, como alguns diriam, nem porque Paulo fosse mórbido com relação ao seu passado pecaminoso, mas precisamente em virtude de sua própria experiência da misericórdia e graça de Deus. Essas declarações devem ser entendidas à luz da intersecção na vida de Paulo do sentido esmagador, simultâneo de sua própria pecaminosidade e total desamparo diante de Deus e do fato da graça de Deus ser-lhe prodigalizada, sem méritos, e de Deus aceitá-lo incondicionalmente a despeito do seu pecado. Conviria notar também que ele diz eu sou, e não "eu fui". Até mesmo Hanson, que acredita ser a carta uma falsificação, admite que este é um "toque verdadeiramente paulino". Mas assim é, não por causa do senso permanente de pecami­nosidade da parte de Paulo (conforme Bernard e outros), mas porque ele se reconhecia como tendo sempre o status de "pecador redimido".

Com a adição desta última sentença, dos quais eu sou o principal, Paulo encontra-se agora em posição de atingir seu último objetivo neste testemunho a favor da graça de Deus. O motivo para que Cristo salve Paulo, o principal dos pecadores, era que por esse meio ele poderia apresentar Paulo como exemplo básico para todos os demais pecadores, que haviam de crer nele para a salvação. O ponto de Paulo é simples “Se Deus quis — e pôde — fazê-lo a mim, considerando-se quem eu soa e o que fiz, então há esperança para todos" (cp. 2:3-7). E por isso ele repete: alcancei misericórdia, mas agora acrescenta este novo motivo.

Salvando a Paulo, Cristo Jesus demonstrou toda a sua longanimidade (ou, "a extensão total de sua paciência") no trato com os pecadores. "Tolerância" ou "paciência" como característica da divindade no trato da rebelião humana é idéia totalmente paulina (Romanos 2:4; 3:25-26; 9:22-23; cp. 2 Pedro 3:9, 15). Vê-se tal longanimidade (paciência) no seu trato comigo, para que em mim, o principal dos pecadores... precisamente para que Cristo pudesse ter um exemplo, um protótipo para os que haviam de crer nele e, desse modo, também receber a vida eterna. O termo grego para vida eterna significa não tanto vida de longevidade sem fim, mas principalmente “vida na era vindoura", vida que agora é nossa em Cristo para ser plenamente usufruída por ocasião de sua "volta" (veja6:12-15; 2 Timóteo 4:6-8; Tito 2:11-14).

 

1:17 O que começou como ações de graças e depois mudou para testemunho da abundante graça de Deus, agora conclui comodoxologia. Como poderia ser diferente? A reflexão na graça de Deus muitas vezes leva Paulo ao louvor (p.e., Gálatas 1:5; Efésios 3:21; Filipenses 4:20). Em 6:15-16 aparece uma doxologia semelhante. O que separa estas duas doxologias das anteriores é sua ênfase na "diversidade" e eternidade de Deus. Ambas trazem consigo um toque litúrgico, bem arraigado na piedade judaico-helenística. Talvez reflitam doxologias oriundas da sinagoga da Diáspora, onde Paulo tinha suas próprias raízes, e onde ele começou seus esforços missionários.

O Rei eterno (lit., "o rei dos séculos") retoma o tema da vida eterna no v. 16. Deus é eterno no sentido de que ele governa em todos e por todos os séculos. Deus é, de igual maneira, o imortal (lit., "incorruptí­vel”, termo tirado do judaísmo helenístico), invisível (expressão recor­rente do AT; cp. Romanos 1:20; Colossenses 1:15), e único Deus (tema primordial do AT). Portanto, toda honra e glória (cp. Apocalipse 4:9, 11, 5:12, 13; 7:12), são devidas a ele para todo o sempre. O amém pronunciado nas sinagogas em assentimento àsdoxologias e bênçãos já havia passado à adoração cristã (veja esp. 1 Coríntios 14:16) e muitas vezes também conclui as doxologias do NT (p.e., Gálatas 1:5; Romanos 16:27).

Com esta doxologia Paulo dá conclusão repentina à digressão. Ele sé afastou, deveras, ficando à considerável distância da incumbência inicial dada a Timóteo: permanecer em Éfeso a fim de opor-se aos falsos mestres (vv. 3-4). Mas, conforme vimos, nada disto deixa de ter propósito. Por trás de cada

ORDEM NO CULTO A DEUS (2.1-7)

 

A Importância da Ordem na Igreja (2.1)

 

Com o começo do segundo capítulo, o apóstolo chega à questão que o levou a escrever a Timóteo — a preocupação pela devida ordem na igreja efésia. A prioridade que Paulo deu a este tema mostra-se na frase de abertura: Admoesto-te, pois, antes de tudo. Há certa adequação que deve caracterizar o culto público a Deus. Lógico que não é formalismo censurável preocupar-se pelos segmentos seqüenciais adequados e próprios a serem observados quando os cristãos se reúnem para cultuar. O apóstolo exorta o tipo de oração que deve fazer parte de todo culto dessa categoria: Admoesto-te... que se façam deprecações ("súplicas", AEC, BAB, CH, NVI, RA),orações, intercessões e ações de graças por todos os homens (1). Não há dever cristão para com nossos semelhan­tes que se compare em importância com o dever de orar por eles. S. D. Gordon ressaltou que o crente não pode fazer algo para ajudar as pessoas se, em primeiro lugar, não orar por elas. Depois de orar, há muitas coisas que ele pode fazer; mas até que ore, não há nada a fazer, exceto orar.

Não há, ao que parece, significação particular ligada à ordem na qual se apresentam os termos deprecações, orações, intercessões e ações de graças. Destes quatro, o segundo termo é o mais amplo e, de certo modo, inclui os outros três. O que Paulo quer dizer é que todas as formas de oração devem ocupar o lugar central no culto de adoração na igreja. Também não deve ser discriminado em seu campo de ação, pois inclui todos os homens. A oferta que Deus faz da misericórdia em Cristo estende-se a todos igualmente. Não há uns poucos favorecidos que fazem parte exclusiva dos eleitos de Deus. Ele deseja e fez provisão para a salvação de todo aquele que se render à misericórdia salvadora revelada em Cristo. Temos de orar em espírito de intercessão, para que a extensão da operação redentora do evangelho seja tão ampla quanto possível.

 

Aqueles por quem Devemos Orar (2.2-4)

 

Agora o apóstolo fica mais explícito, declarando expressamente que a oração deve feita pelos reis e por todos os que estão em eminência (2). Temos de entender que a alusão é aos governantes civis do mundo antigo em todos os níveis de autoridade. Quando lembramos que, na ocasião em que Paulo escreveu, os governantes, em sua maioria, eram inimigos da fé cristã, e que em uma década o apóstolo perderia a vida sob as ordens deles, esta exortação à oração torna-se exemplo esplêndido de magnanimidade cristã. A primeira razão para tal oração é que os reis e todos que estão em eminência ("posição de autoridade", BAB; cf. ACF, BJ, BV, CH, NTLH, NVI, RA) também são ho­mens — homens por quem Cristo morreu — e que estão dentro do campo de ação do evangelho. Mas a segunda razão para tal oração é indicada vagamente pelas palavras: Para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honesti­dade (2). Orar fervorosamente por quem estava em posição de autoridade colocava nas mãos de Deus o meio para afastar o mal e propósitos mal orientados dessas pessoas que tinham autoridade posicionai para prejudicar a igreja de Cristo.

É realmente difícil sobreestimar o poder da oração conjunta da igreja. E. K. Simpson está correto quando, fazendo um comentário sobre este versículo, escreveu: "Não há cris­tão ensinado pela Bíblia que conteste a eficácia na oração crédula pertinente aos eventos públicos e seus supervisores. Mais coisas são realizadas por esse meio do que este mundo supõe. A súplica de intercessores fiéis pelo bem-estar público põe restrições invisíveis nos poderes das trevas e em suas ferramentas e dá reforço a governantes honestos pro­veniente do Governador entre as nações (SI 22.28)".

Os versículos 3 e 4 deixam claro que a primeira destas duas razões para semelhante oração é de importância capital: Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. O texto declara francamente o desejo universal de Deus para o gênero huma­no — desejo que só pode ser frustrado pela resistência livre do homem ao propósito salva­dor de Deus. O apóstolo ousou crer que o Espírito fiel de Deus estava em ação no coração e vida de todos os homens e que poderia salvar as pessoas que estivessem em alta posição de maneira tão plena e imediata quanto aspessoas de posição social mais baixa. Para sua total satisfação, este fato já se comprovara durante o primeiro aprisionamento em Roma. Em Filipenses 1.13, escrevendo da prisão romana, ele fala: "As minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana e por todos os demais lugares". Pelo que parece, seu testemunho não fora em vão, pois em Filipenses 4.22, nas saudações finais, ele afirma: "Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César". De forma nenhuma era inútil, então, orar pelos reis e outras pessoas em posição de autoridade.

 

Dando Prioridade às Coisas Prioritárias (2.4)

 

Notemos no versículo 4 a ordem em que aparecem as duas caracterizações da graça salvadora de Deus. A primeira é se salvem, e a segunda venham ao conhecimento da verdade. Há intérpretes que entendem que estas duas expressões têm o lugar correto na ordem inversa. Mas a apresentação de Paulo do assunto se ajusta perfeitamente ao ensino do Senhor Jesus, quando, em João 7.17, ele disse: "Quem quiser fazer a vontade de Deus conhecerá se o meu ensino vem de Deus ou se falo com a minha própria autori­dade" (RSV; cf. NTLH). Quando se trata de conhecer as coisas de Deus, a obediência sempre precede mais conhecimento.

 

Divagação Magnífica (2.5,6)

 

E comum os comentaristas ressaltarem que os versículos 3 a 7 formam uma divaga­ção do tema central deste segundo capítulo. O assunto principal é o lugar da oração no culto cristão; depois de interromper este assunto com a divagação mencionada, Paulo volta, no versículo 8, ao tema central. Mas se esta é uma divagação, que magnífica é! Esta exploração de panoramas convidativos é uma das características mais interessan­tes do estilo literário do apóstolo. Outros exemplos de divagação são a esplêndida revela­ção sobre a igreja registrada em Efésios 5.25-27, e a famosa passagem do "kenose" em Filipenses 2.6-11.

A divagação sob análise é uma perfeita pedra preciosa de discernimento cristológico: Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem (5). Nunca conseguiremos exaurir a riqueza de significação que percorre estas palavras. A forma literária nos diz que o trecho faz parte de uma declaração de credo, ou de uma fórmula batismal ou de um hino da igreja primitiva. A ênfase em um só Deus é parte da herança que o cristianismo recebeu do judaísmo, ênfase que nosso Senhor rea­firma muitas vezes. A revelação neotestamentária de pluralidade no ser de Deus de modo algum degrada o entendimento fundamental da unidade divina.

A posição de Cristo como um só mediador entre Deus e os homens não é decla­rada desta forma em nenhuma outra passagem dos escritos paulinos. O texto de Gálatas 3.19,20 dá indícios desta idéia, embora ali não esteja desenvolvido como ofício de Cristo. E lógico que a Epístola aos Hebreus trata freqüentemente deste conceito. Identificamos idéia paralela em 1 João 2.1, que associa Cristo como nosso "Advogado para com o Pai". Aqui, na passagem sob estudo, este ministério exclusivo de nosso Senhor é enunciado sem rodeios e de forma clara. Em um sermonário de G. Campbell Morgan, há um ser­mão sobre o tema: "O Clamor por um Árbitro". O primeiro dos dois textos que ele empre­ga é Jó 9.33: "Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos". O segundo texto é esta passagem que estudamos: Há... um só mediador entre Deus e os ho­mens, Jesus Cristo, homem. Ser árbitro é ser juiz, alguém que aprecia ou julga algo, intermediário, alguém que faz intercessão a nosso favor; em uma palavra: mediador. Há muitas relações na vida em que os serviços de um mediador tornam-se importantís­simos. Que alegria saber que na relação que nos é mais importante na vida — a relação entre Deus e nós — temos tão sublime Mediador!

 

A Humanidade Essencial de Cristo (2.6)

 

O apóstolo acentua um fator que é supremamente relevante nesta relação mediado­ra que Cristo exerce para o seu povo — o fator da humanidade essencial de Cristo Jesus nosso Senhor. Desde toda a eternidade, ele é um com o Pai, mas quando graciosamente se encarnou ele também se tornou um com nossa raça pecadora. Nunca conseguiremos definir adequadamente o mistério de sua personalidade única. Mas o fato é que a Pala­vra de Deus é clara em ensinar o conceito do Deus-homem. Nossa tendência é lembrar sua deidade e esquecer ou não perceber com clareza sua humanidade essencial. Precisa­mos recuperar urgentemente a compreensão do fato de que Jesus era o Filho do Homem da mesma maneira que ele realmente era o Filho de Deus. Ele é "Jesus Cristo, homem" (5). O versículo 6 acrescenta uma verdade importante: esse ofício de mediador, o qual ele exerce atualmente, origina-se do fato de que ele se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. Há continuidade óbvia entre sua função como nosso advogado no alto e sua entrega voluntária na cruz; juntas (função e entrega) formam uma empresa unida de redenção dedicada à tarefa de "[trazer] muitos filhos à glória" (Hb 2.10). D. M. Baillie declara com grande poder de convicção a demonstração da misericórdia de Deus revelada neste evento-Cristo, quando escreve: "É tudo de Deus': o desejo de perdoar e reconciliar, a designação do método, a provisão da vítima como se fosse do próprio seio a custo infinito. Tudo acontece dentro da própria vida do próprio Deus: pois, se tomarmos a cristologia do Novo Testamento em seu ponto mais elevado, só nos resta dizer que 'Deus estava em Cristo' naquele grande sacrifício expiatório, e que até o sacerdote e a vítima eram nada mais que Deus". Para servir de testemunho a seu tempo significa "testemunho que se deve prestar em tempos oportunos" (BAB, RA).

 

A Comissão de Paulo (2.7)

 

O apóstolo afirma que ele foi constituído pregador e apóstolo para proclamar essa mensagem. A palavra grega traduzida porpregador (keryx) significa, segundo de­fine C. H. Dodd, "pregoeiro público, leiloeiro, arauto, anunciador ou alguém que ergue a voz e chama a atenção pública para algo definido que ele tem a anunciar". Este era o significado original de pregar. O outro termo pelo qual Paulo se designa é apóstolo, que quer dizer "mensageiro", mas com autoridade para agir em determinada questão em nome da pessoa que o envia. Paulo une estes dois termos, como descrição adicional do trabalho ao qual ele se sentia chamado por Deus, qual seja, doutor("mestre", AEC, BAB, NTLH, NVI, RA) dos gentios, na fé e na verdade. É desta forma que Phillips interpreta o significado: "Ensinar [...] o mundo gentio a crer e conhecer a verdade" (CH; cf. BV). A afirmação parentética — digo a verdade em Cristo, não minto — é tipica­mente paulina. Encontramo-la em Romanos 9.1,2 Coríntios 11.31 e novamente em Gálatas 1.20. Ninguém jamais viveu com o mais profundo senso de missão que Paulo.

 

Bibliografia J. Gould

 

DOração em Favor de Todos (2:1-7)

 

Paulo recomenda oração universal com base no fato de que Deus a deseja, pois ele quer a salvação de todos os homens, e não apenas de um grupo selecionado. Ele sustenta sua admoestação, (1) citando um hino que reconhece apenas um só Deus, o Deus detodos, e um só Mediador, o mediador de todos; e (2) asseverando a sua própria comissão apostólica. O seu pensamento está logi­camente ligado com o seu argumento de 1:12-17.

Antes de tudo, fórmula clássica da correspondência privada, mostra que Paulo estava pronto para dar início ao corpo principal de sua carta. Ele passa a desenvolver a admoestação a que aludira em 1:3,5,18. Súplicas, orações, intercessões e ações de graças não representam quatro espécies de orações claramente distintas. A palavra traduzida como orações tem o significado mais compreen­sível, e é o termo mais comum usado para designar a oração no pensamento primitivo. As palavras súplicas e intercessões significam quase amesma coisa. Contudo, a primeira aparece freqüente­mente nas cartas de Paulo, enquanto a última aparece apenas aqui e em 4:5. Nos papiros legais, intercessões (ou orações) aparece freqüentemente em declarações feitas a um superior, v.g., o rei. Nas obras cristãs, excetuando-se o Novo Testamento, aparece exclusiva­mente em documentos romanos: I Cle­mente, Hermas, II Clemente e a Apolo­gia de Justino. Ações de graças pode referir-se a eucaristias, como em I Coríntios 14:16 (Spicq), mas isso não pode ser determinado com certeza.

O foco da admoestação para orar está na universalidade (Spicq). As intercessões devem ser feitas por todos os ho­mens. Esta admoestação aplica correta­mente as implicações de crença em um só Deus, que o particularismo do judaísmo negava na prática.

A universalidade da oração se aplica aos reis e a todos os que exercem autori­dade. A palavra traduzida como reis era usada, no Oriente, para designar o impe­rador. Pelo fato de ser um plural, F. C. Baur e outros têm asseverado que estas cartas foram compostas depois de 136 d.C, quando havia dois imperadores. Não obstante, neste contexto, a palavra tem uma aplicação mais genérica, inclu­indo o imperador e vários monarcas lo­cais, que serviam como seus suseranos. A oração pelo imperador contrastava com a adoração a ele. Este costume expressa a fidelidade cristã às institui­ções estabelecidas e a crença de que o poder de um governo ordeiro vem de Deus (cf. Rm 13:1 e ss.; Jo 19:11; I Pe 2:13 e ss.; Tertuliano, Apol. 40). Desta forma, a oração incluiria todos os que exercem autoridade: senadores, governadores provinciais e uma multidão de oficiais subalternos.

O objetivo da oração seria não a con­versão do imperador, mas o bem-estar do Estado: para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Paulo tem em mente "não apenas o perigo da perseguição, mas tam­bém o de ataques de poderes demonía­cos", como menciona em II Tessalonicenses 2:3-12 (Barrett). De acordo com a antiga psicologia, os seres demoníacos controlavam as esferas ao redor da terra, e descarregavam a sua malignidade, causando caos na vida humana. No entanto, segundo o ponto de vista cristão, o homem não precisa desesperar, por­que, na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus venceu estas forças hostis, e equipou os homens para subjugá-las. A oração pode colocar à disposição do cren­te a ajuda divina.

O desejo de uma vida que seja tran­qüila e sossegada em tudo é o paralelo greco-romano do desejo hebraico de uma vida "em santidade e justiça" (Lc 1:75). A palavra traduzida como piedade (eusebeia) não aparece nas outras cartas de Paulo, e a palavra traduzida como honestidade (semnotes) aparece apenas em formas cognatas. Contudo, a mudan­ça pode ser devida a (1) um secretário, talvez Lucas (cf. At. 3:12; 10:2,7) ou (2) à influência da permanência de Paulo em Roma.

A universalidade em questão de oração é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, isto é, agrada a Deus. O fato é que Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhe­cimento da verdade. Os estudiosos têm tentado, de várias maneiras, obviar o universalismo desta passagem. João Crisóstomo e muitos que vieram depois dele têm feito distinção entre as vonta­desantecedentes e principal de Deus. Por sua vontade antecedente, Deus deseja a salvação de todos, mas por sua vontade principal ou absoluta, ele per­mite que alguns se percam de acordo com o seu livre-arbítrio. Na verdade, Paulo não considera este problema; ele simplesmente se opunha à estreiteza dos judaístas (Kelly). O desejo de Deus, da salvação de todas as pessoas, refuta a intolerância em todas as suas formas. Cheguem ao pleno conhecimento da ver­dade não aparece em nenhuma outra passagem das cartas de Paulo, exceto nas Pastorais (II Tm 2:25; 3:7; Tt 1:1). Significa essencialmente "converter-se ao cristianismo" (Dibelius-Conzelmann) e tem sua origem no judaísmo helênico (cf. Hb 10:26; II Jo 1). Todavia, epignõsis (conhecimento) é palavra favorita de Paulo.

Paulo reforça o seu argumento, citan­do um extrato de um antigo hino cristão ou peça didática. Easton chamou-o de "uma versãocristã do sh'ma hebraico."

O fato de que há um só Deus corres­ponde à recomendação de orar por todas as pessoas. Ao citar este hino, Paulo diz que os judeus não seguiam corretamente a lógica do seu monoteísmo.

O universalismo cristão é mais firme­mente sustentado pelo fato de que há um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. A idéia de Cristo como mediador não aparece nas outras obras de Paulo, mas o pensamento per­tence ao fragmento do hino, e não ao próprio Paulo. No centro dele está o conceito de aliança. Moisés era o me­diador da antiga aliança. Cristo é o me­diador da nova. Um íntimo paralelo deste conceito aparece no conceito, apre­sentado por Paulo, da reconciliação efe­tuada por Cristo sobre a cruz (Rm 3:24; II Co 5:19; Spicq). O seu desen­volvimento mais completo ocorre na carta anônima aos Hebreus. Pode-se apenas especular a respeito de suas im­plicações neste fragmento de hino.

A ênfase da citação feita por Paulo está em a natureza do papel mediador de Cristo como um homem que se deu a si mesmo em resgate por todos. Este enten­dimento baseia-se nas palavras de Jesus, encontradas também em Marcos 10:45 e Mateus 20:28. O estilo foi adaptado às qualidades poéticas do hino. A pala­vra hebraica "muitos", constante nos Evangelhos, foi mudada, dando lugar ao seu significado apropriado: todos. A idéia-chave é que Cristo, como homem, deu a sua vida em troca da vida de todos os homens. Este foi o preço pago pelo pecado e suas conseqüências. A figura de um resgate é sugerida pela compra da liberdade para escravos ou prisioneiros; não deve ser forçada literalmente. Teo­rias penais substitucionárias posteriores representam um desenvolvimento tosco da imagem simples que o hino dá a entender.

Os eruditos têm discutido se para servir de testemunho a seu tempo per­tence ao fragmento do hino (Easton) ou constitui  uma  adição  paulina  (Kelly, Dibelius-Conzelmann). O estilo é, pos­sivelmente, de Paulo (cf. Rm 12:1 e s.; II Ts 1:5), mas a sua concisão (lit.: "o testemunho em devido tempo") pode ser devida à abreviação poética (Easton). Duas interpretações são possíveis: (1) Se interpretado em contraposição com a proposição imediatamente anterior, o testemunho seria sinônimo de evangelho, kerygma, ou ensino da igreja primitiva. Contudo, (2) se visto em contraposição a todo o pensamento dos versos 4 a 6, pode ter a conotação de "prova" da vontade de Deus de salvar todas as pessoas (Spicq). A seu tempo é uma frase técnica para Paulo (Rm 5:6; Gl 4:4; I Tm 6:15; Tt 1:3), que significa "em uma época fixada por Deus para cumprir suas pro­messas", isto é, na vinda de Jesus.

A alusão ao testemunho ou ao evan­gelho evoca, em Paulo, outra afirmação do seu apostolado, mais forte do que antes. Para o que (esse testemunho)... eu fui constituído pregador e apóstolo, mestre dos gentios na fé e na verdade. Somente aqui e em II Timóteo1:11 Paulo dá, a si mesmo, o nome de prega­dor e mestre. Contudo, ele se refere freqüentemente às suas pregações (v.g.: Rm 10:8; I Co1:23) e ensino (I Co 4:17; Ef 4:21; II Ts 2:15), particular­mente no contexto de defender o seu apostolado. A introdução do termo pre­gador (kérux), neste ponto, pode ser devida ao seu uso comum em Roma durante a sua estada. Seja o que for que isso signifique, a asseveração de que ele era mestre dos gentios não deixa dúvidas quanto à sua nomeação divina. Cristo o nomeara para um ministério universal.

No grego, a expressão na fé e na verda­de tem duas interpretações possíveis. Po­de significar (1) que Paulo ensinava fé e verdade, ou (2) que ele ensinava fiel e verdadeiramente. A maioria dos comen­taristas preferem a primeira acepção.

Dentro desta forte afirmação de apostolado, Paulo inseriu uma vigorosa de­fesa parentética de sua honestidade em fazer esta declaração. Alguns eruditos têm achado que essa inserção é artificial (assim pensam Dibelius-Conzelmann). Conquanto declarações semelhantes tenham sido adequadas em outras cartas (Rm 9:1; II Co 11:31; Gl 1:20), argumentam eles, esta é supérflua em uma carta ao seu companheiro de con­fiança, Timóteo. Contra este ponto de vista precisa-se lembrar que Timóteo iria, certamente, ler a carta em voz alta para a congregação efésia (Jeremias). Se assim é, como Scott observou, "quer emprestada, quer não, a forte afirmação de veracidade está no seu lugar devido". Esta veemente declaração ressalta as reivindicações de Paulo para a missão gentílica, contra o exclusivismo dos judaístas, que "pode ser que tenham sido críticos da evangelização de não-judeus" (Kelly).

 

Bibliografia Hinson

O CARÁTER DOS BISPOS (3.1-7)

 

O Cargo de Bispo (3.1)

 

Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (1). À primeira vista, a observação com a qual apóstolo inicia esta seção da carta — esta é uma palavra fiel — é igual à declaração dita anteriormente em 1.15: "Esta é uma palavra fiel". Mas a igualdade é meramente aparente. A primeira observação deu início a um ensino muito importante sobre a obra redentora de Cristo. Mas aqui não há tal declaração solene de fé. Ainda que os estudiosos não tenham chegado a um acordo quanto a este ponto, é provável que esta tradução seja a correta: "Há um dito popular que diz: 'Aspirar à liderança é ambição honrosa'" (NEB; cf. AEC, BJ, BV).

A palavra episcopado é um tanto enganosa para os leitores de hoje, porque para nós o cargo de epíscopo ou bispo tem associações eclesiásticas. Desejar este cargo seria buscar promoção no ministério cristão. Estamos devidamente certos em reputar que tal ambição é indigna da pessoa cuja vida é dedicada ao serviço de Cristo. Ressal­tamos o termo "bispo", tradução da palavra gregaepiskopos, veio origi­nalmente da organização das sociedades seculares e tem o significado básico de "inspetor" ou "líder". O apóstolo está dizendo que é uma ambição digna a pessoa dese­jar um lugar de serviço responsável entre o povo de Deus. A declaração que Paulo cita era um provérbio bem conhecido na época, o qual ele usava como introdução do assun­to que desejava tratar.

 

Qualificações do Bispo (3.2)

 

Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigi­lante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. No total, há 15 qualifica­ções estipuladas pelo apóstolo, sete das quais ocorrem no versículo 2. É importante que a primeiríssima destas seja a irrepreensibilidade. O significado da palavra é "acima de repreensão", "de reputação irrepreensível" (cf. CH), "de caráter impecável", "que nin­guém possa culpar de nada" (NTLH). Por qualquer método que avaliemos, esta é a virtu­de mais inclusiva que aparece na lista. Significa que o líder na igreja de Cristo não pode ter defeito óbvio de caráter e deve ser pessoa de reputação imaculada. Dificilmente se esperaria que não tivesse defeito, mas que fosse sem culpa. É apropriado que o ministro seja julgado por um padrão mais rígido que os membros leigos da igreja. Os leigos podem ser perdoados por defeitos e falhas que seriam totalmente fatais a um ministro. Há cer­tas coisas que um Deus misericordioso perdoa em um homem, mas que a igreja não perdoa no ministério deste. A irrepreensibilidade do candidato é requisito no qual deve­mos ser insistentes hoje em dia, como o foi Paulo no século I.

O líder da igreja deve ser exemplar especialmente em assuntos relativos a sexo. Este é o destaque da segunda estipulação do apóstolo: Marido de uma mulher (2). Trata-se de precaução contra a poligamia, que gerava um problema sério para a igreja cujos membros eram ganhos para Cristo vindos de um paganismo que tolerava aberta­mente casamentos plurais. Em todo quesito que a igreja com seus altos padrões éticos relativos a casamento confrontar o paganismo de nossos dias, em regiões incivilizadas ou não, a insistência cristã na pureza deve ser enunciada de forma clara e seguida com todo o rigor.

Mas temos de perguntar: A intenção de Paulo era desaprovar o segundo casamento? Alguns dos manuscritos antigos requerem a tradução "casado apenas uma vez" (confor­me nota de rodapé na NEB). "Sobre este assunto, como em muitos outros", comenta Kelly, "a atitude que vigorava na antigüidade difere notadamente da que prevalece em grande parte dos círculos de hoje. Existem evidências abundantes provenientes da lite­ratura e inscrições funerárias, tanto gentias quanto judaicas, que permanecer solteiro depois da morte do cônjuge ou depois do divórcio era considerado meritório, ao passo que casar-se outra vez era visto como sinal de satisfação excessiva dos próprios desejos". É óbvio que em alguns segmentos da igreja primitiva esta era a opinião prevalente, che­gando ao extremo último da ordem de um ministério celibatário.

Mas esta não é a interpretação do ensino de Paulo que prevalece hoje. É bem conhecida sua própria preferência da vida solteira em comparação ao estado casado; e há passagens nos seus escritos em que ele recomenda este estado aos outros (e.g., 1 Co 7.39,40). Talvez o melhor resumo da intenção do apóstolo para os nossos dias seja a declaração de E. F. Scott: "O bispo tem de dar exemplo de moralidade rígida".

As próximas três especificações — vigilante, sóbrio, honesto (2) — têm relação próxima entre si e descrevem a vida cristã ordeira. Moffatt traduz estas qualidades pe­las palavras: "temperado [NVI; cf. RA], mestre de si, calmo". A temperança neste contex­to transmite a idéia de autocontrole (cf. CH) ou autodisciplina.

O próximo quesito qualificador é apresentado pelo apóstolo na palavra descritiva hospitaleiro (2). Esta mesma característica é mais detalhada em Tito 1.8: "Dado à hospitalidade, amigo do bem". Nesses primeiros dias da igreja, esta era uma virtude muitoimportante. Havia poucos albergues no mundo do século I, e os apóstolos e evangelistas cristãos que eram enviados de lugar em lugar ficavam dependentes da hospitalidade de cristãos que tivessem um "quarto de profeta", mantido com a finalidade de atender essas necessidades. Em nossos dias de hotéis, expressamos nossa hospitalidade cristã de modo diferente. Mas quando a igreja era jovem, essa hospitalidade era extremamente primor­dial. O dever e privilégio de ministrá-la recaíam naturalmente sobre o bispo ou pastor. O espírito essencial do ato é tão importante hoje como era outrora.

Igualmente essencial e até mais importante é a sétima qualidade que Paulo menci­ona: Apto para ensinar (2). Pelo visto, nem todos os pastores eram empregados no ministério de ensino. É o que mostra 5.17: "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina". Mas a aptidão para ensinar era rendimento certo para o ministro cristão. Era importante então como é hoje. Sempre haverá indivíduos que possuem maior capa­cidade nesta ou naquela área que outros, mas certa habilidade para ensinar é de extre­ma necessidade ao ministério completo e frutífero.

 

Homens de Sobriedade (3.3)

 

Este versículo contém mais seis especificações que devem caracterizar o líder cristão: Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento (3). Todos os quesitos, exceto um, são negativos, mas todos são importantes. O primeiro nos soa um tanto quanto estranho, sobretudo quando seu significado preciso é entendido com clareza. Temos estas opções de tradução: "Não deve ser indivíduo dado a beber" (NEB); "não pode ser chegado ao vinho", (NTLH); "não deve ser apegado ao vinho" (NVI; cf. BAB); "não deve ter o vício da bebida" (BV); ou pelas palavras diretas: "Não bêbedo" (RSV). O ponto que confunde o leitor da atualidade é que tal estipulação fosse necessária. No pensamento da maioria dos evan­gélicos hoje em dia, a abstinência total de bebidas alcoólicas é elementar na vida cristã. E não é difícil perceber que o julgamento moral que determina a abstinência total para o cristão — leigo ou ministro — é a compreensão básica da ética cristã. Mas esta idéia, como o julgamento moral das trevas, não fora discernida claramente no século I. Temos de manter isso em mente para entendermos as alusões do apóstolo ao uso do vinho neste e em outros textos. Kelly observa que "hoje em dia, as pessoas por vezes se surpre­endem que Paulo achasse necessário fazer tal determinação, mas o perigo era real na sociedade desinibida em que se situavam as congregações efésia e cretense".

Não espancador (3) é expressão que exige interpretação neste contexto. Signifi­ca, literalmente, "não doador de socos". Kelly traduziu por "não dado à violência" (cf. BAB, BV, CH, NVI, RA). O homem de Deus deve ser caracterizado por amor e comedimento cristão.

Não há ambigüidade ligada à próxima estipulação de Paulo: Não cobiçoso de tor­pe ganância (3). Esta é advertência contra o amor do dinheiro que o apóstolo, mais adiante nesta mesma epístola (6.10), declara ser "a raiz de toda espécie de males". Tal proibição tinha relevância imediata, pois fazia parte da responsabilidade do pastor cui­dar dos bens e capitais da igreja. Esta seria fonte constante de tentação para o avarento. Somente aquele que desse toda prova de não ter espírito de cobiça pode ser separado com segurança para a obra do ministério.

Claro que é perfeitamente possível que ministros e leigos sejam enganados pelo que nosso Senhor chamou de "a sedução das riquezas" (Mt 13.22). A sutileza desta sedução é que a pessoa não precisa possuir riquezas para ser enganada por elas. Desejá-las arden­temente, permitir-se adotar atitudes calculistas na esperança de obter riquezas, ficar indevidamente interessado por salários e lucros deste mundo não podem deixar de em­pobrecer e, no final das contas, destruir o valor do próprio ministério. Tudo isso está implícito no avisopaulino do desejo controlador por dinheiro.

A única virtude positiva no versículo 3 é moderado, ("tranqüilo", CH; "cordato", RA). Isto significa não tanto a capacidade de manter a calma sob controle quanto a capa­cidade de resistir sob pressão, com infalível espírito de bondade e paciência. Paulo exalta esta virtude em 1 Coríntios 13.4, quando nos assegura que o amor é sofredor e benigno — benigno mesmo no fim do sofrimento. As especificações adicionais — não contencioso, não avarento (5) — são repetições para enfatizar os quesitos já estipulados.

 

Bom Pai (3.4,5)

 

Este é ponto da mais grave importância: Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (4). Como ressalta E. K. Simpson: "O ideal do celibato sacerdotal é tão totalmente estranho ao modelo primiti­vo, que se toma por certo que o candidato ao ministério já seja casado de idade madura. A disciplina paterna relaxada o desqualifica imediatamente para a posição de lideran­ça na igreja". Esta é a versão que Phillips fez do versículo 4: "Deve ter a devida au­toridade em sua própria casa e ser capaz de controlar e exigir o respeito de seus filhos" (CH). Temos de admitir que, entre todos os padrões, este é um dos mais difíceis que Paulo estabeleceu. Mas como é importante! Muitos ministros têm tido sua utilidade limitada ou mesmo destruída por não exercerem a disciplina parental. É fácil ficarmos tão envolvidos em salvar os filhos dos outros que acabamos deixando os nossos própri­os filhos escapulir de nosso controle. Chega o momento em que os filhos crescem e têm de assumir a direção da própria vida. Nessa hora, ninguém estará com eles ao toma­rem decisões que julgarem acertadas. Mas a disciplina firme, cheia de amor e regada com oração durante os anos formativos da vida de nossas crianças é seguramente o poderoso fator determinante que possuirão quando tiverem de decidir sozinho o curso que seguirão na vida. Há, portanto, força convincente no fato de Paulo insistir no dever que o ministro tem de controlar a própria casa. E ninguém pode contradizer a verdade básica que está entre parênteses no versículo 5: Porque, se alguém não sabe gover­nar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?

FONTE escoladominical-ensinar.blogspot.com.br