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a divindade de Jesus evangelho de João cap N.1
a divindade de Jesus evangelho de João cap N.1

Prólogo: o Logos Jo 1.1-18

 

Alford (in loc.) comenta sobre esse prólogo: «Prólogo: onde está contida a substância e o tema do evangelho inteiro (de João). A palavra eterna de Deus, originária de toda existência, vida e luz, tornou-se carne, habitou entre nós, foi testemunhada por João, rejeitada pelo seu próprio povo, embora tivesse sido acolhida por alguns, que receberam o poder de serem feitos filhos de Deus. Ele foi a perfeição e o término da revelação que Deus quis fazer de si mesmo; revelação essa parcialmente feita na lei, mas plenamente declarada na pessoa de Jesus Cristo».

 

1.1: No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 

«No princípio era o Verbo...» Temos aqui uma óbvia referência às palavras iniciais do V.T., que descrevem a criação original. Essa alusão ao livro de Gênesis, que pertence ao V.T., se torna ainda mais patente quando nos lembramos que qualquer judeu podia falar constantemente do livro de Gênesis, e citá-lo, como «be reshith», isto é, como No principio... Ã base dessa observação, alguns intérpretes têm insistido que a frase empregada pelo apóstolo João é meramente uma referência à criação original. Se assim fosse, essa frase ensinaria meramente a preexistência do Logos, mas não, necessariamente, a sua eternidade. Devemos observar, entretanto, que este versículo não diz «No princípio o Logos se tornou, foi criado», etc., e, sim, que ele já era. Assim sendo, ainda que essa frase nada mais seja do que uma referência ao ponto, no tempo, em que ocorreu a criação operada por Deus, já encontramos ali o «Logos» em existência, e isso claramente é anterior ao ponto de tempo que assinalou o começo da criação. Naturalmente que isso não requer que o «Logos» seja eterno, mas tão-somente que já existia antes da criação, conforme a conhecemos. Porém, qualquer indivíduo que tenha estudado o ensino sobre o «Logos», a começar por Heráclito, através do estoicismo, no neoplatonismo, especialmente conforme ele é expresso porFilo, o filósofo judeu neoplatônico (viveu até 50 D.C.), poderá afirmar que crer que o Logos poderia ter tido um começo, ou que poderia fazer parte da criação, seja como for, é algo totalmente contrário a qualquer noção que já foi proferida no mundo antigo acerca da natureza do «Logos». Um «Logos» que tivesse tido começo não é o «Logos» da antigüidade, e, sim, alguma estranha criação de mentes eivadas de preconceitos, as quais criam um Cristo segundo a imagem de suas próprias especulações, a fim de adaptá-lo a um sistema teológico adredemente erigido. Não se pode encontrar, em parte alguma do pensamento antigo, uma única linha que recomende a teoria de um «Logos» que não seja eterno. Assim sendo, a expressão «...no principio...», embora faça alusão à criação original, é utilizada no evangelho de João como equivalente à «eternidade passada», não havendo nisso qualquer ideia de estabelecer um ponto distinto, no tempo, quando o «Logos» teria tido começo. Desde a eternidade passada que o «Logos» sempre existiu.

 A palavra que é usada no original grego, arche («princípio»), era usada com o propósito de fazer referência à geração primária ou ao surgimento de todas as coisas e ainda que esse vocábulo tenha sido usado desta maneira aqui, não há indicação alguma de que isso queira dizer que o «Logos» teve começo nessa ocasião; pelo contrário, ele é visto como já em existência nessa ocasião.

 Platão se utilizou dessa palavra para indicar a força geradora, a força originadora ou aquele que «começa», que gera. Por essa mesma razão é que Jesus Cristo, na passagem de Ap 3:14, é referido como o «princípio da criação de Deus», palavras essas que significam que Cristo é o agente primário, o «iniciador» da criação, a força ou energia criadora, e jamais que ele foi a primeira criatura a ser criada. Esse uso também aparece no evangelho apócrifo de Nicodemos, onde Satanás é intitulado de «arche» (começo ou iniciador) dainiqüidade. Isso significa, claramente, que ele é o personagem que trouxe o mal à existência, o originador do mal.

 Muitas interpretações têm sido atribuídas à palavra arche, neste texto; e abaixo damos alguns exemplos das mesmas:

 1. O princípio seria Deus Pai, pelo que o Verbo teria estado eternamente nele. (Cirilo de Alexandria).

2. Os gnósticos valentinianos (de conformidade com o que diz Irineu 1.8,5) interpretavam-na como uma hipóstase divina distinta, entre o Pai e o «Logos».

3. Orígenes pensava que se trata de sabedoria divina, e que essa sabedoria é Cristo.

4. Teodoro de Mopsuéstia e outros julgavam tratar-se da eternidade.

5. Os socínios (e também alguns unitários modernos), imaginavam tratar-se do evangelho.

 EMBORA haja diversas maneiras de alguém chegar à mesma conclusão, isto é, mediante diferentes interpretações do vocábulo arche,contudo, a maioria dos intérpretes sempre chegam à mesma conclusão—aqui é ensinada a eternidade do Verbo de Deus. E nenhuma outra interpretação é possível quando nos lembramos da antiga noção acerca da natureza do «Logos». Qualquer outra interpretação seria um escárnio de séculos de filosofia especulativa, a qual desenvolveu a doutrina do «Logos», e que o autor deste evangelho descobriu ser tão apropriado como veículo de seus esforços ao ensinar algo sobre a natureza do Cristo eterno.

 «...João eleva essa frase, de sua referência a um ponto no tempo—o começo da criação—para o tempo de preexistência absoluta, antes de qualquer ato de criação, o que não é mencionado senão já no terceiro versículo do prólogo. Esse princípio não teve começo (comparar o vs. 3 com Jo 17:5; I Jo 1:1; Ef 1:4; Pv 8:23 e Sl 40:2). Essa elevação do conceito, entretanto, aparece não tanto em arche (princípio), que simplesmente abre espaço para o mesmo, mas aparece principalmente na palavra 'ein' (era), que denota existência absoluta. (Comparar o vocábulo eimi—eu sou—em Jo 7:58). Isso ao invés de 'egeneto' (veio à existência, ou começou a ser), verbo esse que é empregado nos versículos terceiro e décimo quarto, e que se refere à criação que veio a existir e ao Verbo («Logos»), quando se tornou carne». (Vincent, in loc).

 «Em Gênesis 1:1 o historiador sagrado começa do princípio e vai descendo, assim mantendo-nos a vereda do tempo. Mas neste caso, João começa no mesmo ponto e vai subindo, conduzindo-nos, dessa maneira, à eternidade que antecedeu o tempo». (Milligan andMoulton).

 «O Logos não estava meramente em existência, porém, no princípio. Mas o 'arche' (princípio), em si mesmo e em suas operações, negro, caótico, é que já havia, e a sua ideia e o seu começo são comprimidos em uma única palavra luminosa, que é a palavra 'Logos'.Portanto, quando se diz que o 'Logos' estava no princípio, já nisso fica expressa a sua existência eterna, e também já fica indicada assim a sua posição eterna na deidade». (Lange, in loc).

 «Por oito vezes, na narrativa da criação (no livro de Gênesis), ocorrem, como se fora o refrão de um hino, as palavras: '...e disse Deus...'.João reúne todas essas declarações de Deus em uma única declaração, viva e dotada de atividade e inteligência, de onde emanam todas as ordens divinas: ele descobre, como base de todas as palavras proferidas, a Palavra que falava». (Godet, in :oc).

 «...era o Verbo...» Aqui temos a doutrina do Logos.

 a. HeráclitoNossos indícios mais antigos sobre a doutrina do «Logos» se encontram nos escritos de Heráclito (600 A.C.), embora seja verdade que a própria palavra «Logos» jamais tenha sido empregada por ele. Não obstante, o sentido se faz presente. E embora nos escritos de Homero, e mesmo no grego dos dias de Heráclito, esse termo significasse «discurso», ensino, ou, talvez, «sabedoria», e, assim sendo, não pudesse ser utilizado para expressar a elevada ideia metafísica do «Logos», contudo, já estava delineada a doutrina, embora não expressa por essa palavra. Heráclito se referia ao princípio orientador de seu mundo em fluxo, onde ninguém pode pisar por duas vezes no mesmo rio. Essa lei de transformações produz o caráter ordeiro das transformações que constituem o processo deste mundo; e isso foi chamado por Heráclito de uma espécie de «sabedoria», inerente ao estofo deste mundo. Esta característica, própria das manifestações da natureza inteira, é que controlaria o padrão e a regra de conduta comuns a todas as coisas, característica essa exibida em tudo e em todas as partes, e é sempre uma manifestação da razão. Mas essa lei de transformações jamais sofre alteração. «O sábio é somente um... queira ou não queira ser chamado pelo nome de zeus». (Fragmento 65, conforme dado por Burnet, pág. 65). «E o pensamento mediante o qual todas as coisas são guiadas através de todas as coisas». (Fragment 19, op. cit.).

 b. Os estóicosEsses, que tomaram de empréstimo de Heráclito os seus conceitos metafísicos, expandiram a ideia dessa razão universal e dessa lei de transformação, que por sua vez não sofre alteração, e evidentemente foram os primeiros a empregar o vocábulo Logoscom o intuito de expressar esse princípio. Para eles, o «Logos» seria a razão universal, a força criadora eterna, a energia sustentadora e orientadora, a «alma do mundo». Tudo isso são outras tantas expressões do «Logos»; e dessa forma foi criado um tipo de panteísmo, com emanação e absorção final. O «Logos» seria o mundo (na realidade uma substância material, a saber, o «fogo»). Tratar-se-ia do universo como uma razão mundial ativa e criadora, e as suas manifestações foram chamadas de «logoi spermatikoi», ou seja, «sementes da razão». Todas as formas existentes no mundo, bem como todas as leis que atuam neste mundo, seriam «logoi spermatikoi» ou manifestações do «Logos». Assim, pois, o «Logos» seria a organização de todas as miríades de formas e de leis que emprestam naturezas e nomes aos objetos individuais e inspiram e governam as suas atividades. Por isso mesmo, o «Logos» seria uma força material, cósmica, impessoal, e não uma pessoa. Não obstante, algumas de suas características e atividades são aquelas atribuídas ao «Logos» pessoal, pertencente ao pensamento cristão. Posto que os estóicos ensinavam uma modalidade de panteísmo, o «Logos» é mui naturalmente reputado divino.

 c. No Antigo Testamento: 

1. A Palavra, que corporifica a vontade divina, é personalizada na poesia hebraica. Assim e que atributos divinos lhe são conferidos, visto ser uma continua revelação de Deus. A Palavra é um curador (ver Sl 107:27); um mensageiro (ver Sl 147:15), e o agente dos decretos divinos (ver Is 55:11). (Ver também Sl 32:4; Is 40:8 e Sl 119:105).

2. A Palavra é a sabedoria personificada. (Ver Jó 28:12; Pv 8:9). A sabedoria está oculta dos homens, porquanto Deus é a fonte de toda a sabedoria. Até mesmo a morte, que desvenda tantos segredos, conhece a sabedoria apenas como um rumor. (Ver o vs. 22). Mas Deus possuía a sabedoria desde o começo de seus dias (isto é, desde toda a eternidade—formas poéticas em termos concretos). Não obstante. Deus revela a sua sabedoria, que e a fonte da salvação para os homens. A sabedoria envolve todas as revelações feitas por Deus, sendo esse o grande atributo que combina todos os demais atributos divinos.

 Muitos aceitam esta passagem como trecho messiânico; e, se assim for, verdadeiramente, então terá vinculação especial para com a nossa passagem de João 1:1.

3. A Palavra é o Anjo de Jeová. Algumas vezes esse mensageiro é distinguido do próprio Deus, e de outras vezes é alusão ao próprio Deus. (Ver Gn 16:7-13; 32:24-28; Os 12:4,5; Êx 23:20,21 e Mq 3:1). Pode-se ver, portanto, que o ensinamento central da doutrina da Palavra (ou Logos) se evidencia no V.T., embora ali jamais seja desenvolvido como um conceito filosófico, segundo sucedeu na Grécia.

 d. Uso nos livros apócrifosA doutrina da Palavra também pode ser vista nos livros apócrifos do V.T., os quais, de forma geral, contêm a ideia do próprio V.T., embora com modificações, especialmente na direção do panteísmo. No livro Sabedoria de Salomão (escrito em cerca de 100 A.C.), a sabedoria é encarada como um outro termo que indica a natureza divina inteira. Essa sabedoria não é messiânica, mas procede essencialmente da parte de Deus, sendo uma verdadeira imagem de Deus. Em Sabedoria de Salomão 7:22 se pode ler: «Ela é o hálito do poder de Deus, e uma influência pura que flui da glória do Todo-poderoso; portanto, nada de contaminado pode entrar nela. Pois ela é o resplendor da luz eterna, o espelho sem mácula do poder de Deus, e a imagem de sua benignidade». A semelhança dessa passagem com o trecho de Hb 1:3 (um trecho cristológico central) é notável, e, mui provavelmente, não foi conseguida por puro acidente. (Ver também Sabedoria de Siraque, capítulos primeiro e vigésimo quarto; e Baruque, capítulos terceiro e 4:1-4).

 e. Uso posterior no hebraicoOs comentários e as exposições do V.T., bem como a teologia judaica, personalizavam o conceito da Palavra, e, sob o termo «teofania», foi criado um agente de Deus, como se fora a união de seus atributos, segundo eles são revelados aos homens. Isso era designado como o princípio todo inclusivo do Menra (Palavra ou «Logos») de Jeová. Os eruditos judaicos introduziram essa ideia nos Targuns, ou seja, nas paráfrases inseridas no V.T., escritas no idioma aramaico. Assim sendo, parafrasearam no trecho de Gn 39:21: «A Menra estava com José, na prisão». A «Menra» também teria sido o anjo que destruiu os primogênitos do Egito, e também teria sido a «Menra» quem conduziu Israel, na nuvem de fogo.

 f. Filo de Alexandria (até 50 D.C.). Alexandria foi um centro da erudição judaica, e ali viviam cerca de um milhão de judeus, ao tempo de Filo. A tradução da Septuaginta (do V.T. em hebraico para a língua grega), que foi preparada entre 280 a 150 A.C., foi o começo da união entre a cultura helenista com a cultura hebraica, a conexão entre a filosofia grega e a teologia dos hebreus. Entre os eruditos judeus helenistas, Filo foi o mais importante, e foi um filósofo neoplatônico. A doutrina do «Logos», segundo o estoicismo, com facilidade pôde ser incorporada nas adaptações religiosas da filosofia de Filo, o que passou a ser conhecido pelo título de neoplatonismo. Essa doutrina não diferia, em muitos aspectos, da ideia dos universais de Platão, com especialidade o aspecto que descrevia o demiurgo ou poder intermediário que criou este mundo sensível, de conformidade com o padrão ou desígnio dos universais. Assim também, no neoplatonismo, encontra-se uma mescla de princípios platônicos e da metafísica dos estóicos.

 Algumas vezes Filo se referia à impersonalidade do «Logos», como se fosse a essência imaterial da mente de Deus, de onde teriaprocedido o plano e o padrão da criação. Algumas vezes, entretanto, ele falou pessoalmente sobre o «Logos», como o anjo do Senhor. O Deus de Filo é transcendental, e acerca dele podemos asseverar tão-somente que ele existe, porquanto não possuímos qualquer outro conhecimento detalhado sobre ele, além desse. Segundo esse conceito, Deus não pode contaminar-se com a vil matéria, razão pela qual precisa contar com agentes, tanto na criação como nos seus contactos com o mundo. O princípio de mediação entre Deus e a matéria seria a Razão ou «Logos», de natureza divina e universal, no qual estariam comprimidas todas as ideias das coisas finitas, e que teria criado o mundo material, fazendo essas ideias penetrarem na matéria. Esse «Logos», como é natural e não é difícil de ser percebido, é o mesmo que o «demiurgo» de Platão. Assim sendo, Deus estaria circundado de «poderes», mais ou menos equivalentes aos universais de Platão ou aos anjos dos escritos judaicos; e esses emanam de Deus, emanação essa que também pode ser expressada dentro da estrutura da doutrina do «Logos», porquanto ali também temos certa modalidade de panteísmo, segundo se vê no estoicismo. Filo procurou reconciliar a teologia hebraica com a filosofia grega. E ele não era um Moisés a falar em grego, conforme alguns têm dito; porem, se assemelhava mais com Platão a falar em hebraico. Seja como for, essa filosofia acaba por ser mais grega (mais baseada em Platão e no estoicismo) do que ser puro monoteísmo e metafísica hebraicos. Nos escritos de Filo, o «Logos» é a razão divina e universal, a razão imanente, que contém dentro de si mesma o ideal universal, mas que, ao mesmo tempo, é a palavra expressa, que procede da parte de Deus e que se manifesta neste mundo em tudo quanto aqui existe. Seria a manifestação que Deus faz de si mesmo neste mundo. Por conseguinte, para Filo, o «Logos» seria a súmula total do livre exercício das energias divinas. Dessa maneira, ao revelar a si mesmo, Deus poderia ser chamado de «Logos»; e o «Logos», na qualidade de agente revelador de Deus, poderia ser chamado Deus.

 g. A doutrina do «Logos» no evangelho de JoãoQualquer pessoa que leia os conceitos expostos acima, sobre a natureza do «Logos», poderá perceber, de imediato, que o conceito do evangelho de João sobre o «Logos» realmente tem muitos elementos similares, e que, na realidade, o autor desse evangelho se aproveitou de uma ideia corrente e bem conhecida no mundo helenista, a fim de expressar uma profunda verdade concernente à pessoa do Cristo encarnado. Que essa doutrina não foi criada no vácuo, e que não era inteiramente original a João (embora em seus escritos existam elementos diferentes), é fato que não deve causar surpresa a quem quer que seja, e nem deve esse fator ser considerado como algo que labora contra a veracidade dessa doutrina bíblica. No evangelho de João, o «Logos» aparece como:

 1. Uma força criadora 

2. Uma força controladora 

3. Uma pessoa, que embora deva ser identificada com Deus, não obstante é pessoa distinta de Deus «Pai». E dessa maneira João evita o conceito panteísta, e lança o alicerce para o conceito da Trindade divina.

 4. Uma personalidade, de natureza divina, embora se tivesse encarnado como homem. É, ao mesmo tempo, Deus e homem, isto é, o Deus-homem.

 Orígenes foi o primeiro a declarar tal verdade, ao que se saiba, nessas palavras, ao empregar o vocábulo grego theanthropos. Os teólogos do concilio de Nicéia definiram a natureza de Cristo como «Deus de Deus», «gerado, mas não feito». Irineu ensinava que «Deus se tornou homem, para que o homem pudesse tornar-se Deus», e considerava a encarnação como a base da esperança da imortalidade.Ora, tudo isso refutava a heresia de Ario, que ensinava que «houve tempo em que ele, Cristo, não existia», pelo que também, na heresia ariana, Cristo era visto como parte da criação de Deus.

 O «Logos» era reputado como consubstancial com o Pai, e era negado, na igreja cristã primitiva, que o espírito do «Logos» meramente veio possuir o corpo físico de Jesus de Nazaré, por ocasião de seu batismo, tendo abandonado esse corpo por ocasião de sua morte. Pelo contrário, a verdade é que Jesus foi a encarnação do «Logos» eterno, não havendo nisso o envolvimento, de duas entidades separadas, mas, pelo contrário, uma única pessoa.

 5. Um dos mais conspícuos ensinamentos de João sobre o «Logos» é que ele é quem revela a Deus, servindo de elo de conexão entre Deus e nós, motivo pelo qual lhe convinha compartilhar das naturezas divina e humana.

 6. O Logos veio a fim de aproximar Deus dos homens, e, finalmente, a fim de entregar os homens de volta a Deus, ao ponto em que os homens viessem a participar da essência divina, conforme ela se manifestou no «Logos», na pessoa do Filho, no Cristo, porquanto finalmente todos seremos inteiramente transformados em sua imagem. Essa é a grande mensagem de Paulo, segundo se vê no trecho de Rm 8:29 ou também em Ef 3:19; Cl 2:10; II Co 3:18. Essa é a doutrina mais elevada do sistema cristão bíblico, embora venha sendo virtualmente ignorada pela igreja, que só volta as vistas para questões comparativamente iniciais do perdão dos pecados e da mudança de endereço para o céu. O evangelho, todavia, envolve muito mais do que isso, e a doutrina do «Logos» faz-nos lembrar qual é o ensinamento central do evangelho de Cristo, a saber, a transformação dos crentes segundo a própria imagem de Cristo.

 7. Outrossim, o Logos é a expressão de Deus na criação inteira, e não meramente para o homem, pois ele sempre existiu, desde a eternidade passada, e tem sido a manifestação de Deus para todas as demais criaturas inteligentes. Ele é a Luz de Deus, e, nessa qualidade, ilumina a criação em sua totalidade, incluindo os homens, de maneira bem especial. Portanto, em outras palavras, ele é a mensagem de Deus, a Palavra de Deus.

 «...e o Verbo estava com Deus...» Qualquer judeu, ao ouvir dizer que o «Logos» é eterno, imediatamente identificaria o «Logos» com Deus, porquanto somente Deus é eterno, ao passo que tudo o mais é temporal e dependente dele. Todavia, o evangelho de João assevera que se por um lado o «Logos» é eterno, contudo, é uma pessoa distinta, que goza de comunhão com o Pai.

 Algumas traduções traduzem aqui «...face a face com Deus...», e expressam assim a opinião de que as palavras «...com Deus...» dão a entender comunhão, e não mera presença ou caráter distinto de pessoas. A preposição grega «pros», aqui usada (traduzida aqui por «com», pode assumir o sentido de estar perto ou ao lado. Assim também se lê que estar ausente do corpo é estar presente «com» («pros») o Senhor. (Ver II Co 5:8). O Logos é possuidor de autoconsciência, tendo uma personalidade distinta; mas, ao mesmo tempo, desfruta de comunhão com Deus Pai.

 «Embora existisse eternamente com Deus, o Logos estava em perfeita comunhão com Deus. Pros, com o acusativo, apresenta-nos um plano de igualdade e intimidade, face a face um com o outro. Em I Jo 2:1 encontramos um emprego semelhante de pros: Temos um Paracleto para com o Pai'». (Robertson, in loc).

 Falando sobre a preposição grega «pros», Bruce diz (in loc): «Significa mais do que metá ou pará, e é regularmente empregada para expressar a presença de uma pessoa com outra». E Crisóstomo comentava (in loc): «Não em Deus, mas com Deus, como pessoa com pessoa, eternamente».

 «...e o Verbo era Deus...» Aqui temos a ideia que completa o que tenciona ser uma declaração gradual acerca da natureza do Logos. É conservada a distinção entre pessoas, mas, por outro lado, é preservada a unidade de substância ou de natureza essencial. Além disso, cada declaração explica a anterior. O Verbo é eterno, razão por que deve ser considerado divino. Porém, essa divindade não significa que não possa existir distinção de pessoas, porquanto o «Logos» estava «...com Deus...», e, por isso mesmo, é distinto de Deus Pai. Isso, no entanto, não significa que existam dois deuses, porquanto o «Logos» é Deus, ou seja, idêntico em essência, pelo que também é apenas parte de uma única essência divina.

 Esta última declaração bíblica é a maior das três, e incorpora as outras em si mesma. A ordem das palavras, no grego, nessa declaração, é: «...Deus era o Verbo», e algumas traduções têm seguido essa ordem de palavras; contudo, à base da regra gramatical do grego, que se aplica à sintaxe do artigo definido, sabemos que o Verbo é que é o sujeito, e que Deus é o predicado do Verbo, porquanto o artigo definido acompanha a palavra «Logos», e, dessa maneira, identifica-a como o sujeito da frase. E a ausência do artigo definido, antes do vocábulo «Deus», não nos dá licença para traduzirmos O Verbo era um deus, segundo alguns têm imaginado, posto que, em primeiro lugar, isso seria totalmente contrário ao conceito monoteísta que há por detrás da teologia judaica e cristã. Em segundo lugar, tal tradução é meramente uma possibilidade, e não uma necessidade, visto que a ausência do artigo não requer a adição do artigo indefinido, mas tão-somente significa que se trata de uma tradução possível. Se, coerentemente, acrescentássemos o artigo indefinido de cada vez que não figura o artigo definido antes de um substantivo, a tradução transformar-se-ia num autêntico caos. Por exemplo, o vs. 14 deste primeiro capítulo do evangelho de João diria: «...e o Verbo se tornou uma carne...» O vs. 18 do mesmo capítulo diria: «...ninguém jamais viu a um deus...» E note-se que, neste último caso, a referência bem definida é a Deus Pai, o que nos forçaria a chamar o Pai de um deus e não de «Deus» ou «o Deus». Por sua vez, o vs. 6 diria: «...houve um homem enviado de um deus...» E, uma vez mais, a referência óbvia é ao Pai, que novamente deveria ser intitulado de «um deus», se insistíssemos em suprir o artigo indefinido de cada vez que o artigo definido não acompanhasse a algum substantivo. Qualquer pessoa que tomasse de um N.T. grego e de uma concordância grega, e seguisse o termo «Deus», observando quando recebe e quando não recebe o artigo definido, ficaria plenamente convencido que não se pode estabelecer quanto a isso qualquer regra fixa, e que traduzir, neste lugar, «...o Verbo era um deus...» não passa do mais profundo preconceito, lançando na confusão qualquer tentativa de tradução razoável e coerente, além de labutar contra" a teologia cristã.

 No que diz respeito à ausência do artigo definido antes da palavra Deus, neste versículo primeiro do evangelho de João, podemos fazer a seguinte observação no que tange à possível significação desse fenômeno: A função ordinária do artigo definido é a de apontar ou especificar. Assim sendo, o Deus poderia ser compreendido como «o Deus de Israel», algum Deus particular, ou alguma identificação particular ou ideia característica de Deus. Mas, sem o artigo definido, temos em vista meramente a essência divina. Ora, até mesmo nos idiomas modernos preservamos esse uso. Se dissermos «o homem», estaremos apontando para alguma pessoa particular, algum homem, em distinção a todos os outros homens. Porém, se dissermos «homem», já estaremos fazendo alusão à «humanidade», à essência da humanidade, ao estado do seres humanos. Assim também se dá neste caso. «Logos» não é apontado como «o Pai» ou «o Deus dos judeus»; pelo contrário, ele é «Deus», isto é, possui a natureza e a essência da divindade. É justamente seguindo essa ideia que a tradução inglesa de Williams diz neste ponto: «No princípio a Palavra existia; e a Palavra estava face a face com Deus; sim, a Palavra era Deus mesmo». E, no rodapé ele acrescentou a seguinte observação: Deus, enfático; portanto, Deus mesmo.

 «O artigo definido, antes de theos (Deus), destruiria, neste caso, a distinção de personalidade, e confundiria o Filho com o Pai. A sentença anterior assevera a hipóstase distinta do «Logos», a saber, a Sua unidade essencial com Deus. Conceber um ser independente, que tivesse existido desde a eternidade, fora e separado do único Deus, e de substância diferente, haveria de ser a derrocada da verdade fundamental do monoteísmo e do caráter absoluto de Deus. Só pode haver um ser ou substância de ordem divina». (Philip Schaff, in loc, no Lange's Commentary).

 «O evangelho declara que os homens devem 'honrar ao Filho, tal como honram ao pai', sem identificá-los entre si (Jo 5:23). Quanto à relação existente entre os dois, ver Jo 14:9,28; 5:30; 6:38 e 10:30». (Wilber F. Howard, in loc).

 Assim também, neste versículo primeiro do evangelho de João, o «Logos» é identificado com um ser divino, mediante o emprego da palavra «Deus», sem o concurso do artigo definido. A sua essência é divina. No vs. 14, por semelhante modo, a palavra «carne», sem o artigo definido, identifica a natureza humana autêntica de Jesus Cristo. A essência de Cristo também é humana.

 

1.2: Ele estava no principio com Deus.

 «...Ele estava no princípio com Deus...» A princípio esta frase pode parecer simples repetição das declarações que se lêem no primeiro versículo; e, realmente, contém as mesmas três declarações, embora na ordem inversa. Mas esta frase tem diversos propósitos, a saber:

 1. A própria ordem reversa é significativa. O autor encerrara com «o Verbo era Deus». E então ele diz «ele», referindo-se novamente a esse Verbo divino—ele é quem estava no princípio, ou seja, desde a eternidade, com o Pai. O maior dos três fatos aparece em primeiro lugar, para efeito de ênfase. Se dermos crédito a essa declaração, e pudermos apreciar o seu profundo significado, não teremos dificuldade alguma em aceitar as outras duas. É como se subíssemos a um altíssimo edifício, a fim de podermos apreciar a cidade inteira. Teríamos subido cada vez mais alto, a fim de que pudéssemos ter uma visão geral de tudo. Finalmente, quando tivéssemos chegado ao topo, sairíamos do elevador, e dali descortinaríamos o amplo espetáculo de uma bela cidade. A palavra «ele» leva-nos até o cume. Trata-se do Verbo divino, acerca do qual João nos falava. Desse elevado cume é que podemos, mais facilmente, compreender as duas outras declarações. Esse Verbo divino existia desde o princípio, sendo eterno em sua natureza, e ele é que estava em comunhão eterna com Deus Pai.

 2. Em segundo lugar, como se fora uma repetição das três grandiosas declarações do primeiro versículo, serve para enfatizarnovamente aqueles conceitos.

 3. Em terceiro lugar, atua como uma introdução à próxima grandiosa declaração, a saber, que o «Logos» é que criou tudo. Ora, sabendo nós que o «Logos» é divino, eterno, e está em comunhão íntima com o Pai, podemos entender mui facilmente como pode ser ele o criador de todas as coisas.

 4. Bruce (in loc), percebe um outro sentido neste versículo, a saber, que se trata de uma tentativa para explicar que o Logos não somente já estava no princípio e que era divino, mas também que essas características do «Logos» existiam contemporaneamente. Ealém disso, assevera ele: «No princípio ele estava com Deus; depois, dentro do tempo, veio a estar com os homens»; e é justamente este segundo versículo que prove a transição para esse pensamento. Essa porção do texto sagrado, portanto, é uma variação da ideia exposta no terceiro versículo deste mesmo capítulo.

 1.3: Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

 «Todas as cousas foram feitas por intermédio dele,...». Os vss. primeiro e segundo falam sobre as relações entre o Verbo e Deus Pai, a deidade; mas aqui começa a ser salientada a relação do Verbo para com o mundo. Essa declaração é apresentada em duas partes, uma positiva e outra negativa, a fim de indicar uma universalidade absoluta da função criativa do Verbo, o qual é o criador deste mundo, bem como de todos os outros mundos, conhecidos e desconhecidos. Sem a menor dúvida, este versículo é parcialmente polêmico. Ataca a noção errônea dos gnósticos sobre a natureza essencialmente má da matéria, o que exigia, segundo eles, que Deus interpusesse uma longa série dos chamados aeons ou intermediários, entre ele mesmo e a criação, a fim de que ele não viesse a ser corrompido; e também assedia a ideia de que esse «Logos» teria sido o criador deste mundo, sendo o seu Deus, ao passo que existiriam muitos outros mundos, no universo, com muitos outros deuses subordinados, ou seres espirituais poderosos, que seriam os deuses, os quais, por sua vez, seriam os criadores dessas outras criações. Neste caso, a intenção é declarar que todas as coisas, sem uma única exceção, foram feitas por aquele que, desde toda a eternidade, estava com Deus.

 1. É inútil atenuar a função criadora do Logos (o Filho). A criação foi realizada por intermédio dele, mas Hb 2:10 usa a mesma expressão acerca da função criadora do Pai. Em ambos os casos é usada a palavra grega «dia» (através).

 2. Cl 1:6 usa as três preposições: a. «em» (o Filho como esfera, impulso inerente da criação); b. «por» (o Filho como a causa da criação); c. «para» (o Filho como o alvo da criação).

 

3. O ogos criou o «panta» (sem artigo definido), isto é, a totalidade das coisas. Isso condena a interpretação de Gaustus Socinus, o qual pensava no «tudo» como mera criação ética (o Filho como a fonte da moralidade)

 Especulações sobre o tempo da criação (que estaria fazendo Deus antes do ato criativo?)

 1. Orígenes: A criação teria sido um ato eterno de Deus, sem começo dentro do tempo.

2. Abelardo: A criação sempre teria existido como conceito eterno na mente de Deus.

3. Filósofos gregos, mórmons, etc: A matéria seria eterna. A criação teria sido apenas a organização da matéria.

4. Criação ex-nihilo: Esse é o ensino da maioria dos teólogos. A criação foi feita do nada, ou (conforme a adaptação moderna) da energia divina, através da palavra, pelo exercício da vontade de Deus. Ver Hb 11:3 sobre a criação ex-nihilo.

 

Os propósitos da criação: 

1. Preparar o palco para a criação espiritual, a participação na vida divina. Ver I Co 8:6. Ver também II Pe 1:4.

2. Para a glória de Cristo (especialmente no fato da filiação). Ver Cl 1:16. Mas também para cumprir a glória do Filho em escala universal. Comparar Ap 4:11,

3. N. B: o vs. 4 deste capítulo (João 1). A vida torna-se luz. Da criação física é que se desenvolve a criação espiritual.

 

Gênesis, criação e evolução:

 1. O escritor de Gênesis não considerou essa possibilidade, pois o conceito estava fora do escopo de sua cultura. Dentro da cultura grega, Mileto (546 A.C.) ensinou tal conceito.

2. O ensino sobre as espécies é contraditório a essa noção, e nenhum esforço pode harmonizar os conceitos dos hebreus com as teorias modernas sobre o desenvolvimento da vida.

3. Qualquer ensino sobre a ideia da evolução, necessariamente se desenvolve de modo independente da teologia do A.T.

4. Eras geológicas? O ensino moderno que estabelece um grande hiato entre Gn 1:1 e 2, a fim de dar espaço às eras geológicas, é puro engano. A cronologia de Gênesis não deixa espaço para as descrições aventadas pela ciência moderna. As narrativas contêm os grandes fatos da criação, e não descrições. É inútil esperar mais que isso.

 Essa obra da criação é atribuída, nas Escrituras, a todas as três pessoas da deidade. É atribuída a Deus Pai, como nos trechos de Gn 1:1; Is. 44:24; Sl 33:6; Hb 2:10 e 11:3. É atribuída a Deus Filho, como nos trechos de Jo 1:3,10; Cl 1:16 e Hb 1:10-12. E é atribuída a Deus Espírito Santo, como nos trechos de Gn 1:2 e Jó 26:13. Declarações como aquela que se acha em Ef 4:6: «...um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos...», indicam que Deus se mantém em relação tanto de transcendência como de imanência para com a ordem das coisas criadas. No fato de que ele é «acima de todos» e «sobre todos» (ver Ef 1:22) vemos que ele é transcendental, e que criou tudo mediante um ato de sua vontade soberana. Porém, também lemos que ele se manifesta «por meio de todos e em todos» (sem dúvida por intermédio de seu Espírito); e visto que por ocasião da encarnação o «Logos» veio a este mundo, para viver entre os homens, ele passou a ser imanente. Porém, se Deus é imanente, por outro lado também é distinto de sua criação, porquanto as Escrituras em parte alguma ensinam haver qualquer modalidade de panteísmo, o qual assevera que Deus é tudo e tudo é Deus.

 

1.4: Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; 

Quase todos os pais antenicenos da igreja ajuntam as palavras o gegonen («...aquilo que foi feito...»; ou conforme a tradução inglesa RSV: «...that which hasbeen made...», que aparecem no vs. 3, com o começo do vs. 4, de tal modo que o resultado dessa combinação se torna «...aquilo que fora feito foi a vida nele...» Os manuscritos e os pais da igreja que assim dizem são AC (1) DG (1) LW, Theta, a maioria dos mss da tradição latina, o Si (c), o Sa e os pais Clemente, Irineu, Orígenes e Tertuliano. E os manuscritos que dizem conforme a maioria de nossas traduções modernas são os mss C (3) EG (2) HK, o Si (ph) e o pai Crisóstomo, que foi tão longe a ponto de declarar ser herética a outra variante. A diferença consiste em uma questão de pontuação, a saber, se um ponto deve ser posto ou não após as palavras «...foi feito...», ou se essa porção deve ser separada ou não das palavras que se seguem, no vs. 4.

 Não é heresia, sem dúvida, dizer-se «...aquilo que fora feito foi a vida nele...», embora tal declaração possa parecer estranha. E o mais provável é que essa própria estranheza tenha sido a razão pela qual os manuscritos posteriores digam de outro modo. Todavia—alguns editores e tradutores tenha preferido a evidência dada pelos manuscritos mais recentes, quanto a esse particular. É mister nos lembrarmos do fato de que os manuscritos originais não continham sinais de pontuação (como também não tinham versículos, capítulos ou outras divisões), e que, por isso mesmo, as questões de pontuação se tornam mais uma questão de interpretação, quando surgem dúvidas sobre como determinadas passagens bíblicas devem ser pontuadas.

 Algumas vezes a estrutura gramatical é que nos fornece indicações claras acerca da pontuação a ser preferida. Alguns salientam (em defesa da pontuação mais estranha, de acordo com os pais antenicenos), de que há uma declaração similar em Ap 4:11: (Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as cousas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas»). Dessa maneira aprendemos que toda vida criada é uma expressão daquele poder eternamente existente noLogos, e que transmite vida.

 Alguns testemunhos importantes, no vs. 4, dizem «é» ao invés de «era»; ou então, se preferirmos vincular a última porção do vs. 3 com o começo do vs. 4: «...aquilo que fora feito é vida nele...» Os manuscritos que assim dizem são Aleph, D, a maioria dos mss da tradição latina, o Si (c) e o pai da igreja Clemente, que assim cita a passagem, embora, em outros lugares, tenha preferido o tempo passado, «era». A despeito disso, a interpretação do trecho não seria diferente, posto que a vida existente no «logos» pode ser reputada como algo tanto no passado como no presente. Essa vida é eterna. A questão maior, neste caso, é se as palavras traduzidas por «nele» devem ser vinculadas ao termo «fez» ou ao termo «vida», a saber: «...nele estava a vida...» (ou nele está a vida) ou «...tudo que foi feito nele, era a vida...» Ambas as ideias são verdadeiras, e podem ser demonstradas nas Escrituras. Todas as coisas que foram feitas nele, necessariamente devem ter recebido certa forma de vida eterna, e o versículo está se referindo à vida humana regenerada. O próprio fato que a criação foi feita «...nele...» 'em Cristo', segundo também nos ensina o trecho de Cl 1:16, serve de evidência de uma forma especial de vida elevada, a saber, aquela vida que é descrita nas notas expositivas sobre o vs. 3, a vida divina, imortal, necessária e independente. (Ver também Rm 8:29). É igualmente verdadeiro que a expressão «...nele estava a vida...» subentende mais do que a mera existência física, e a adição das palavras «...e a vida era a luz dos homens...» confirma essa ideia, A vida que existe em Cristo é luz, e isso fala daquela vida imortal e especial, a «vida necessária» de Deus, a qual é comunicada aos homens por meio de Cristo.

 Este quarto versículo do primeiro capítulo de João, portanto, assinala uma transição da criação original, que deu origem a tudo, para uma ideia mais avançada, a saber, a ideia de uma forma especial de vida, uma criação espiritual que é extraída da criação simples, a feitura de uma nova criação no seio da criação antiga. Dessa forma, Cristo é encarado não meramente como o princípio originador de toda e qualquer matéria, mas também de toda forma de vida, e, mais particularmente, daquela vida mais elevada, que é «eterna», a «vida necessária», a vida verdadeiramente «imortal» e espiritual. Nesse caso, a vida se torna equivalente à luz, e isso marca uma transição da simples existência para a vida verdadeira, pois as Escrituras jamais denominam a simples existência de verdadeira vida.

 A luz é associada à vida em face do fato de estar vinculada ao bem, e não ao mal (e o mal mata, embora o bem sustente a vida); à presença de Deus, e, finalmente, ao próprio Deus, o qual é Luz. Por isso mesmo é que Cristo também é chamado de Luz, ao passo que os seus discípulos são «luzes», em sentido secundário. (Ver Jo 8:12 e I Tm 6:16—a presença de Deus é luz). O trecho de Sl 36:9 assevera: «Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz vemos a luz». (Aqui, uma vez mais, notamos a mesma vinculação entre a vida e a luz.

 

Deus, o Sol central: 

1. Tudo começou a existir proveniente dos raios de Deus.

2. Estar longe de Deus é habitar nas trevas.

3. A criação física é iluminada por Deus, e nesse processo adquire vida espiritual.

4. A luz vence as forças das trevas (v. 5).

5. No fim, a iluminação será absolutamente universal (v. 9).

6. A Luz cria outros corpos de luz, os homens remidos (vss. 9 e 12).

7. Os verdadeiramente iluminados, transformados em luzes, participam da vida inerente à Luz. Portanto, a salvação envolve infinitamente mais que o perdão dos pecados.

 Realmente, possuiremos a luz de Deus como nossa própria possessão, embora essa luz tenha de ser-nos conferida por Deus, em Cristo, mediante o Espírito. Isso significa que, finalmente, compartilharemos da vida divina, vida essa que é expressa pelo termo poético «luz». Cristo é a «Luz» de Deus, que ilumina este mundo. Ele transforma os homens até o ponto de também virem a ser luzes de Deus, e, dessa maneira, venham a ser participantes da vida divina. Essa é a mensagem do evangelho em sua plenitude mais profunda.

 Naturalmente, as expressões empregadas estão intimamente associadas ao pensamento do V.T. acerca da obra da criação. Quando por ocasião da criação, a Palavra de Deus convocou a luz à existência, a fim de que essa luz pudesse gerar vida sobre a face da terra, porquanto, sem a luz do sol, tornar-se-ia impossível qualquer vida neste planeta. E dessa maneira Deus, o grande Sol central, por intermédio do «Logos», que é a «Luz de Deus», passou a brilhar em um mundo recoberto de trevas, e essa luz, ao mesmo tempo quedispersa as trevas, também gera a vida, posto que o resultado natural da iluminação é a vida.

 

1.5: a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. 

"Essencialmente, as trevas, neste caso, significa aquilo que envergonha, que macula e que avilta. Foi acerca dessas coisas que Aristóteles declarou ousadamente que Deus não é um dramatista desajeitado, que deixou pequenas irrelevâncias entrarem no enredo,sem motivo algum. Tudo quanto ali foi incluído, o foi por alguma razão; e assim, antes que a cortina se feche, veremos que cada coisa desempenhou o seu papel necessário no desdobramento da história, na realização do plano predestinado...e, nas páginas do N.T., Deus sempre se coloca contra o mal, envidando todo esforço para dominá-lo e para eliminá-lo do seu universo. A mente carnal se fez inimiga de Deus, no dizer do apóstolo Paulo; e Calvino comenta que ela escolheu assim um grande inimigo! Mas Deus também tem na mente carnal um poderoso inimigo, e, mui geralmente, até parece que a mente carnal está do lado vencedor.

 Nos anais da história da humanidade muita coisa há que nos abala, desencoraja e desanima. Como regra geral, o progresso espiritual é extremamente lento; e há recidivas horrendas. As coisas parecem girar sempre em um círculo vicioso, ao invés de seguirem constantemente para avante. O mal é ruidoso, ousado e arrogante, ao passo que o bem, segundo disse Lao-tzu há tantos séculos, é tão lento como o pó, ou é como a água, que apesar de preferir os lugares mais baixos, vai prosseguindo, oculto pela corredeira; e bem sabemos que é às margens verdejantes dos riachos que fica depositada a areia das praias.. .Em todo este admirável mundo, haverá algo mais admirável do que a invencibilidade da bondade? Tudo parece encarniçar-se contra ele, mas a bondade recusa deixar-se matar. Com demasiada freqüência ela parece perdida, quando tudo parece ter perdido a esperança. Mas, de alguma maneira, ela consegue erguer-se novamente sobre os pés, para continuar lutando... Em nossos próprios dias não têm algumas nações poderosas usado violentamente da força bruta, na tentativa de extirpar a religião cristã? No entanto, o cristianismo bíblico tem arrastado a tudo, e vai continuando.

 «Em uma passagem extremamente comovente de Pulvis et Umbra, Robert Louis Stevenson indaga perplexo, acerca do homem, montado precariamen­te em sua pequena ilhota desta breve existência, com seu coração débil e com suas enormes dificuldades, a manter seu pendão erguido, em constante atitude de desafio, a manter decência e honra e a encontrar tempo, por vezes sem conta, e a encontrar os meios para ser bondoso para com os seus semelhantes, que pululam ao seu derredor. Como consegue isso o crente? Porque, conforme diz o N.T., essa luta não é nossa, e, sim, de Deus; e ele está empenhado nela juntamente conosco. Coisas espantosas e aterrorizantes são lançadas contra nós, principados e poderes, e os governadores destas trevas. Porém, o que nos vale é que Deus está conosco. E enquanto o trono de Deus tiver prosseguimento, e enquanto não cair o Todo-poderoso, a bondade jamais poderá ser vencida, e, finalmente, vencerá». Belo comentário sobre este vs. 5, por Arthur John Gossip, in loc).

 Encontramos aqui três versículos que realmente se completam, pois são paralelos, a saber, os vss. 5, 9 e 14. O nono versículo expande a ideia deste quinto versículo; e o versículo décimo quarto, embora nada mencione acerca da luz, contudo, conclui o pensamento inteiro, ao demonstrar que a vitória do bem sobre o mal se efetua por meio do Logos encarnado, que dá o seu apoio aos homens, conduzindo-os até à presença da luz de Deus, é dessa forma restaura-os quais verdadeiros filhos, tanto em sentido moral como em sentido metafísico. (Ver os comentários sobre o vs. 4, quanto aos detalhes sobre essa questão).

 A palavra aqui traduzida por prevaleceram tem sido variegadamente interpretada. A tradução AC diz «compreenderam», como também o diz a tradução KJ, em inglês. (Esse sentido pode ser encontrado nas passagens de At 4:13; 10:34 e Ef 3:18, sendo um sentido não incomum no grego posterior). A tradução IB concorda com a tradução AA, que diz prevaleceram. No grego, esse verbo pode significar «apropriar-se», «ater-se a». (Ver Mc 9:18; Rm 9:30 e I Co 9:24). Mas também pode significar «dominar», segundo se vê nos trechos de Jo12:35 e I Ts 5:4. Assim sendo, isso significaria que a luz não será «dominada» pelas trevas; e essa, igualmente, foi a interpretação dada por Orígenes, emprego esse do termo sustentado nos papiros, por James Hope, segundo está evidenciado na obra Vocabulary oftheGreek N.T., de Moulton & Milligan (Londres: Hodder and Stoughton, 1914-1929, pág. 328).

 Por outro lado, vencer o termo que aparece na tradução RSV, além de muitas outras traduções modernas, como a de Moffatt, a MY e a GD. Essa é, por semelhante modo, a interpretação apresentada por muitos eruditos; e essa ideia parece estar mais de acordo com o dualismo moral do evangelho. Também se pode observar uma declaração paralela na obra apócrifa Sabedoria de Salomão (7:29,30): «Sendo comparada à luz, ela se encontra perante ela; pois a luz do dia sucede a noite, mas, contra a sabedoria, o mal não prevalece». Sem dúvida essa passagem concebe a luz e as trevas como adversárias, em antagonismo entre si. Fazia bem pouco tempo que Jesus Cristo fora morto pelos filhos das trevas, e a comunidade cristã primitiva necessitava da segurança da vitória final da Luz e do Direito. A derrota aparente conduziu à vitória, pois Jesus dissera: «...eu venci o mundo». É mister nos lembrarmos desse princípio, estando certos que «...a luz brilha nas trevas, mas as trevas não podem vencê-la».

 «A descrição sobre o paraíso ocupa apenas alguns versículos do Antigo Testamento. As trevas exteriores projetam a sua melancolia sobre cada página. Porém, foi também durante esse caos moral que Deus disse: Haja luz; e houve luz... A luz resplandece perenemente, e, com freqüência, fica colorida, ao atravessar as diferentes mentes de diferentes indivíduos, vindo ao nosso encontro, apôs cruzar os grandes espaços que separam os continentes, o tempo que separa as eras, em tonalidades que alcançam um largo espectro; mas essas tonalidades se misturam entre si, e, na harmonia resultante, surge a pura luz da verdade». (Ellicott, in loc).

 Por conseguinte, o «Logos» deste versículo é encarado como a única verdadeira luz moral, sendo ele a revelação de Deus, tanto em seu estado anterior à encarnação como desde a sua encarnação, sendo a sua função especial ser a luz de Deus para os homens. O trecho de I Jo 2:8 declara: «...porque as trevas se vão dissipando e a verdadeira luz já brilha»; e essa—asseveração—nos infunde a mesma certeza que este versículo do evangelho de João. As trevas já tiveram a sua grande oportunidade, e essa oportunidade foi extremamente prolongada. Aparentemente as trevas haviam triunfado, e, algumas vezes, de maneira que parecia tão inequívoca, que dava a impressão de ser, realmente, a única força poderosa entre os homens. No entanto, o Logos, a verdadeira Luz de Deus, é que eventualmente se mostrará invencível, quando então toda treva, finalmente, será eliminada. A luz da natureza é grande; mas, por si mesma, essa luz jamais poderia ter reconduzido os homens de volta a Deus, posto que as trevas do mal podem prevalecer sobre essa luz natural, a que também o ateísmo serve de comprovação. Porém, da parte de Deus nos é dada a garantia de que o Logos,finalmente, haverá de vencer todo e qualquer mal.

 Dessa maneira vemos que as menores provas e belezas da natureza podem conduzir os homens à piedade natural. Quanto mais os penetrantes raios do «Logos», que brilha desde a presença de Deus, haverão de finalmente iluminar os homens!

 

1.6: Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. 

Os versículos seis a oito constituem um comentário, em forma de prosa, intercalado entre as seções do poema ou hino de louvor ao «Logos», poema ou hino esse que constitui o prólogo deste evangelho de João. Além de ter caráter esclarecedor, esta passagem é claramente polêmica, sendo a primeira, dentre diversas passagens, que procura explicar a inferioridade de João Batista ante a pessoa de Cristo. (Quanto a outros trechos acerca disso, ver Jo 1:15, 24-27, 30; 3:28-30; 4:1; 5:36 e 10:41). Pela história eclesiástica sabemos que a seita dos seguidores de João Batista continuou até bem dentro da era cristã, porquanto nem todos os discípulos de João Batista vieram a unir-se ao movimento cristão. Nos escritos de Josefo, o historiador judeu, lemos que a influência de João Batista, entre o povo comum, era extraordinária, e que imensas multidões costumavam segui-lo ao deserto. Muitos reputavam-no como o Messias; e o seu espírito mais militante era mais agradável para aqueles que esperavam um messias de caráter político-militar, em contraste com a atitude mais gentil e humanitária de Jesus.

 A continuação do movimento dos seguidores de João Batista servia de embaraço para a comunidade cristã, e tornou-se necessário que nos evangelhos houvesse alguma forma de esclarecimento quanto ao ministério e à posição de João Batista, em confronto com Jesus Cristo. Por isso, duas coisas principais nos são ditas a respeito dele. Em primeiro lugar, João Batista foi comissionado por Deus, e essa missão estava limitada à de uma mera testemunha, que haveria de testificar acerca de um poder maior e de uma pessoa mais exaltada. Em segundo lugar, João Batista foi enviado, o que dá a entender um sentido de autoridade oficial; e nisso somos forçados a relembrar os profetas do V.T. e suas respectivas missões, como aqueles que haviam sido «enviados» por Deus com propósitos definidos e específicos. Assim também João Batista fora enviado a fim de que outros viessem a crer no Messias autêntico, e não a fim de que ele mesmo obtivesse glória e posição pessoais. Portanto, João Batista foi meramente o arauto e a testemunha de certa notável intervenção histórica de Deus na história humana.

 Este evangelho de João não descreve, a exemplo dos evangelhos sinópticos, quão grande profeta foi João Batista, e isso pode ter sido motivado pela intensificação do problema, no seio da comunidade cristã, ante o movimento dos seguidores do já falecido João Batista, porquanto o autor deste evangelho não desejava aumentar ainda mais o problema, salientando a missão de João Batista. Também é motivo de estranheza que a missão de João Batista—a de convocar o Israel inteiro ao arrependimento, a fim de que ficasse preparado um povo para a vinda imediata do reino de Deus—seja uma mensagem que jamais figura neste evangelho de João. Agora o reino de Deus mostra-se mais transcendental, sendo quase um sinônimo do termo salvação, do vocábulo céu, ou de algum outro conceito de natureza transcendental. Agora os homens—precisam—nascer de novo a fim de poderem participar desse reino, o qual não é mais encarado como uma revolução política ou social, conforme se vê, com freqüência, nos evangelhos sinópticos. Não obstante, a ênfase existente no quarto evangelho recai sobre o papel desempenhado por João Batista no plano da redenção universal, o que, por si mesmo, é um conceito bem mais elevado do que aquele usualmente expresso na doutrina acerca do reino. Foi o testemunho de João Batista que levou a Cristo os seu primeiros discípulos, que posteriormente foram feitos seus apóstolos. Também foi João Batista a testemunha por intermédio de quem Deus conferiu a divina filiação de Jesus, conforme se vê nos vss. 32-34 deste mesmo capítulo. Dessa maneira, a missão de João Batista, neste evangelho, aparece sob um aspecto um tanto mais profundamente espiritual, e um tanto menos terreno e político.

 O próprio nome de João é uma forma helenizada de Jônatas ou Joana (dom de Deus), e, neste evangelho, sempre é empregado para referir-se a João Batista (sem alusão ao termo Batista, que é termo utilizado por Marcos). Tal apelativo jamais é aplicado ao filho deZebedeu, do mesmo nome, o qual jamais é mencionado pelo nome neste evangelho, e que aparece apenas uma vez neste evangelho (João 21:2) sem tal designação. João Batista serviu de recapitulação final de todas as vozes proféticas concernentes a Cristo. João Batista foi o resplendor matutino da luz eterna, essencial.

 

1.7: Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele.

 «Este veio como testemunha...» A missão específica de João Batista foi a de servir de resplendor da Luz eterna; a de servir de último e grande reflexo dessa Luz, a fim de preparar os homens para um brilho muito maior, reflexo esse que pudessem mais facilmente reconhecer e receber do que se tivessem sido previamente iluminados por uma luz mais débil, que incorporasse algo da veracidade da grande Luz. João Batista veio a este mundo fazer um preparativo que se tornava necessário. Jonathan Edwards expressou essa ideia da seguinte maneira (segundo se vê na obra Memoirs of the Rev. Jonathan Edwards, por John Hawksley, Londres: James Black, 1815, pág. 36): «Tenho observado que os homens idosos raramente tiram vantagem de novas descobertas, porquanto estão presos a uma maneira de pensar com a qual já se acostumaram. Por isso mesmo resolvo que, se chegar a viver por muitos anos, serei imparcial ao ouvir as razões de todos quantos julgarem ter feito novas descobertas; e, se elas forem racionais, haverei de acolhê-las, ainda que por tanto tempo tenha eu estado acostumado a outra maneira de pensar». Por si mesma essa é uma nobre resolução, pois ensina-nos uma útil lição, ilustrando perfeitamente bem a necessidade que havia de preparação, para a manifestação do ministério de Jesus Cristo. João Batista veio para modificar a maneira de pensar de homens idosos, convencendo-os, através de um poderoso ministério moral (porquanto operou milagre algum), do fato que a verdadeira Luz estava prestes a raiar sobre os homens. Infelizmente, porém, Israel se mostrou qual autêntico homem idoso, arraigado em seus próprios caminhos (segundo o demonstra o vs. 12), tendo preferido apegar-se às trevas de conceitos antigos e inadequados.

 «Testemunho: mais poderoso que a pregação; mais poderoso até mesmo que a profecia, conforme até ali operante... Na qualidade de profeta que, por comissão divina, apontava para o Messias, ele completou a profecia do V.T. em seu testemunho... A sua missão se elevou até ao ofício de precursor. E até mesmo o seu martírio, no sentido mais estrito, esteve de conformidade com isso. Ele selou a sua pregação preparatória, de arrependimento, com a sua morte (ver o vs. 33)... Nos propósitos divinos, João deveria conduzir a fé de Israel para Cristo. Isso Cristo também deu a entender, em Jo 5:33 (onde chama João de '...a lâmpada que ardia e alumiava...'). Mas, por motivo da incredulidade dos judeus, fracassou esse desígnio gracioso, embora na pessoa de indivíduos verdadeiramente devotos, primeiramente nos próprios mais nobres discípulos de João (André e Pedro), isso teve seu cumprimento; e, através desses, na pessoa de todos os crentes». (Lange, in loc).

 «Temos aqui um daqueles textos (vs. 7) que mostram a imensa importância do ofício ministerial, por meio do qual o Espírito Santo deleita-se em produzir fé nos corações dos homens». (Ryle, segundo foi citado por Philip Schaff, in Loc., no Comentário de Lange).

 A ênfase recai sobre o testemunho de João Batista, sendo essa uma das características especiais deste quarto evangelho, o que, evidentemente, foi desenvolvido em uma ocasião quando os homens haviam começado a raciocinar sobre a fé, analisando o terreno sobre o qual se alicerça, especialmente no caso da fé nos dogmas da nova religião cristã. O evangelho depende de testemunhos, e, sendo o precursor de Cristo, João Batista foi a testemunha inicial; e então, por intermédio dos seus convertidos, esse testemunho se propagou ao mundo inteiro.

 

1.8: Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 

«Ele não era a luz...». Encontramos aqui a continuação da polêmica que procura descrever o lugar ocupado por João Batista, no esquema da redenção. (Ver as notas sobre essa questão, quanto aos detalhes, no vs. 6). Precisamos compreender, a despeito da grande influência exercida por João Batista, a despeito do fato de que alguns pensaram ser ele o Messias, e a despeito do fato de que seu espírito politicamente militante estava mais de conformidade com as noções judaicas sobre o Messias, que o próprio João Batista não era o Messias, mas tão-somente uma luz secundária, um reflexo da grande Luz que ilumina a todo indivíduo que vem a este mundo. No original grego encontramos uma construção gramatical enfática, que ilustra o caráter polêmico destes versículos. O artigo definido foi posto antes da palavra luz. João não era «a luz», e, sim, apenas uma testemunha dessa luz. Naturalmente, não devemos pensar que isso foi dito apenas com referência aos discípulos incrédulos de João Batista, que se recusaram a juntar-se ao movimento cristão, porquanto tal declaração certamente também aponta para todos os judeus incrédulos, e, em último lugar, para todos os incrédulos em geral. «Portanto, até onde fica subentendido que muitos, até mesmo dentre os líderes, faziam de João Batista um obstáculo, e não um auxílio à fé, essas palavras foram escritas até mesmo contra os discípulos de João». (Lange, in loc).

 Durante quatrocentos anos o povo de Israel não conhecera qualquer mestre notável e grande. Os acontecimentos que circundaram o nascimento, a vida e o ministério de João Batista haviam atraído muita atenção. Ele trazia uma mensagem ousada e falava no espírito de Elias; e alguns chegaram mesmo a acreditar que ele fosse a reencarnação de Elias. João Batista afetou—todas as classes—sociais, tendo chegado a abalar até mesmo os quase intocáveis fariseus e saduceus. «Então saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados» (Mt 3:5,6). Porém, apesar de toda a sua grandeza e influência, João Batista não era a Luz do mundo, e a história humana subseqüente estabeleceu a respectiva e apropriada relação entre o Cristo e João Batista, seu precursor.

 

1.9: Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo 

«...a verdadeira luz...ilumina a todo homem...» Jesus Cristo veio a este mundo como a verdadeira Luz; e, nessa capacidade, a sua função iluminadora não teve começo quando de sua encarnação—em sua encarnação a sua esfera de atividade foi modificada; ou talvez devêssemos dizer que se alterou a área de sua atividade, pois antes mesmo de sua encarnação Jesus já iluminava aos homens. Assim é que diz Adam Clarke (in loc): «Da mesma maneira que Cristo é a fonte e a origem de toda a sabedoria, assim também a sabedoria que há nos homens se deriva dele; o intelecto humano é apenas um raio do resplendor dele; e a própria razão se origina nesse Logos, a razão eterna. Alguns dos rabinos mais eminentes têm compreendido a passagem de Is 60:1: 'Dispõe-te, resplandece, porque vem a tualuz...' como uma alusão ao Messias, o qual haveria de iluminar a Israel, e que, conforme criam, fora referido naquela palavra de Gn 1:3, que diz: 'Disse Deus: Haja luz; e houve luz'».

 Com as palavras deste versículo têm prosseguimento o «hino» ou «poema» ao «Logos», após o comentário parentético, vazado em forma de prosa (vss. 6-8). Agora o «Logos» aparece na forma de luz; ele é eterno, estava com Deus (isto é, distingue-se de Deus, embora em comunhão perfeita com ele), e era Deus (ou seja, é divino). Cristo é a divina Luz, e, nessa capacidade, incorpora a luz de Deus, a sua natureza moral e metafísica, que, por si mesma, é a revelação da mais elevada verdade possível para os homens. A vida está essencialmente vinculada à luz ou às trevas, ao bem ou ao mal, ao sucesso ou ao fracasso; e esse sucesso ou fracasso, em termos bíblicos, depende dos homens conseguirem encontrar-se ou não com Deus. E mais especificamente ainda, nos escritos joaninos e paulinos, tal sucesso ou fracasso depende dos homens entrarem no conhecimento de Cristo e serem transformados segundo a sua imagem. A verdadeira Luz ilumina aos homens; e, mediante essa iluminação, os homens são transformados segundo a imagem daquele que é a própria Luz; e isso fala de uma modificação literal da natureza da substância ou do ser essencial dos homens. Dessa maneira é que os crentes se tornam seres de natureza supremamente elevada, pois, na realidade, passam a participar da divina essência, conforme ela está na pessoa de Cristo, o Filho de Deus, posto que eles são filhos de Deus, conduzidos à glória. (Ver também Ef 1:23).

 O nono versículo pode ser interpretado, essencialmente, de três maneiras diversas, dependendo de como se compreender a construção gramatical do original grego, que é um tanto ambígua neste caso, e que, por isso mesmo, admite mais de uma interpretação:

 1. Mediante a tradução «...essa era a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem ao mundo...» (segundo as traduções KJ e AC). Em favor dessa interpretação, podemos destacar que as palavras «...todo homem que vem ao mundo...» fazem parte de uma expressão muito comum nos escritos rabínicos, e que era equivalente ou sinônimo de «homem». Contra essa interpretação pode-se asseverar que isso seria um uso singular do autor deste evangelho; e também que exigiria, na construção gramatical grega, o artigo definido antes do vocábulo traduzido por «que vem». No entanto, não diz assim o original grego.

2. Outra interpretação diz o que segue: «Ali estava a verdadeira luz, vinda ao mundo, a luz que ilumina a todo homem...» (Assim diz a versão inglesa revisada). O leitor pode observar que a diferença, neste caso, depende muito da ordem das palavras, fazendo com que «vinda ao mundo» se refira não aos homens, mas ao Logos, que é a verdadeira luz. Poderíamos traduzir por «...ao vir ao mundo...», fazendo com que o particípio «vinda» se revestisse de uma ideia causal; e isso significaria que o «Logos», mediante a sua vinda ao mundo, isto é, por meio da sua encarnação, iluminou a todo homem. Naturalmente, isso expressa certa verdade, a qual está subentendida no texto, e também neste versículo. Não obstante, não poderíamos traduzir «...quando ele veio ao mundo...», porque isso subentenderia que a iluminação se deveu à existência da infância de Jesus; ou então, se aplicássemos essa mesma frase aos homens, poderíamos chegar à ideia de que a iluminação espiritual é dada aos bebês.

3. Parece preferível traduzir essa sentença como segue: «A verdadeira luz, que ilumina a todo homem, estava vindo ao mundo». (Assim dizem as traduções RSV, AA e IB, em formas variegadas). Isso concorda com o uso joanino, onde o imperfeito perifrástico é característico do grego por ele usado. (Ver também Jo 1:28; 2:6; 3:23; 10:40; 11:1; 13:23; 18:18,25). Algures o Senhor Jesus também é descrito como aquele que veio ao mundo. (Ver Jo 6:14; 9:39; 11:27; e 16:28). Por conseguinte, temos aqui subentendido o estado preexistente de Cristo, bem como a sua encarnação; e, por outro lado, entendemos que o propósito da encarnação foi a iluminação do coração de todo homem. O Logos é a expressão de Deus em todos os séculos, para todos os seres, e não apenas para os homens; pois, em seu estado anterior à encarnação, ele iluminava a criação. Cristo é a Razão universal, a Mente universal, a Luz universal. Quando de sua encarnação ele se tornou, em forma mais ativa e tangível, o iluminador dos homens. Este versículo, portanto, ensina que essa iluminação foi e é universal, posto que cada indivíduo se beneficia desse fato, num sentido ou em outro. Assim sendo, temos aqui a mesma doutrina ensinada nos trechos de I Pe 3:18 e 4:6—que a vinda de Cristo exerceu efeitos universais, e isso inclui até mesmo os espíritos no Hades. Por conseguinte, o «Logos» elevou o nível da existência de todos os homens, e especialmente, daqueles que crêem. Isso é um doutrina imensa, embora seja doutrina a respeito da qual não possuímos senão escassa informação.

 Utilizando-se deste versículo, os pais gregos da igreja ensinavam que Deus iluminava aos pagãos de diversas maneiras, incluindo as suas próprias variegadas filosofias, e, em especial, os ensinos de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, os quais seriam agentesdo «Logos», conduzindo os homens, finalmente, a Cristo, o «Logos» encarnado. Os quacres(Membro de uma seita protestante (Sociedade de Amigos) fundada na Inglaterra, no séc. XVII, e difundida principalmente nos E.U.A. Os quacres não admitem sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, não pegam em armas, nem aceitam hierarquia eclesiástica.), por sua vez, usam este versículo para ensinar a iluminação divina universal, nas mentes dos homens. (Ambas essas ideias contêm algum elemento de verdade; mas não a verdade em sua pureza).

 

No caso dos leitores intressados pelo ponto relacionado da gramática grega, que brilha por detrás das diversas interpretações dadas aqui, podemos observar o seguinte: Temos aqui duas formas verbais, era, vinda; essas formas podem ser consideradas juntas ou separadamente. O particípio «vinda» pode ser reputado como vinculado ou à palavra «homem» ou à palavra «luz». Se estiver vinculado à palavra homem, então o sentido será que Cristo veio para iluminar a «todo homem que vem ao mundo»; mas, se estiver vinculado à palavra luz, então a referência será à encarnação do «Logos», segundo é melhor esclarecido no vs. 14. Parece melhor considerar juntamente as duas formas verbais, e que o termo «vinda» esteja vinculado à palavra «luz», posto ser essa, essencialmente, a interpretação gramatical que escuda a terceira posição, dada acima. A primeira posição separa as duas formas verbais, fazendo com que «era» esteja ligado à «luz», e que «vinda» esteja vinculado ao «homem». Mas a terceira posição aceita «estava vindo» (ambas as formas), conjuntamente, como uma referência à «luz».

 No que diz respeito à natureza dessa iluminação, podemos dizer que ela ilumina tanto a razão como a inteligência; e é ao mesmo tempo moral e metafísica. Somos iluminados não simplesmente em sentido moral e na inteligência, mas também somos transformados por essa iluminação, até nos tornarmos semelhantes a Cristo, em nossas naturezas essenciais, até sermos também verdadeiras luzes, filhos autênticos de Deus. Esta última consideração com excessiva freqüência é menosprezada ou mesmo totalmente ignorada no seio da igreja, tanto no que tange às explicações sobre essa passagem, como na interpretação de passagens similares. Este versículo, pois, é paralelo de trechos como Rm 8:29 e Ef 1:23, onde o leitor deve consultar as notas expositivas. O quarto versículo deste capítulo do evangelho de João também tem alguns extensos comentários sobre as implicações dessa questão, e onde o leitor também pode consultar as notas.

 Cristo é a verdadeira Luz! E isso indica a luz divina, pura e real, em contraste com as luzes falsas ou com as luzes secundárias. Só existe uma realmente verdadeira luz, e essa é o «Logos». Porém, a grande mensagem do evangelho é aquela que anuncia que Deus está fazendo outras verdadeiras luzes, que participam da mesma natureza essencial do «Logos». Foi à base de expressões dessa ordem que os pais da igreja, como no caso do concilio de Nicéia, declararam Cristo «vero Deus do Deus vero».

 Alguns tradutores preferem aqui a tradução veraz, ao invés de «verdadeiro». É que o vocábulo grego aqui utilizado não é a palavra ordinária que significa «verdadeiro», que é alethes, a qual, mui provavelmente indica «verdadeiro» em contraste com «falso». Pelo contrário o vocábulo aqui usado no original grego é «alethinos», que significa «veraz», e que tem o sentido de «real», «perfeito», «substancial», em contraste com fantasioso, vago, simulado, ou meramente simbólico. Assim sendo, Deus é chamado de «alethes», em face do fato de não poder mentir (ver Jo 3:33), mas é chamado de «alethinos», ao ser distinguido dos ídolos que não possuem essência divina e nem realidade. (Ver I Ts 1:9).

 1.10: Estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu.

 

A reafirmação da função criadora do «Logos» é o que encontramos aqui, essencialmente a repetição da ideia já declarada no terceiro versículo. (As notas referentes ao terceiro versículo expõem as muitas ideias e interpretações da significação da função criadora de Cristo, e ali as notas expositivas devem ser consultadas). Naquele terceiro versículo, o mundo é designado pelo vocábulo panta, sem o artigo, o que indica «tudo», sem qualquer especificação ou limitação; e o próprio versículo ensina a universal e absoluta criação saída das mãos de Cristo, em contraste com os conceitos dos gnósticos, os quais criam que a função criadora de Cristo estava limitada a este mundo ou a esta esfera, porquanto Cristo seria meramente um espírito elevado, associado a este mundo e aos seus habitantes. Neste caso (vs. 10), porém, o artigo é usado - «ton kosmom» - a fim de dar a entender a criação em sua totalidade, com um todo posto em ordem. Quatro palavras são empregadas no N.T., e são traduzidas pela palavra «mundo», a saber:

 1. «Ge», «terra», no sentido de terreno, território, ou mesmo a terra, em distinção ao firmamento. Essa palavra está investida de sentido puramente físico.

 

2. «Oikoumene» (um particípio), palavra que significa «habitado». Quando é usada em conjunto com o termo «ge», indica a terra como habitação dos homens, ou mesmo o mundo inteiro ocupado pelo homem. (Ver Mt 24:14 e Lc 2:1). O sentido físico pode estar presente, todavia, e, no trecho de Hb 2:5, significa «o mundo vindouro».

 3. «Aion», que significa, essencialmente, um «tempo», uma «era», um período qualquer de tempo, uma geração, o período de uma existência humana, uma época, uma dispensação. (Ver. Gl 1:4; II Co 4:4 e Mt 28:20)

 

4. «Kosmos», que é o vocábulo usado neste texto do evangelho de João. Essa palavra pode ter sentido tanto físico quanto ético. Seu sentido básico é «ornamento», «arranjo», «ordem»,

a. Pode significar a soma total dos objetos materiais, considerados como um sistema. (Ver Mt 13:35; Jo 17:5 e At 17:24). Essa ideia de ordem, que reside nesta ordem mundial, provavelmente se deriva da antiqüíssima noção grega que dizia que o «mundo» é um lugar, os seres (os deuses ou os homens) ou os objetos físicos, estão vinculados entre si mediante ordem, e não mediante desordem ou confusão. (Ver tal ideia no diálogo de Platão «Gorgias», 508). Assim sendo, os homens habitam no «mundo», no kosmos, nesta ordem organizada,

b. Esse vocábulo também pode significar a habitação dos homens. (Ver Jo 16:21 e I Jo 3:17).

c. Tal palavra também pode indicar a totalidade da humanidade, existente neste mundo, a raça humana. (Ver Jo 1:29 e 4:42).

d. Finalmente, quando empregado em sentido ético, o termo pode indicar a soma total da vida humana no mundo organizado, o qual é reputado como hostil e alienado de Deus, uma espécie de princípio ou ordem maligna. (Ver Jo 7:7; 15:18; 17:9,14; I Co 1:20,21; II Co 7:10 e Tg 4:4).

 O emprego desse vocábulo, neste texto, provavelmente indica tanto uma ideia física (todos os objetos físicos, a matéria, a criação material), como também a ideia de toda a humanidade.

Alguns estudiosos consideram os vss. 10 e 11 como simples sumário do que aconteceu ao Logos, quando ele veio ao mundo (dessa maneira, seriam apenas uma referência à encarnação). Contudo, outros intérpretes vêem, no vs. 10, uma indicação sobre o estadopreencarnado de Cristo. Ele teria vindo a este mundo por intermédio dos profetas, por intermédio das revelações da natureza, por intermédio das experiências místicas, por intermédio das operações íntimas da consciência humana, por intermédio de sinais e prodígios, por intermédio da erudição, quer filosófica ou religiosa. Em seguida, o vs. 11 descreve a encarnação realizada.

 Assim parece ter interpretado Westcott: Os vss. 9, 10 e 11—dão um panorama compreensivo da ação da luz. Os vss. 10 e 11 dividem as indicações gerais do vs. 9, concernentes às ações da luz, em duas porções: O vs. 10 demonstra que a luz é imanente (incluindo as atividades de Cristo anteriores à sua encarnação); e o vs. 11 fala sobre a própria encarnação, quando a luz se manifesta especificamente a um povo selecionado, e, através desse povo, manifesta-se aos homens, em sentido especial.

 Preciso concordar com Westcott quando ele diz: «É impossível atribuirmos essas palavras simplesmente à presença histórica da Palavra, em Jesus, conforme ela foi testemunhada por João Batista». Essa manifestação era muito mais antiga e universal do que está envolvidoapenas na encarnação; e é mister que nos lembremos que este texto está frisando a universalidade do «Logos», tanto na questão da criação como na questão da manifestação e da iluminação operadas por Cristo. A verdade é que o «Logos» veio a este mundo, tanto no mundo físico como também na consciência dos homens. Por isso é que Meyer comentou: «O mundo poderia tê-lo conhecido (por afinidade de constituição). Deveria tê-lo conhecido (por meio de suas próprias reivindicações)». (Segundo é citado, in loc, no Comentário de Lange). Assim sendo, ele gostaria de vincular as palavras «...no mundo...», tanto à encarnação como ao estado preencarnado de Cristo; e o mais provável é que assim devamos entender, embora o vs. 11 se refira, mais especificamente, à encarnação.

 

«...não o conheceu...» O mundo não reconheceu plenamente nem mesmo o princípio da luz, conforme poderia tê-lo compreendido, porquanto esta passagem declara a imanência da influência da Luz, antes mesmo da encarnação. Por outro lado, também não reconheceram a personificação dessa Luz na pessoa de Jesus, quando a Luz ou «Logos» tornou carne, na pessoa de Cristo. O mundo não o «reconheceu», segundo poderíamos traduzir, nem através de suas obras e de sua influência, antes da encarnação, e nem após a encarnação. Deus procurou curar a fragmentação das ideias sobre a divindade, que o paganismo criara com os seus ídolos, mediante a personificação de todas as ideias divinas em forma humana. Todavia, em forma geral, o mundo continuou dando preferência às suas personificações e fragmentações, a saber, os seus próprios deuses. (Ver At 17:23).

 Ellicott diz mui apropriadamente neste ponto: «O espírito humano deveria ter sentido e reconhecido a sua presença. Nisso manifestar-se-ia o exercício de seu verdadeiro poder e de seu bem mais alto. Porém, o mundo havia perdido os seus sentimentos, havia perdido a sua percepção espiritual, e por isso mesmo, 'não o conheceu'».

 O Logos é a razão universal, e a inteligência do homem é apenas um exemplar dessa inteligência; por esse motivo, tal inteligência deveria sentir certa forma de afinidade com o «Logos», certo conhecimento intuitivo do que é divino. Ou então, poderíamos dizer que Deus outorgou inteligência aos homens a fim de que pudessem reconhecê-lo. Entretanto, a inteligência dos homens se desviou, e eles ficaram agrilhoados ao que é meramente físico. Uma vez prisioneiros do mundo físico, não tinham mais meios de sentir e tatear o que é espiritual. Por isso é que «não o conheceram».

 Alguns traduzem aqui «...não o reconheceram...» Isso significa que o mundo não reconheceu a Cristo. Talvez tenha percebido quem era ele, em certo sentido, mas os homens se recusaram a permitir que esse senso de conhecimento chegasse a produzir fruto. Isso equivaleria a não conhecê-lo, pelo menos o resultado é idêntico, ficando alienados tanto de Deus como de suas próprias almas, de seu próprio ser mais íntimo. Mediante tal recusa, não querendo reconhecer ao Logos divino que permeia ao mundo, qualquer indivíduo fica limitado aos sentidos; ora, a alma limitada aos seus próprios sentidos em breve fica alienada de si mesma, e pode chegar ao extremo de negar até a sua própria existência, asseverando que o homem é meramente material, sem qualquer oportunidade de sobrevivência além da morte. Tais almas estão verdadeiramente presas a esta terra material.

 

1.11: Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 

«Veio para o que era seu...» As palavras «...o que era seu...» poderiam ser traduzidas por sua casa, conforme estão traduzidas nos trechos de Mt 16:32; 19:27 e At 21:6. Alguns preferem traduzir por «...sua própria possessão...» A tradução inglesa RSV diz «...his ownpeople...» (seu próprio povo), e isso pode significar aqueles que pertencem a Deus por serem suas criaturas, ou seja, a raça humana inteira, ou, pelo menos, os judeus, a raça no seio da qual Jesus nasceu, com seus privilégios religiosos peculiares, conforme vemos descritos na passagem de Rm 9:4,5. Apesar de que essa expressão mui provavelmente tenciona revestir-se de um sentido geral, referindo-se à missão inteira da encarnação de Jesus, por outro lado também há uma referência particular ao povo especial para quem Jesus veio, porquanto, segundo devemos lembrar, Jesus é o cumprimento das profecias do V.T. acerca do Messias, e sua missão visava primariamente às ovelhas perdidas da casa de Israel. A expressão é mais vigorosa aqui do que no vs. 10 deste mesmo capítulo. Ali, lemos que o mundo não reconheceu a Cristo, e a sua vinda e missão podem ser reputados como algo mais geral, através de meios provavelmente mais dificilmente reconhecíveis. Mas aqui o «Logos» aparece vindo em forma humana, a realizar muitos milagres e prodígios, a ensinar uma doutrina celestial, revestido de autoridade tal que as próprias autoridades religiosas se admiravam. Estas devem tê-lo reconhecido, pelo menos parcialmente, ainda que as suas mentes estivessem embrutecidas; e, por essa razão, não o receberam. Há uma passagem da obra apócrifa de Enoque (42:1,2) que diz palavras similares:

 «Outrossim, para nós existe esta advertência, que aquilo que eles estavam esperando era um líder de reformas sociais e de aventuras políticas. Caso Cristo lhes tivesse satisfeito o desejo, caso ele se tivesse deixado persuadir por eles em seguir tal curso, muitos deles tê-lo-iam seguido ansiosamente. Todavia, pelas coisas espirituais tinham pouca atração; e não podiam enxergar esperança alguma em uma missão espiritual, atitudes essas que são todas características da nossa própria geração... E alguns não o receberam - embora não nos seja dito por qual motivo. O mais provável, contudo, é que isso se tenha devido a razões usuais. A vida lhes parecia plena e interessante, e ele foi forçado a ficar do lado de fora. Ou então ele não conseguiu comovê-los, por movimentar-se inteiramente fora da linha da atividade deles. Ou então, mesmo que tenham sentido certa atração, contudo, segundo disse Hawthorne, 'O maior obstáculo no caminho de alguém ser um herói é a dúvida se nesse processo não vier a mostrar-se um insensato; o verdadeiro heroísmo consiste em resistir à dúvida; e a mais profunda sabedoria consiste em saber quando a dúvida deve ser resistida, e quando deve ser obedecida'.Quanto a eles, não tinham certeza se ele era a coisa real; e assim se arriscavam a ver-se envolvidos em um ridículo fiasco... Entretanto, os evangelhos deixam claro que muitos se mantinham afastados de Cristo por razões mais sinistras. Ressentiam-se dele; ativamente se aborreciam dele; o que ele lhes oferecia de forma alguma os atraía; e as reivindicações que lhes fazia tão-somente os perturbavam e irritavam. A situação era conforme o próprio Cristo disse francamente em uma patética passagem das Escrituras: ‘E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço’ (Mt 11:6). Ter Cristo a nós oferecido mas não ver nele beleza alguma que no-lo torne desejável; não sentir emoção alguma na oportunidade de servi-lo; fechar os olhos com as próprias mãos, para não ver aquela luz maldita que não queremos e não desejamos ter; retroceder para as trevas, por serem estas o nosso elemento nativo, posto que só nelas nos sentimos à vontade: essa é a mais aterrorizante das condições e o mais grave de todos os julgamentos contra a nossa alma. Não obstante, isso pode acontecer, e de fato assim acontece. Isso explica aquelas entristecedoras palavras: 'Veio para o que era seu, e os seus não o receberam...' (vs. 11).» (Habilmente expresso por Arthur John Gossip, in loc.).

 Neste texto pode-se observar uma profundidade crescente no tom da tristeza, o que está de conformidade com o grau de rejeição aoLogos. A proporção em que a revelação se vai tornando mais brilhante, assim também as responsabilidades morais se tornam mais pungentes e urgentes. As trevas não puderam prevalecer sobre a luz do «Logos». O mundo em geral, tanto antes como depois da encarnação, não pôde e não quis reconhecer a Cristo, o que, por si só, constitui certa forma de rejeição. O que era seu (o povo de Israel)se atolou na perversão e na rebelião morais, tendo-o rejeitado conscientemente.

 

1.12: Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; 

Naturalmente, essa é uma das grandes declarações espirituais do N.T.

 

Considerações sobre a fé: 

1. A fé aceita certas crenças sobre o Salvador, mas é imensamente mais do que uma crença.

2. É a dedicação (entrega) da alma às mãos de Cristo.

3. Essa dedicação efetua certa transformação metafísica na alma.

4. A alma dedicada torna-se luz, segundo o padrão da Luz.

5. A fé é uma qualidade, atributo ou expressão inerente à alma. É uma «decisão da vida» que produz a radical transfiguração do próprio ser.

6. Palavras chaves: Crer, receber, renunciar (à velha vida), participar (da nova vida), conhecer (ao Filho), ser iluminado.

7. A fé é inspirada e criada pelo Espírito (Ef 2:8), fazendo parte do dom da salvação; porém, requer a reação humana.

 

A intensidade da salvação: 

1. A salvação é efetuada pelo Espírito quando da conversão (mediante a fé e o arrependimento).

2. É santificação. A Luz vence as trevas, Jo 1:5.

3. É participação nas virtudes positivas de Deus.

4. É transformação da alma segundo a imagem de Cristo, a fim de participar de sua forma de vida.

5. É participação na vida independente e necessária do próprio Pai

6. É a herança de filhos (seremos co-herdeiros de Cristo, Rm 8:17).

7. É glorificação (Rm 8:30).

8. É participação na natureza de Deus, incluindo os atributos divinos (Ef 3:19 e II Pe 1:4).

9. É compartilhar da natureza, vida, herança e glorificação do Logos de Deus (Jo 1:12). Os remidos serão «logoi»!

 «...O poder de serem feitos filhos de Deus...» Os resultados desse «recebimento» demonstram certa modalidade do «poder» divino, o qual dá começo à transformação do crente em um verdadeiro filho de Deus, feito segundo a imagem de Cristo e a compartilhar da mesma essência divina.

 Por esse motivo, somos forçados a rejeitar interpretações inferiores, que fazem com que esse «poder» seja tão-somente uma «possibilidade» (segundo de Wette e Tholuck), ou uma mera «capacidade» (segundo Bruckner e Godet), uma mera «dignidade ou vantagem» (segundo Erasmo e outros), ou mesmo um mero «direito» ou «privilégio» (segundo Meyer), embora o vocábulo, considerado isoladamente, possa significar exatamente isso. Pelo contrário, tratamos aqui com um «direito» que está apoiado (segundo o próprio texto demonstra) na faculdade espiritual que prove o princípio da regeneração; e isso nos conduz não meramente ao «título» real de filiação (como se via na adoção, segundo os costumes romanos), mas à verdadeira participação da própria essência divina, segundo ela se manifestou na pessoa de Jesus Cristo. Lange diz (in loc): «Essa filiação a Deus, por semelhante modo está vinculada ao «semenarcanum electorum et spiritualium» (contrariamente a Meyer, ver o vs. 9)... Essa regeneração incipiente também, mui certamente, é de natureza ética, embora não somen­te ética: também afeta a substância. Cristo é o eterno e unigênito Filho de Deus, por razão de sua própria natureza; os homens se tornam filhos de Deus mediante a regeneração, isto é, um nascimento celestial. Comparar com Jo 3:3; I Jo 3:9; Gl 3:26 e I Pe 1:23)». E isso expressa a verdade do caso.

 

1.13: os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.

 Visto que essas expressões podem revestir-se de diferentes implicações históricas, especialmente no que respeita às várias crenças do homem antigo no que tange ao processo da reprodução, existem muitas e variegadas interpretações acerca do sentido possível dessas frases.

 

«...não nasceram do sangue...» A maioria dos eruditos aceita que essas palavras simplesmente são uma alusão à geração natural, e pensa que se refere à noção judaica de que o mero fato físico de alguém ser judeu era suficiente para outorgar a um indivíduo, automaticamente, o mérito da salvação. Essa mesma ideia podemos encontrar mais adiante, neste mesmo evangelho de João (oitavo capítulo), onde Jesus procura mostrar, aos judeus, que Deus poderia suscitar filhos até mesmo das pedras; e que descendência humana, apesar disso conceder certos privilégios, até mesmo de ordem religiosa, não é capaz, entretanto, de propiciar qualquer direito espiritual a quem quer que seja, posto que a salvação é uma questão exclusivamente pessoal. Por extensão dessa ideia, podemos ensinar que pais crentes não reproduzem, necessariamente, filhos crentes; e nem um passado de constante freqüência aos cultos de uma igreja produzem tais resultados. Tal ideia pode estender-se a ponto de incluir qualquer instituição humana ou mérito tomado de empréstimo, quer institucional, religioso ou ancestral, isto é, qualquer vantagem que se origine de tais conexões, as quais, de forma alguma, podem adquirir mérito diante de Deus, e nem podem produzir aquele renascimento celestial que é necessário para que o pecador venha a participar da salvação de Deus.

 A palavra «...sangue...», nesta passagem, literalmente traduzida seria o plural, «...sangues...»— «...não nasceram dos sangues...». Diversos intérpretes tentaram esclarecer a questão de variegadas formas:

a. Adam Clarke escreveu: «A união de pai e mãe, ou de uma linhagem ilustre e distinguida de ancestrais; porquanto a linguagem hebraica faz uso do plural para salientar a dignidade ou excelência de alguma coisa: e é muito provável que, ao usar aqui o plural, o evangelista tencionasse mostrar, aos seus compatriotas, que o fato de terem Abraão e Sara por seus primeiros progenitores não os capacitava, por si só, a receberem as bênçãos do novo pacto». (In loc). Apesar de estarem de conformidade com o argumento geral, aqui exposto, alguns intérpretes põem em dúvida se isso expressa a verdade, em fato do plural ter sido usado aqui.

b. Westcott diz: «O emprego do plural parece enfatizar a ideia do elemento do qual se formam as diversas medidas do corpo».

c. Outros (como Godet e Meyer) acreditam que isso é meramente uma referência aos múltiplos elementos que compõem o sangue.

d. Dods crê que se trata de uma espécie de plural simbólico, a fim de denotar todas as histórias e «pedigrees» históricos, que não têm vinculação alguma com o nascimento espiritual. Não podemos confirmar qualquer dessas interpretações, mas sabemos que, segundo a fisiologia dos gregos, o sêmen do pai se misturava com o sangue da mãe, e que era dessa mistura que, segundo eles, havia a concepção de um infante. Seja como for, o autor estava falando sobre a descendência humana, sem importar qual seja o seu caráter exato.

 Diversas interpretações de: «...nem da vontade da carne...»

 

a. impulsos sexuais da mulher (diversos pais e intérpretes modernos)

b. os impulsos sexuais de modo geral

c. impulsos inferiores, paixões animalescas

d. qualquer propósito humano

e. qualquer coisa que o coração corrupto do homem possa planejar ou efetuar

f. a descendência humana, física, ou nascimento nobre (como na descendência de Abraão)

g. todas essas ideias, de várias maneiras, exigem origem divina para o nascimento dos filhos de Deus.

 

«...nem da vontade do varão...» 

a. impulsos sexuais do homem

b. motivos humanos que transcendem aos impulsos meramente físicos, como as nobres intenções dos homens

c. a paternidade humana

d. qualquer coisa que uma pessoa possa fazer em prol de outrem

e. qualquer esforço humano, inclusive os de ordem religiosa, ou os esforços mais nobres, etc.

f. geral: qualquer coisa que alguém possa fazer em proveito próprio. 

As duas declarações em conjunto: Exigem, de modo absoluto, que o novo nascimento ocorra pelo poder divino, através das operações do Espírito. Este texto antecipa Jo 3:3-5. No homem não há qualquer qualidade que mereça a salvação. O homem nada pode fazer para torná-la realidade. Pela graça sois salvos, Ef 2:8. 

«...mas de Deus...». A regeneração da alma, que a capacita para ocupar um lugar no reino celestial, e que eventualmente a conduz à total conformação com a imagem de Cristo, tanto moral como substancialmente (isto é, segundo a sua própria essência ou natureza), tem lugar através de meios espirituais, e tem por sua origem o próprio Deus. Por intermédio do Espírito Santo é que Deus opera uma total transformação, um autêntico novo nascimento. Esse nascimento não ficará totalmente completo enquanto não entrarmos na perfeição absoluta; contudo, podemos dizer que ela já ocorreu, posto que o seu passo inicial foi realizado quando do exercício da fé salvadora, nos primeiros estágios da regeneração. Dessa maneira, os homens são nascidos do alto agora, no aspecto que os primeiros passos da regeneração já tiveram lugar; porém, no sentido absoluto, não «nasceremos do alto» enquanto não tiver ocorrido a completa transformação de nossos seres mortais.

 Dods (in loc.) observa: «A fonte da regeneração é aqui positivamente declarada. A vontade humana é repudiada como fonte do novo nascimento; contudo, assim como quando do nascimento físico a vida da criança se manifesta imediatamente, assim também, quando do nascimento espiritual, a vontade humana manifesta desde o princípio a regeneração. Tanto no nascimento físico como no nascimento espiritual, a fonte originária é externa, e não está no próprio nascituro; porém, visto que o nosso novo nascimento é de natureza espiritual, a vontade deve participar ativamente do mesmo. Nada de espiritual pode ocorrer sem o concurso de nossa vontade».

 O versículo décimo terceiro conta com uma estranha variante textual que exibe o singular, a saber, «...que não nasceu do sangue,etc...», ao invés do plural tão conhecido, isto é, «...os quais não nasceram do sangue, etc...» Naturalmente, o singular é uma tentativa de referência a Cristo, e não ao indivíduo regenerado; e também deve ser uma tentativa de referência ao nascimento virginal de Jesus. Não existem manuscritos gregos que contenham essa variante, embora existam algumas outras impressionantes evidências que favoreçam o uso do singular nesse caso, o que emprestaria ao evangelho de João ao menos uma referência ao nascimento virginal, que de outra maneira ficaria inteiramente silencioso a respeito. Alguns dos primitivos pais da igreja apresentaram essa variante na versão latina, «qui natus est», no singular, tais como Irineu e Tertuliano, e talvez também tenham sido seguidos por Agostinho e Justino Mártir. O importante manuscrito latino intitulado «b» contém essa variante (século V D.C.).

 Tertuliano acusou os seguidores de Valentino de haverem modificado o pronome relativo singular para o plural, e o verbo singular para o plural (de Carne Christi XX). Tertuliano usou o singular na controvérsia contra os ebionitas, e a verdade é que as citações dos pais da igreja mencionados (os mais antigos) datam de antes dos manuscritos chamados Vaticanus e Sinaiticus em cerca de cento e cinqüentaanos. Entretanto, o recém-descoberto ms P (75) (de cerca de 175 D.C.) exibe o plural, como também o outro antiqüíssimo papiro P (66) (dos fins do século II ou dos começos do século III D.C). Mui curiosamente o manuscrito siríaco curetoniano diz «os quais», no plural, embora seguido pelo verbo vazado no singular. Alguns eruditos das versões siríacas (Burkitt e a sra. Lewis, descobridora do ms Si (s) têm conjecturado que o siríaco original exibia o singular. Hort considerava essa variante no singular como um importante textoocidental, isto é, originado entre as igrejas cristãs ocidentais, embora a tenham rejeitado como original.

 Alguns eruditos modernos têm argumentado em favor da variante no singular, como o caso de A.T. Robertson, que escreveu cerca de doze páginas em torno dessa variante (no capítulo XV de seu livro), na tentativa de confirmá-la como texto original, baseando-se parcialmente em evidências textuais, como aquelas mencionadas, ou baseando-se em considerações intrínsecas, isto é, no fato de que o nascimento virginal se adapta admiravelmente bem dentro da intenção do primeiro capítulo do evangelho de João, que apresenta os detalhes da doutrina sobre o «Logos». (Ver Studies in the Text ofthe New Testament, A.T. Robertson, Nova Iorque: George H.DoranCompany, 1926). Não obstante, posteriormente, em sua obra Word Studies (Broadman Press, Nashville, Tennessee, 1932), esse mesmo autor reverte a sua posição, ao declarar: «...mas todos os manuscritos gregos unciais dizem 'hoi egennethesan' (plural), e isso deve ser aceito. O nascimento virginal é indubitavelmente referido no versículo catorze, mas não é declarado no versículo treze». Naturalmente, isso representa uma decisão mais sábia de Robertson, pois quando todos os manuscritos gregos dão um texto particular, sem qualquer desacordo, acrescendo-se a isso o fato de que, nesse caso, há o apoio dos dois mais antigos papiros em existência, o P (66) e o P (75), na realidade não há outra alternativa além de concordar com o texto, aceitando-o como original.

 

1.14: E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. 

«E o Verbo se fez carne...». O majestático prólogo foi desenvolvendo impacto até este ponto, demonstrando a história do Logos antes de sua encarnação, a sua eternidade essencial, a sua divindade, a sua função criadora; e agora é exposta aquela característica distintiva da doutrina joanina do «Logos», que faz contraste com a doutrina da primitiva filosofia grega, da teologia hebraica, dos pensamentos do neoplatonismo, como aqueles que foram esposados por Filo. (Quanto a uma completa discussão acerca da doutrina do «Logos» e seu desenvolvimento, ver as notas existentes nos vss. 1-3 deste mesmo capítulo).

 Este vs. 14 faz parte integral da seção que cobre os vss. catorze a dezoito, e que serve de coroa da doutrina do Logos, parte essa que contém a mesma mensagem essencial do evangelho inteiro de João. A declaração «E o Verbo se fez carne...» é um repúdio definido contra todo e qualquer ensinamento gnóstico, tanto no que tange à natureza do «Logos», como no que se refere ao repúdio à natureza física humana. Os gnósticos ensinavam que o corpo é a residência do princípio do mal, e também diziam que aquilo que fazemos com os nossos corpos pouca diferença faz para as nossas almas; e que é por ocasião da morte que o espírito fica liberto desse princípio mal. No entanto, o N.T., apesar de encontrar muito maior valor no espírito humano do que no corpo do homem, não declara que este contenha o princípio do mal; que seja um obstáculo, está certo, mas não que seja inerentemente perverso. O corpo não pode mesmo ser inerentemente mal, porquanto o próprio «Logos», o mais elevado de todos os seres espirituais, pôde manifestar-se em carne, isto é, em uma verdadeira encarnação. Ora, uma das mais bem salientadas doutrinas deste evangelho de João é justamente esta—a encarnação foi real, Jesus foi um homem autêntico, e não um fantasma; Jesus sofreu as tristezas humanas e teve uma morte vergonhosa. Tudo isso seria impossível, caso fossem verdadeiros os ensinamentos dos gnósticos. O apóstolo Paulo afirma a mesma verdade em Rm 8:3. Alguns gnósticos ensinavam que o Cristo Espírito (o «Logos») teria descido sobre o homem Jesus, por ocasião de seu batismo, tendo-se afastado dele quando da crucificação, porquanto o verdadeiro «Logos», na opinião deles, não poderia nem nascer como homem e nem morrer. Dessa maneira, os gnósticos julgavam que o versículo catorze do primeiro capítulo do evangelho de João se referia ao batismo de Jesus, e não ao seu nascimento. Não obstante, os vss. 32-34 desse mesmo primeiro capítulo mostram, mui claramente, que foi o Espírito Santo que desceu sobre o Senhor, por ocasião de seu batismo, e não o «Logos».

 «O vs. 14 contém a ideia central do prólogo—o evangelho e o sistema do cristianismo—sim, até mesmo a ideia central da história inteira do mundo. Pois a história antiga, anterior à encarnação, foi uma preparação para a vinda de Cristo, como cumprimento de todos os tipos simbólicos, profecias e mais nobres aspirações dos homens; e a história, após esse acontecimento, é subserviente à propagação e ao triunfo do cristianismo, até que Cristo venha a ser tudo em todos. A teologia joanina é cristológica do princípio ao fim (comparar com I Jo 4:2,3); a teologia de Paulo, nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas é antropológica e soteriológica, mas, nas epístolas aos Colossenses e aos Filipenses é, por semelhante modo, cristológica, ao passo que no trecho de I Tm 3:16 o apóstolo Paulo faz da encarnação o fato central de nossa religião. Contudo, a ideia da encarnação, o grandioso mistério da piedade, não deve ser confinada ao mero nascimento de Cristo, mas deve ser estendida a toda a sua vida divino-humana, à sua morte e à sua ressurreição; trata-se de Deus manifestado na carne». (Philip Schaff, in loc. no Lange's Commentary).

 

Considerações: 

1. Ele participou de nossa natureza para destruir as forças do mal (quando de sua morte), Hb 2:14.

2. Ele assumiu nossa natureza para que, por nossa vez, pudéssemos assumir a sua natureza, Fp 2:7 e Cl 2:9, 10.

3. Ele participou da nossa miséria, para que pudéssemos participar de sua plenitude, Ef 1:23 e 3:19.

4. Ele andou em nossas trevas, para que pudéssemos participar de sua luz, Jo 1:9 e Cl 1:13.

5. Ele é o Caminho (Jo 14:6), mas também é o Pioneiro, o primeiro a andar por esse caminho, Hb 5:9.

6. Ele experimentou nossas fraquezas, para que pudéssemos participar de sua vida eterna, Rm 8:3 e Hb 2:9.

 O TRECHO de Rm 8:3 fornece-nos uma importante definição acerca da natureza da encarnação: «Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus, enviando o seu próprio Filho, em semelhança de carne pecaminosa, e, no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado». Isso demonstra, de forma conclusiva, que a «carne» que Jesus tomou para si mesmo era idêntica à de todos os outros homens, isto é, ele era um homem real, e não uma imitação de homem ou uma representação humana parcial. Dessa forma, as conjecturas que asseveram que ele não tinha alma humana (Prazeas, Kostlin, Zeller e outros) são todas falsas. Outrossim, cumpre-nos rejeitar ideias semelhantes às do gnosticismo, que dizem que apesar dele ser humano, contudo, em sua humanidade, ele era uma espécie de super-homem, e que, nessa qualidade, ele foi exaltado acima das limitações materiais dos homens (conforme ensinava o sistema valentiniano).

 O Logos se tornou carne, e acerca disso declarou Ewald (segundo foi citado no Lange's Commentary): «De todas as palavras queexpressam a natureza humana, João selecionou as mais vis e mais desprezíveis, isto é, a carne, vocábulo esse que, no V.T., denota a porção mais inferior, perecedora, corruptível do homem; porém, nem mesmo o «Logos» desprezou a «carne», e por isso ele se tornou homem no sentido mais absoluto do termo. A expressão utilizada pelo apóstolo Paulo, < carne pecaminosa >, serve para destacar esse particular. Cristo não pecou, e no entanto tomou sobre si aquela natureza humana que se deixara envolver demasiadamente no princípio do mal, e assim ficara debilitada, a fim de que a pudesse elevar até aos lugares celestiais. (Quanto a versículos que falam sobre a alma de Cristo, ver Jo 11:33; 13:21; 19:30).

 «...habitou entre nós...». Essas palavras implicam em mais do que a tradução em português parece indicar. A palavra grega traduzida por «habitou», neste caso, se deriva do substantivo que significa «tenda»; e é bem provável que apesar desse vocábulo ser usado no simples sentido de «habitar», sem qualquer referência à sua etimologia, contudo, o místico autor deste evangelho talvez tenha querido fazer uma definida alusão ao tabernáculo, armado no deserto, onde o Senhor viera habitar no meio do seu povo. (Ver Êx 25:8,9 e 40:34). Estamos lembrados das manifestações visíveis da presença de Deus, como no caso da coluna de fogo e nuvem, que pairava por cima da tenda da congregação; e isso servia de sinal externo de que Deus, em forma perfeitamente real, habitava com o seu povo antigo.

 A presença de Deus, de acordo com o uso judaico posterior, veio a ser designada como a «shekina», que poderia sugerir, aos judeusbilíngües, o vocábulo grego de pronúncia semelhante, skene, isto é, «tenda». Dessa maneira, a presença de Deus, neste versículo, é salientada; e essa presença se tornara agora visível por intermédio do «Logos» na carne, a saber, Jesus Cristo. Assim sendo, Deuscontava com seu tabernáculo entre os homens. (Ver Lv 27:11; II Sm 7:6; Sl 78:67 e Ez 37:27). Nas páginas do V.T., o tabernáculo era tanto o lugar da habitação de Deus como o lugar de encontro entre Deus e os homens. Assim também o «Logos» veio ter com os homens, tornou-se homem, e, ao mesmo tempo, era Deus manifestado aos homens. O termo «tabernáculo» também pode dar a entender uma permanência apenas temporária; e isso expressa a verdade, em certo sentido, porquanto o «Logos» desde há muito passou para uma dimensão mais elevada, e está em um estado de glória. Não obstante, o tabernáculo de Deus, de outras formas, está sempre entre os homens, como também é indicado pela passagem de Ap 21:3, que diz: «...Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles». (Ver também o trecho de Ap 7:15).

 «...entre nós...» Indubitavelmente temos aqui uma alusão de um contacto face a face com o «Logos». «De acordo como o espetáculo se apresentava ante a mente do evangelista, e considerando como a memória mais pessoal as palavras 'entre nós', isso se tornou para ele o objeto de uma deleitosa contemplação». (Godet, in loc).

 Referência semelhante, embora mais completa, é nos oferecida por esse mesmo autor sagrado, em I Jo 1:1,2, onde ele diz: «O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida, e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho...».

 Apesar de que isso alude, de forma definida, ao testemunho ocular de João, que pôde contemplar ao Logos e à sua glória, com os seus próprios olhos, por extensão, isso significa que o «Logos» habitou entre os homens, no meio da humanidade em geral; e assim ele pôde ser contemplado, porquanto aqueles que o viram pessoalmente haveriam de ser testemunhas oculares dessa visão, tendo descrito a mesma, bem como a sua importância, para todos os homens. Por isso mesmo compreendemos que essa revelação visava todos os homens, a humanidade inteira, e certamente os efeitos dessa revelação têm por intenção ser aplicados a todos os homens de todos oslugares da terra. Os trechos de I Pe 3:18,19 e 4:6 ensinam os efeitos universais da encarnação, da morte, da ressurreição e da glorificação do «Logos», onde aprendemos que até os níveis espirituais mais inferiores foram só erguidos por essa visitação de Deus na pessoa do «Logos».

 Dante, no sétimo canto de seu poema Paraíso, fala sobre o «Logos» e a encarnação como segue:

...a espécie humana, lá em baixo Jaz enferma por muitos séculos, em grande erro, Até que ao Verbo de Deus agradou descer Até onde a natureza, de seu próprio Criador Se alienara, Ele se uniu a Ele, em pessoa, Por ato exclusivo de Seu eterno amor.

 «...vimos a sua glória...». Novamente vemos aqui uma alusão às manifestações de Deus nas páginas do V.T. Ali lemos que Deus se manifestou de maneiras que pudessem ser percebidas e compreendidas pelos homens. (Ver Ex. 16:10; 24:16; I Rs 8:11; Is 6:3 e Ez 1:28). Entretanto, ocasionalmente—resplandecia—uma glória maior do que a comum, na pessoa de Cristo, a ponto mesmo dos homens terem dificuldade em suportar tais manifestações. Isso se verificou particularmente quando da transfiguração de Jesus. (Comparar Lc 9:31com II Pe 1:16,17). Em alguns dos milagres operados por Cristo essa glória se evidenciou de modo todo especial. (Ver Jo 2:11; 11:4,40). Essa glória se manifestou, embora com menor resplendor, na vida e no caráter perfeitos de Jesus, isto é, em seu cumprimento da ideia absoluta do que seja um verdadeiro homem.

 

Philip Schaff (in loc., no Lange's Commentary) distingue quatro estágios nessa glória de Cristo:

 1. A glória do estado anterior à encarnação, na preexistência, que o «Logos» desfrutava junto ao Pai. (Ver Jo 17:5).

2. A manifestação simbólica e preparatória dessa glória, no V.T., conforme vista pelo olho profético, como no trecho de Is 12:41.

3. Sua revelação visível, na forma humana, na vida e na obra do Verbo encarnado, que resplandecia em cada milagre, conforme se vê, por exemplo, no trecho de Jo 2:11.

4. A manifestação final e perfeita de sua glória divino-humana, na eternidade, e da qual todos os crentes haverão de compartilhar, segundo se lê em Jo 17:24. 

«...glória como do unigênito do Pai...» Este outro acréscimo na realidade serve de explicação sobre a menção da «glória» do «Logos», imediatamente anterior. Existem diferenças de opinião sobre o sentido do termo «unigênito», segundo é aqui usado:

a. Alguns atribuem o vocábulo ao nascimento físico de Cristo, ensinando que isso significa que Jesus, em seu nascimento, foi o «unigênito» de Deus. Portanto, a referência diria respeito, principalmente, ao nascimento virginal de Jesus, a partir da ocasião em que ele teria passado a ser chamado de «unigênito» de Deus. Assim escreveu Adam Clarke (in loc): «Isto é, o único filho nascido de uma mulher, cuja natureza humana não se derivava do modo ordinário de geração; porque era mais uma criação, operada no ventre da virgem, mediante a energia do Espírito Santo». Não obstante, a maioria dos intérpretes rejeita essa interpretação como explicação adequada para o termo «unigênito».

b. Outros vinculam esse vocábulo—unigênito—à ressurreição de Cristo, dizendo que se refere à ocasião em que ele foi gerado por Deus para uma existência mais elevada. Isso expressa certa verdade; mas o termo «unigênito» não faz alusão alguma a essa ocorrência, e aparece em diversos trechos bíblicos de forma completamente desvinculada de qualquer ensino sobre a ressurreição. John Gill (in loc) observa que muitos milhões de criaturas humanas compartilharão dessa ressurreição, e que, por isso mesmo, dificilmente Cristo poderia ser chamado de «filho unigênito», se a ressurreição estivesse em vista aqui.

c. Outros estudiosos são da opinião de que Cristo se tornou o «filho unigênito» de Deus por meio de uma adoção especial como filho, por parte de Deus Pai. Assim também pensavam os gnósticos. Porém, tornar-se «filho unigênito» não é a mesma coisa que ser adotado. Essas são duas ideias distintas entre si. Acresça-se a isso o fato de que ninguém pode demonstrar a ideia da adoção, aplicada a Cristo, por meio das Escrituras. Aqui temos a perversão gnóstica da cristologia.

d. Os socínios e unitários ficam muito aquém da verdadeira significação do termo quando asseveram que isso simplesmente quer dizerbem-amado, expressando algum favor especial de que Jesus desfrutava (acima de qualquer outro homem), por motivo de sua pureza de vida especial.

e. Bem ao contrário dessa ideia, o credo niceno, acompanhado por muitíssimos intérpretes, esclarece o termo da seguinte maneira: «O Filho unigênito de Deus, gerado por seu Pai antes de todos os mundos». Assim sendo, tal designação alude ao estado de existênciapreencarnada de Cristo, salientando alguma espécie de relação que havia entre Deus Pai e Deus Filho. Esse ensino equivale àquilo que os teólogos têm chamado de geração eterna do Filho.

 O termo «unigênito», quando aplicado a Cristo, nos evangelhos se encontra exclusivamente neste evangelho de João. Ver Jo 1:18 e 3:16,18. Ver também I Jo 4:9. Além dessas ocorrências do termo, encontramo-los por quatro outras vezes nas páginas do N.T., e sempre para indicar um filho único. (Ver Lc 7:12; 8:42; 9:38 e Hb 11:17). Tal vocábulo não dá a entender nem posterioridade e nem inferioridade, e, sim, uma modalidade toda especial de relação. O trecho de Cl 1:15 diz «primogênito de toda a criação». Para Deus. Cristo é o «unigênito» (o único que participa, desde toda a eternidade passada, da natureza divina). Para a criação, entretanto, Cristo éo «primogênito», porquanto nele reside o princípio do novo nascimento, a regeneração da criação inteira, especialmente no que diz respeito aos homens, os quais haverão de, uma vez redimidos, serem transformados segundo a sua imagem.

 O uso feito por Paulo desse termo assinala a relação eterna existente entre Cristo e o universo ou criação. João destaca a relação sem-par existente entre Deus Filho e Deus Pai. O Filho «era», e não «tornou-se». Ele é alguém eternamente gerado, porquanto não teve começo no tempo. Essa relação não é retratada como algo que teria ocorrido mediante alguma reforma moral, adoção ou geração moral, porquanto já existia ou «era» desde o princípio.

 «A declaração é de natureza antropomórfica (atribuindo forma humana e maneiras humanas de atividade a Deus, como quando falamos de 'mãos', 'face', 'olho' de Deus, etc., ou como quando lemos de 'geração', como vemos aqui), e por isso mesmo não pode expressar plenamente a relação metafísica». (Vincent, in loc). Posto que a expressão é antropomórfica, não podemos pressioná-la demasiadamente, exigindo uma explicação da mesma, capaz de descrever apropriadamente a relação que há entre Deus Pai e Deus Filho.

 O que se depreende de tudo isso é que Cristo é o princípio de todos os demais nascimentos e regenerações. «O vocábulo se refere aostekna de Deus, que aparece no vs. 12, e determina a diferença entre Cristo e os crentes:

1. Ele é Filho unigênito no sentido que não há outro que se lhe compare; mas eles são muitos.

2. Ele é o Filho de Deus desde a eternidade; eles se tornam filhos dentro do tempo.

3. Ele é o Filho de Deus por natureza; eles são feitos filhos, mediante a graça e a adoção.

4. Ele tem a mesma essência do Pai; eles são de substância diferente. (Apesar disso demonstrar a verdade pelo momento, o desígnio do evangelho é que, eventualmente, os filhos adotados venham a compartilhar da natureza essencial do Logos)». (Philip Schaff, in loc, noLange's Commentary). Lutero disse (in loc): «Deus tem muitos filhos, mas apenas um Filho unigênito, por meio de quem são feitas todas as coisas e todos os outros filhos».

 «...cheio de graça e de verdade..». Encontramos aqui uma combinação de virtudes bastante comum nas páginas do V.T. (Ver Gn24:27,49; 32:10; Êx 34:6; Sl 40:10,11; e 61:7). Nessas palavras está sumariado o caráter da revelação divina. Westcott, segundo citado (in loc.) por Vincent, diz: «A graça corresponde à ideia da revelação de Deus na qualidade de amor (I Jo 4:8,16), por meio daquele que é a vida; e a verdade corresponde à revelação de Deus como luz (I Jo 1:5), por meio daquele que é a luz». «Não somente ele viu toda graça e verdade, mas graça e verdade parecem estar concentradas em Cristo. E justamente nisso consiste a sua glória, porquanto a graça e a verdade são os principais atributos de Jeová no Antigo Testamento, posto que o espírito messiânico reconhecia-o, proeminente­mente, como o Deus da redenção...Cristo, como redenção absoluta, era pura graça; e, como revelação absoluta, era pura verdade». (Lange, inloc).

 A misericórdia pode expressar a —compaixão divina—para com os homens em erro. A graça expressa a iniciativa de Deus ao satisfazer essa necessidade de redenção por parte do homem, necessidade essa provocada pela natureza pecaminosa do homem. Mas a graça e a verdade são princípios da soteriologia, isto é, nessas virtudes contemplamos, claramente, o esquema da redenção. Cristo é a graça de Deus manifesta. O ministério inteiro da encarnação é uma descrição grandiosa dessa graça. Por sua vez, a verdade fala sobre Cristo como a revelação de Deus. Esta palavra, «verdade», é utilizada por cerca de trinta vezes no N.T., e traz consigo o sentido essencial que é conferido, no V.T., a termos como «fidelidade», «dignidade», «realização» e «certeza». No grego do N.T., entretanto, usualmente se reveste a ideia de verdade em contraste com a «falsidade»; ou a ideia de «realidade», em oposição à mera «aparência».

 «Aqui a passagem pode ser interpretada como se quisesse dizer que, partindo da vida de Deus, que é o único revestido de realidade e de permanência, certa atividade do amor entrou na história humana e trouxe o dom da vida eterna para o presente». (Wilbert F. Howard, in loc).

 O vs. 17 demonstra que o autor sagrado queria que compreendêssemos que Jesus Cristo nos trouxe uma revelação muito maior da graça e da verdade, no «Logos» (ou no cristianismo), do que sucedera nos escritos de Moisés e nas demais revelações judaicas; ou talvez fosse mais acertado dizer que a completa revelação de Deus foi conseguida nas atividades do «Logos».

  

Fonte EBDAREIABRANCA

FONTE comentário bíblico novo testamento Normam Russel Champlin,2003

fonte www.pentecostalteologia.blogspot.com.br